Blog | Abraços Partidos - Pedro Almodóvar
dez 6th, 2009 | Por Julieta Jacob | Seção: BlogMesmo que você não saiba nada sobre o novo filme de Almodóvar que acaba de entrar em cartaz, quem já conhece um pouco o trabalho do espanhol, consegue ter uma ideia geral do que vai encontrar no cinema: um drama romântico com pitadas de humor, traição, ciúmes e homossexualidade, que se passa num cenário colorido e vibrante e é protagonizado por atores com quem Almodóvar costuma sempre trabalhar.
Tudo isso se aplica a Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos, 2009), mais recente filme de Pedro Almodóvar. A trama gira em torno de Mateo Blanco (Lluís Homar) um cineasta que se apaixona pela protagonista de um de seus filmes, Lena (Penélope Cruz), casada com um homem rico e poderoso. Mateo fica cego depois de sofrer um acidente em que perde para sempre seu grande amor. A partir daí, ele vira Harry Caine, um escritor amargurado. Só depois de 14 anos, tem a chance de finalmente revisitar o passado e trazer à tona lembranças de Lena. Até então, ele não se permitia sequer tocar no assunto para não sofrer.
É então que acontece um dos momentos mais belos do filme: enquanto Diego (Tamar Novas) descreve para Harry uma cena que se passa na TV (trata-se do último beijo entre Mateo e Lena, momentos antes do acidente), Harry se aproxima e toca a tela da TV com a palma das mãos. Em seguida, pede pro rapaz colocar a cena bem devagar, quadro a quadro, para que ela dure mais e ele possa reviver aquele instante com mais intensidade.
Além da metalinguagem, aspecto que Almodóvar já havia abordado em filmes anteriores, também é marcante a forma como o diretor explora a força dos sentidos por meio do personagem que não enxerga. E é aí reside a beleza da história: se por um lado a arte do cinema está diretamente ligada à visão, por outro, quando abraçamos ou beijamos alguém, é o olfato, o tato, a audição e o paladar que entram em ação. Esse interessante paralelo está bem trabalhado e aparece como um dos pontos fortes do filme.
O ponto fraco fica por conta da interpretação de Lluís Homar, que não convence muito no papel de um cego. Isso é notável especialmente no início do filme, quando o telespectador ainda não sabe que ele é mesmo cego e tem a impressão de que o personagem está apenas fingindo.
O desfecho da trama nos passa a impressão de que Almodóvar talvez não soubesse como dar um grande final à história, ou por falta de uma super ideia, ou porque a história já estava finalizada e, de fato, não precisava mais de um grande final (uma outra boa sacada do espanhol). A solução encontrada, portanto, é mais uma vez posta em prática através da metalinguagem e com uma frase de duplo sentido: “La película, hay que terminala mismo que sea a las ciegas” (É preciso terminar um filme, mesmo que às cegas).
Não se pode prever o rumo que um filme vai tomar depois de acabado. E Almodóvar sabe muito bem disso. Seja como for, o importante é começar e terminar.
Vi esse filme dia desses, Juba. Achei fuderoso, no mesmo nível de Fale com ela e Volver. Ele é um exemplo para se entender que um filme bom se faz com detalhes - um ângulo diferente, uma poesia numa cena irrelevante, um diálogo, na paciência pra se montar a história - e não apenas com um fim revelador, que revoluciona tudo o que aconteceu até então.