O filho eterno - Cristovão Tezza

dez 4th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Linguagem entre pai e filho

O que escrever de um livro que já venceu tantos prêmios como O filho eterno, de Cristovão Tezza? O que acrescentar depois do mesmo título ter conquistado o Prêmio São Paulo de Literatura, o Jabuti de melhor romance, o APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), o Portugal Telecom, o Prêmio Bravo!, ter vencido a Copa de Literatura e mais recentemente o Zaffari & Bourbon? Diante disso só nos resta dizer que poucas vezes as premiações literárias do Brasil foram tão justas e tentar explicar o porquê desse fenômeno.

E a primeira razão está logo no forte apelo emocional do livro, pois trata do drama pessoal do narrador em lidar com o filho Felipe, portador da Síndrome de Down. Um argumento de peso, que se fortalece ainda mais por ser uma história biográfica, embora ficcionalizada, de Tezza. Mas se fosse apenas isso, o livro ficaria restrito ao sucesso das prateleiras de auto-ajuda, assim como tantas outras histórias de superação que figuram nos rankings dos mais vendidos.

O diferencial de O filho eterno está justamente na maneira como Tezza conseguiu amenizar esse apelo emocional através da linguagem. Autor já maduro com 14 livros publicados de ficção, o catarinense ajusta o foco da narrativa para enriquecer os olhos de quem aprecia os detalhes da composição literária (por meio do equilíbrio preciso entre metáforas, olhar afetivo e objetividade das cenas) e, ao mesmo tempo, alarga o enquadramento para contar sua própria história de vida a partir das dificuldades que surgem após o nascimento de Felipe.

É dessa forma que ele relembra momentos chave de sua formação moral e intelectual, como uma viagem a Caruaru de carona, o sufoco passado como imigrante ilegal na Europa ou do primeiro amor numa praia. Tudo isso enquanto descreve toda a sorte de tratamentos oportunistas aplicados em Felipe, na tentativa dos pais em curar o filho. O livro avança nessas duas frentes, que parecem seguir em linhas paralelas, mas que na verdade se complementam revelando diversos pontos de interseção.

Por uma dessas estradas, Tezza nos conta sua trajetória biográfica, o sonho de ser escritor, os anos de formação teatral, a frustração pela recusa dos primeiros livros, a trincheira paradigmática entre os ideais hippies e a necessidade de se ajustar ao papel de pai. Num desses momentos, ao recordar do problema causado na escola por um dos seus rascunhos usado por Felipe para desenhar, Tezza antecipa a polêmica que viria estourar em maio de 2009 devido o recolhimento do livro Aventuras Provisórias das escolas pelo governo de Santa Catarina.

No outro caminho, o autor traça um histórico da Síndrome de Down através do seu contato com o distúrbio genético do filho, relatando as dificuldades de aceitar as diferenças, enfrentar preconceito social e encarar o desafio de educar uma criança como Felipe. Embora seja um fato trágico e de forte apelo melodramático, o autor consegue equilibrar o discurso fazendo contrapontos com informações científicas engenhosamente colocadas durante as consultas médicas e nas leituras do narrador feitas em busca de explicações.

As arestas burocráticas do teor dos dados são apaziguados por meio das recordações do personagem, que puxa suas sensações para o campo literário, fazendo associações a obras como Admirável Mundo Novo e às teorias de Rousseau. Mais que isso, Tezza aproveita seu conhecimento de professor de língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná e de estudioso da obra de Mikhail Bakhtin para traduzir as angústias do pai em relação ao filho num plano lingüístico.

A aflição do narrador em relação às deficiências de Felipe aparece na forma de observações sobre a limitação comunicativa do garoto; sua incapacidade de entender coisas abstratas como o amor e o tempo; e no seu comportamento cênico, baseado em ações de desenho animado, para se encaixar na sociedade onde vive. É a partir dessas constatações feitas pelo pai que ele começa a se comparar com o menino e passa a recuperar na memória situações semelhantes às vividas por Felipe.

Um jogo que se torna ainda mais complexo por conta da alternância dos narradores. O recurso – que já foi usado pelo autor em O fotógrafo, no trânsito de personagens assumindo o papel de narrador – agora atua sob uma mesma pessoa, mas em perspectivas diferentes. O discurso aparece tanto no tempo presente, quanto no futuro. Algo que lembra o seriado Anos Incríveis, onde o garoto Kevin Arnold fazia todas as trapalhadas e o personagem já adulto pontuava suas decisões com comentários sarcásticos.

Em O filho eterno, o mesmo acontece, o narrador do presente se revela mais cruel e incapaz de aceitar o distúrbio genético do filho, num desespero capaz até de desejar a morte de Felipe; enquanto o outro pondera suas ações passadas, contextualizando-as e mesmo comparando sua evolução pessoal com decisões posteriores. Um processo de amadurecimento pessoal que resulta no amor incondicional de pai e filho.

Thiago Corrêa
lido em Jun./Jul de 2009
escrito em 01.12.2009
Fotos: Tom CabralDivulgação

: : TRECHO : :
“Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer outra coisa, ele concluiu – nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olha para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir.” (p. 31).

: : FICHA TÉCNICA : :
O filho eterno
Cristovão Tezza
Record
4a. edição, 2008
222 páginas

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