Fogo nas entranhas – Pedro Almodóvar
ago 24th, 2009 | Por Julieta Jacob | Seção: CríticasSem frescura
Era uma vez Júlio, que amava Raimunda, que foi atacada por Roque, que era marido de Eulália, que não gostava de Isidra, que era tia de Raimunda, que trabalhou com Katy, Mara, Diana e Lupe, que foram amantes de Chu Ming Ho, que não amava ninguém.
A cadeia sexual “drummondiana” descrita acima é o fio condutor de Fogo nas Entranhas, de Pedro Almodóvar. Um livreto safado e pequenino, que traz na capa cores quentes e a imagem de uma mulher envolta por labaredas – o que já nos dá uma boa prévia do que virá pela frente. Foi num sebo do bairro da Liberdade, em São Paulo, que eu me deparei com ele, indiscreto, na prateleira. Para levá-lo para casa, desembolsei a bagatela de R$ 12,00. Com o livro na bolsa, faltava pouco para devorá-lo. Estava ansiosa. Até então, eu era fã do Almodóvar cineasta. Mal comecei a leitura, já percebi que o talento do espanhol vai além da sétima arte.
O livro é todo dividido em capítulos curtinhos, que a princípio parecem independentes, mas que aos poucos vão se conectando entre si. Enquanto lia, por várias vezes me peguei boquiaberta diante da genialidade do autor. Interrogações do tipo: “de onde esse cara tirou isso?” me vieram diversas vezes à mente. A maneira como ele descreve os personagens é quase sempre engraçada e, às vezes, chega a ser desconcertante. O chinês Chu Ming Ho, por exemplo, que em 1950 se mudou para a Espanha (onde abriu uma fábrica de absorventes), era um “virtuosi em matéria de cuidar de uma xoxota com a língua”. Já Lupe, era considerada uma ótima funcionária porque “tinha uma xoxota padrão, que servia de modelo para testar os absorventes”.
Tudo se passa em Madri. O elo de ligação entre os personagens é a fábrica de absorventes Ming, onde Raimunda, a freira, Katy, a abelhuda, Mara, a cínica, Diana, a orgulhosa, e Lupe, a hippie, trabalharam. Donas de personalidades pitorescas e marcantes, todas têm em comum o fato de terem sido amantes do chinês. Invariavelmente os relacionamentos eram baseados apenas em sexo. No fim de cada “namoro”, Chu Ming Ho sempre se deu mal: acabou ora abandonado, ora traído pelas belas fêmeas. Revoltado, Ming decide se vingar não apenas das ex-amantes, mas de todas as mulheres da cidade. Sua arma foi o absorvente Ming de última geração, especialmente criado, em segredo, pelo chinês . Como promoção de lançamento, o produto inovador “para todos os dias do mês” foi distribuído gratuitamente nas farmácias e drogarias de Madri. Após usá-lo, as mulheres eram acometidas pelo tal Fuego en las entrañas, ou seja, por uma vontade incontrolável e insaciável de sexo.
O narrador da história parece ser o próprio Almodóvar, que demonstra intimidade com as personagens, ao mesmo tempo em que define o destino de cada uma delas com pitadas de bom humor e praticamente nenhum dilema psicológico. A presença das mulheres é marcante, o que já era de se esperar do cineasta de alma feminina. Há ainda outros traços do cinema presentes na literatura do espanhol. Um deles é a presença do “inesperado”. Assim como nos filmes, personagens apáticos e sem expressão alguma ganham um final surpreendente, seja ele trágico, cômico, ou ainda a mistura das duas coisas. É o caso de Isidra, uma anciã de 70 anos, virgem e mestra na arte de enganar a si própria. O que aconteceu com ela? Depois de experimentar um dos absorventes “envenenados”, transformou-se numa devassa ninfomaníaca com direito a um capítulo especial só pra ela: “Isidra perde o cabaço”, em que a vovó transa à força com o patrão, Roque.
Algumas passagens se encaixariam perfeitamente num roteiro de cinema, tamanho é o apelo visual que possuem. Eu classificaria Fogo nas Entranhas como uma novela que, acredito, faria muito sucesso na TV brasileira. Numa adaptação literal (e imoral), bem que poderia se chamar “Calor na Bacurinha”. Os telespectadores logo iriam ficar excitados (mais do que encantados) com o jeito Almodóvar de falar da intimidade alheia. E, certamente, iriam chegar à conclusão de que, como sugere o autor, sexo bom é sexo safado. E sem frescura.
Julieta Jacob
lido em julho de 2009
escrito em agosto de 2009
: : TRECHO : :
“Para centenas de mulhers madrilenhas, a vida tinha ganho um novo sentido. O fogo que fulminava de suas entranhas não tinha descanso. Os homens não conseguiam acalmá-las totalmente, mas a situação melhorava quando eles estavam dentro delas. Era como se coçar: você só consegue se excitar ainda mais, mas enquanto se excita acaba sentindo um prazer indescritível.”
: : FICHA TÉCNICA : :
Fogo nas entranhas
Pedro Almodóvar
Dantes
1ªedição, 2000
123 páginas
É uma delícia mesmo esse livro