Os espiões - Luis Fernando Verissimo
dez 12th, 2009 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasO labirinto de Verissimo
Com Os espiões, pela primeira vez o escritor Luis Fernando Verissimo lança um romance que não foi escrito por encomenda. Até então – desde a sua estreia em narrativas longas, com a publicação de O Jardim do Diabo em 1988 –, o autor gaúcho só tinha enfrentado ao gênero por causa do convite das editoras para integrar coleções temáticas, onde o impulso inicial da criação já estava definido.
Escreveu sobre a gula em O Clube dos Anjos (1998) para integrar a coleção Plenos Pecados, o escritor Jorge Luis Borges em Borges e os orangotangos eternos (2000) para a Literatura ou morte, o polegar em O Opositor (2004) para a Cinco Dedos de Prosa e fez uma releitura da comédia Noite de reis em A décima segunda noite (2006) na coleção Devorando Shakespeare. Mas, apesar dessa liberdade criativa em escolher sobre o que escrever, Os espiões preserva as mesmas características dos outros romances do autor.
No novo livro, a assinatura de Verissimo está na narrativa em primeira pessoa, na caracterização do narrador (homem frustrado de meia idade que mantém alguma relação com a literatura), nas marcações de tempo ao longo da trama, na maneira de construção do humor irônico, na convergência de vozes, nas reflexões de metalinguagem sobre a própria história e na estrutura de paródia dos livros policiais. Assim como acontece nos outros romances, Os espiões envolve uma trama de mistério que vai sendo desenrolada em suposições de mesa de bar, descambando para teorias da conspiração e ações trapalhadas.
Nesse caso, o mistério chega na forma de um envelope com o início de originais de uma certa Ariadne para serem avaliados por uma editora. O narrador, responsável por selecionar o que merece ser publicado ou não, fica intrigado com o texto, misto de testamento de suicida e confissão de vingança contra seus detratores. Reunido junto a companheiros de bar, ele recolhe informações sobre o município de Frondosa, remetente do envelope, e decide enviar um informante para checar de perto a existência da suposta autora.
A partir daí, a narrativa avança em três planos. Primeiro através dos relatos do(s) informante(s) da Operação Teseu, do restante dos originais enviados por Ariadne e, por último, pelas elucubrações do narrador, que condensa as informações, insere suas interpretações, mistura tudo com descrições do seu cotidiano fracassado e outras referências literárias. De John Le Carré ao mito grego da mulher que ajuda Teseu a sair do labirinto após matar o Minotauro.
A construção do enredo progride de maneira engenhosa, por meio de colagens discursivas usadas de forma consciente. E irônica. O humor ágil e afiado das crônicas de Verissimo aparece no livro, só que com mais tempo de ser trabalhado. Ele vem nos jargões dos personagens caricatos, ganha os leitores na insistência, nas repetições de cenas, no eco de outras obras e nas brincadeiras de metalinguagem.
Apesar de trazer interessantes reflexões sobre o mercado editorial e fazer uma inteligente associação com a imagem do camaleão, Os espiões não chega a apresentar o mesmo vigor alcançado em O Jardim do Diabo e Borges e os orangotangos eternos. Comparado a eles, o novo livro parece ser mais rasteiro e esquemático, talvez pela falta de necessidade de Verissimo provar que o romance seja de fato dele e não apenas o desenvolvimento de uma ideia encomendada pela editora.
Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2009
escrito em 03.12.2009
reescrito em 12.12.2009
: : TRECHO : :
“Por que estou contando tudo isso? Tome como um pedido de misericórdia ou um pedido de castigo. Um atenuante para o que virá, ou um agravante. Minha defesa ou minha condenação. Era isso que nós éramos. Mortos-vivos barulhentos mas inocentes. Juro, inocentes. Ou tome como apenas uma descrição do cenário contra o qual eu desaparecia, como um camaleão, quando a história começou. Primeiro capítulo, primeira cena, dois pontos: um pântano sulfuroso, um lago de lamúrias, onde certo dia pousou um envelope branco como um pássaro perdido.” (p. 13).
: : FICHA TÉCNICA : :
Os espiões
Luis Fernando Verissimo
Alfaguara
1a. edição, 2009
142 páginas