A transparência do tempo - Fábio Andrade

fev 15th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Um estudo poético sobre o tempo

A sensação de que estamos sempre atrasados ou desperdiçando tempo guarda engrenagens mais complexas do que o simples giro dos ponteiros do relógio. Em A transparência do tempo – segundo livro publicado por Fábio Andrade, que em 2005 lançara de forma independente Luminar presença e outros poemas –, o poeta investiga em versos os efeitos corrosivos da inevitável corrente do envelhecer.  Além dos poemas, a edição ainda traz a tradução de oito deles para o francês, feitas pelo professor de Letras da UFPE Lourival Holanda, e posfácio do crítico Cristhiano Aguiar.

Vencedor do Prêmio Eugênio Coimbra Júnior de Poesia de 2007, mas que só foi publicado em dezembro do ano passado, A transparência do tempo revela um poeta maduro, consciente dos riscos da linguagem poética e sem medo de prolongar a angústia da criação até que as palavras se harmonizem com suas ideias. Um trabalho árduo, cujo próprio poeta compara ao talhe, onde ele procura desenhar letras numa ordem capaz de traduzir sentimentos e temas abstratos referentes à passagem do tempo.

Com as ferramentas teóricas e de leituras acumuladas durante o exercício de professor universitário e de crítico, o poeta esculpe sensações universais como a solidão, a noção da irreversibilidade do tempo e a certeza da morte. Temas pessimistas comuns a esses dias em que a objetividade da lógica capitalista confronta a condição humana e nos faz questionar sobre o sentido da vida e o que vamos deixar para as gerações futuras.

Em A transparência do tempo, no entanto, Andrade não se limita às reflexões, ele também oferece caminhos para a luta pela sobrevivência ao fluxo dos minutos. Menos por convicção do que necessidade, o escritor trilha sua permanência indo na direção do amor e da construção literária. Este rumo aparece na forma de metalinguagem numa série de poemas sobre a criação poética, revelando as escolhas do autor. A batalha que ele nos mostra é dura, árdua e sofrida. O poeta trava uma luta com as palavras e contra a mesmice do dia-a-dia da vida a dois, como surge no delicado poema 2ª versão do amor.

Uma dualidade que o escritor mantém com relação à forma. O conhecimento teórico do autor não se evidencia em eruditismos e na profusão de referências pedantes, ele aparece introjetado na sua voz poética, nas escolhas conscientes e no controle emocional de não se deixar levar pela tentação da névoa sentimental. Andrade firma o pé no chão, procura materializar o abstrato a partir de imagens do cotidiano, fazendo associações entre as questões da alma com pequenas coisas da vida como o balé de poeira sob o feixe de luz em Observação do pó ou um inseto hipnotizado pela lâmpada em O segundo vaso de barro.

Thiago Corrêa
lido em Nov. de 2010
escrito em 29.01.2010
reescrito em 31.01.2010

: : TRECHO : :
“Bandeiras de sangue explodem rostos e a voz circular das bancadas Os olhos do touro cego e sem amarras no balé ágil das espadas pó e sangue Na arena sonho com uma morte semelhante à do touro cego de vontade.” (p. 59, poema: Touro cego).

: : FICHA TÉCNICA : :
A transparência do tempo
Fábio Andrade
Fundação de Cultura Cidade do Recife
1a. edição, 2009
92 páginas

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