Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos - Ana Paula Maia

nov 2nd, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Cão que ladra não morde

Uma das características mais intrigantes da internet é o seu potencial de criar fenômenos de popularidade sem a exigência de mérito. Ainda que a amplitude do campo da literatura seja minguada em relação ao alcance de músicas e vídeos, o universo das letras não saiu isento à rede mundial de computadores. Embora tenha aparecido em coletâneas de contos e depois com o romance A guerra dos bastardos (2007), a escritora Ana Paula Maia ganhou fama após ter lançado o primeiro folhetim do país na internet - Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, que sai agora em papel pela Record.

O volume reúne ainda a novela O trabalho sujo dos outros, que fora publicada na rede sob o título Barbudos cretinos e suas histórias canalhas. Apesar de serem narrativas separadas e independentes, as personagens das duas novelas se cruzam num momento irrelevante, porém curioso, das suas tramas. Mas a ligação entre essas histórias é mais forte no aspecto temático, no olhar interessado da autora em tipos truculentos, abortos da sociedade, elementos sórdidos e, principalmente, na sua falta de habilidade em lidar com as palavras.

Ao longo das 158 páginas do livro, Ana Paula se revela uma adolescente rebelde, um grito sem desespero, uma mera tentativa de imitar a literatura suja de um Charles Bukowski ou Pedro Juan Gutiérrez. As investidas da escritora nesse universo periférico – de homens renegados com instintos de bicho, que trabalham matando porcos e recolhendo lixo – ficam na superfície, distantes da imundice que ela descreve em suas histórias. A miséria de Ana Paula não tem cheiro, é cômoda, estética, apenas um cenário novelesco de televisão que a gente assiste enquanto janta.

Usadas na intenção de chocar, as palavras são jogadas ao vento, a violência passa desapercebida como mais uma foto ensanguentada de jornal sensacionalista. As narrativas são meros relatos de fatos e clichês forjados para atacar a estética do belo. O resultado, porém, soa falso, fajuto. A periferia retratada por Ana Paula parece ser feita de plástico, onde habitam o abatedor de porcos Edgar Wilson (protagonista de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos) e o gari Erasmo Wagner (de O trabalho sujo dos outros). Dois brucutus que lutam pela sobrevivência num de universo de podridão cênica.

Os personagens parecem não ter vontade própria, são manipulados como títeres pela autora. O que até poderia ser entendido como uma reflexão sobre o controle da sociedade, soa mais como resultado de deficiências literárias. As histórias seguem um ritmo de samba do crioulo doido, que não sabe para aonde vai, com páginas e páginas cheias de diálogos vazios, descrições que se pretendem transmitir a força da realidade, mas terminam naufragando pela falta de verdade.

Thiago Corrêa
lido em Ago./Set. de 2009
escrito em 02.09.2009

: : TRECHO : :
“Cão de rinha é um cão que não teve escolha. Ele aprendeu desde pequeno o que seu dono ensinou. Podem ser reconhecidos pelas orelhas curts ou amputadas e pelas cicatrizes, pontos e lacerações. Não tiveram escolhas. Exatamente como Edgar Wilson, que foi adestrado desde muito pequeno, matando coelhos e rãs. Que carrega algumas cicatrizes pelos braços, pescoço e peito. São tantos riscos e suturas na pele que não se lembra onde conseguiu a metade. Porém a marca da violência e resistência à morte de outros animais nunca tiraram o brilho de seus olhos quando contempla um céu amplo.” (p. 69).

: : FICHA TÉCNICA : :
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
Ana Paula Maia
Record
1a. edição, 2009
158 páginas

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Um comentário
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  1. Oi, Thiago.

    Concordo em grande parte com a sua crítica, mas o tom grosseiro diminui a força dos seus argumentos e faz sua motivação parecer pessoal. Gosto do universo que a Ana Paula aborda e da forma como apresenta os personagens. Mas alguns diálogos ainda soam falsos e certos parágrafos são mesmo mal construídos. As frases curtas, bem escolhidas para dar um tom seco à narrativa, às vezes enfraquecem o discurso. Em certos momentos, tive a impressão de estar lendo um roteiro. Não acho que a escritora queira se comparar a Bukowski ou Pedro Juan Gutierrez – cada escritor é sempre um novo ponto de vista, não?

    Um abraço,
    Cristina.

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