O prédio, o tédio e o menino cego - Santiago Nazarian
dez 16th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasApenas uma suspeita de incêndio
A expressão fogo de palha é usada para situações em que a combustão é rápida, fácil, exuberante, mas de pouca duração. Dessa forma, ela também pode ser empregada para descrever o romance O prédio, o tédio e o menino cego do badalado escritor Santiago Nazarian. Isso porque o livro promete no início, alimenta a chama da leitura apresentando um cenário fantasioso, ambientado por um grupo de adolescentes durante um momento de distorção social, e depois cai vertiginosamente para se transformar num dos casos mais representativos da surpeficialidade e do desnorteamento da literatura contemporânea nacional.
O ponto de partida é até interessante, a história se passa num prédio tão inclinado à beira-mar que ameaça cuspir as pessoas pelas janelas. A partir desse defeito, Nazarian desenha um microcosmo onde os adultos se mantêm longe e ocupados para evitar o difícil acesso e os riscos do edifício, preocupando-se apenas em deixar dinheiro para os filhos pedirem uma pizza.
Sem a presença dos pais, os adolescentes de classe média que vivem no local circulam pela construção enquanto aprendem a lidar com as mudanças do corpo e tentam se distrair para passar o tempo de ócio deixado pela greve dos professores. Nesse cenário, Nazarian usa a lente da distopia para colocar em questão assuntos como a falta de tempo, a ausência dos pais na criação dos filhos, a lógica sindicalista, o mercado imobiliário, a sede mercantilista do turismo, as mudanças do meio-ambiente e comportamentais causadas pelas novas tecnologias de comunicação.
Embora reflexões desse tipo evoquem tons pesados, em O prédio, o tédio e o menino cego elas aparecem de maneira simples, rápida e bem resolvida. O autor explora as imperfeições arquitetônicas e sociais para brincar com a narrativa, aproveitando o tom irreal do ambiente para pintar a história com cores de fantasia. Um exemplo são as passagens envolvendo o Gordo, que tem os calos dos pés tratados pela mãe e precisa tomar cuidado para não rolar para fora do prédio torto.
Mas para por aí. Depois de apresentados os argumentos, a narrativa desanda de tal maneira que nos faz lamentar a sua publicação no formato de romance, quando o gênero conto talvez fosse o suficiente, já que o fôlego do argumento inicial mal consegue sustentar o primeiro capítulo. As deformidades arquitetônicas do edifício, que até então sugeriam ser a fundação para o desenvolvimento do ambiente imaginário do livro, parecem ter sido levadas a sério demais por Nazarian. O que na base parecia ser apenas uma curiosa inclinação, nos andares mais altos esse referencial fica insustentável.
Com o efeito da bola de neve, O Prédio, o tédio e o menino cego se revela uma aglomeração de puxadinhos desconexos, construídos com diálogos vazios, descrições extensas, vícios de linguagem e caracterizações esteriotipadas dos personagens – tem o surfista, o emo, o gordo, o drogado, o nerd, o negro e o vaidoso. O que dá a impressão do livro ser a transcrição de uma partida de RPG entre adolescentes, onde cada jogador precisa apresentar seu personagem e alimentar a trama sugerida pelo mestre com uma nova ramificação que preenche páginas mas fica solta na narrativa.
E assim, do nada, nos deparamos com o surgimento de um deserto, um inverno poderoso, a presença do homem-caranguejo, a invasão de zumbis e ainda o aparecimento de uma professora autoritária seguido por uma série de desaparecimentos misteriosos. Num terreno instável como esse, nem mesmo o domínio de técnica – em especial na cena de perseguição no Zoológico, onde se alternam momentos no local e a lenta chegada da cavalaria – demonstrado por Nazarian consegue sustentar um enredo frankenstein assim.
Thiago Corrêa
lido em Set. de 2009
escrito em 16.12.2009
: : TRECHO : :
“O menino emergiu do quarto como um inseto envenenado. Segurando-se nos móveis, nas paredes, apoaindo-se no batente, chegou até a sala tentando reconhecer o tempo e o espaço em que caminhava, desequilibrava. O prédio estava inclinado. Mas a isso ele já estava acostumado. O problema era o horário em que dormira, o horário em que acordara, com uma luz indecisa alaranjando a janela. Final da tarde ou começo do dia? Sempre era difícil se situar, quando dormira fora do horário…” (p. 09).
: : FICHA TÉCNICA : :
O prédio, o tédio e o menino cego
Santiago Nazarian
Ilustrações: Alexandre Matos
Record
1a. edição, 2009
343 páginas
Essa década foi horrível. A nova literatura ficou entre o morno tedioso de jovens burgueses e o choramingo repetitivo dos tais “marginais”. É bom saber existe o Mutarelli.
Eu só li um livro deste autor: “Feriado de mim mesmo”… achei tão ruim que não tenho coragem de comprar outro livo dele.