Marcelino Pedregulho - Jean-Jacques Sempé
nov 18th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasDiferenças que cativam
Num mundo saturado de informações e notícias esvaziadas pela correria impressa na ânsia de descobrir novidades, as imensidões em branco e a escassez de palavras do livro Marcelino Pedregulho servem como um alento. Nas poucas vezes em que o cartunista francês Jean-Jacques Sempé surge, seja por meio de palavras ou através de desenhos (que no Brasil se tornaram conhecidos entre os leitores da revista Piauí), é para conquistar nossos olhos.
Publicado originalmente em 1969, o título sai aqui no Brasil pela Cosac Naify, com tradução de Mario Sergio Conti. A edição valoriza o espírito reflexivo da obra de Sempé, usando os espaços em branco para dimensionar o sentimento das personagens, controlar o ritmo da história e situar a complexidade urbanística das cidades. Os desenhos do cartunista francês dispensam a necessidade de descrições físicas, psicológicas e do próprio ambiente.
Quando a narrativa precisa, os traços de Sempé erguem paredes, prédios, janelas, escadas, ruas, viadutos e todo o caos urbano para nos mostrar o quanto somos irrelevantes no mundo. Se não, bastam algumas poucas linhas que já resolvem. Um jogo minimalista que também acontece em relação ao uso das cores. Com a predominância de desenhos em preto-e-branco, as cores surgem aqui e ali como um detalhe que nos cativa quase como um segredo, só descoberto na construção de uma intimidade.
Um discurso presente na cena da raposa de O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e retrabalhado por Sempé para dar força à história do personagem Marcelino Pedregulho. Um menino rejeitado pelos colegas por enrubescer de forma incontrolada, ainda que a situação não seja condizente. Mas a vida solitária do pequeno Marcelino ganha novas cores quando ele conhece o vizinho Renê Rocha, um garoto que gosta de tocar violino e sofre com crises de espirros.
O texto mesmo aparece como um complemento, feito nos filmes mudos. Ora surgem como legendas, ora entram nas ilustrações como nos gibis ou então assumem o aspecto de desenho para marcar os pontos de virada. As palavras dão um direcionamento narrativo, contornam de forma sinuosa os rumos que a vida dos dois amigos tomam enquanto crescem.
É aí, já com os personagens adultos, que Sempé expõe a falta de sentido do nosso mundo. Nesse cenário verticalizado, rápido e cheio de compromissos; Marcelino Pedregulho surge para nos mostrar, de maneira delicada e original, a importância das amizades e de entender as diferenças entre as pessoas como diferenciais conquistados pelo afeto.
Thiago Corrêa
lido em Set. de 2009
escrito em 30.10.2009
: : TRECHO : :
“Pouco a pouco, ele se viu isolado. Já não se juntava aos colegas, que se divertiam em brincadeiras como andar a cavalo, de trem, de avião e de submarino. Porque ele não aguentava mais que comentassem a sua vermelhidão.” (pp. 18-19).
: : FICHA TÉCNICA : :
Marcelino Pedregulho
Jean Jacques Sempé
Trad. Mario Sergio Conti
Cosac Naify
1a. edição, 2009
128 páginas