Diomira e o Coronel Carrerão - Ivana Arruda Leite

fev 9th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

Inversão de papéis

De escritor a personagem. Acostumado a exercer a condição de autor e criar suas próprias histórias, Raimundo Carrero agora assume uma outra função na literatura: deixa de ter o controle sobre a narrativa para ficar sujeito às ideias de outro inventor. Algo que ele já vinha experimentando ao atuar no teatro e no recente curta-metragem A minha alma é irmã de Deus, mas desta vez a transição se torna mais simbólica por acontecer numa obra que foge ao universo criativo do escritor, longe da participação direta do pernambucano.

A figura de Carrero – sujeito com voz de trovão, gestos largos e conversa abundante - foi transformada em personagem pela autora paulista Ivana Arruda Leite no livro infantil Diomira e o Coronel Carrerão: a Sherazade do Sertão. Além da menção nominal já presente no título e da dedicatória ao pernambucano, a referência ao escritor também aparece nos desenhos do ilustrador Fê, que retrata Carrero com o mesmo semblante corpulento, de rosto redondo, barba e cabelos brancos.

Mas as semelhanças param por aí. Na edição, publicada pela Brinque-Book, o autor de O amor não tem bons sentimentos vira o coronel Nonato Carrero, que vive na Fazenda Bela Vista de uma cidade do Norte do país, distrai a solidão maltratando os empregados, devorando pelo menos dez pratos durante a refeição e mais meia dúzia de doces na sobremesa. Apesar do trabalho árduo e da má fama do coronel, a jovem Diomira se candidata à vaga de cozinheira e passa a sofrer com as exigências do Carrerão.

Na intenção de arrumar um tempinho longe do fogão, Diomira resolve usar a tática da Sherazade em contar histórias para amansar o humor e o apetite do patrão. A narrativa, nesse ponto, ramifica-se em outras tramas. Embora não chegue às mil e uma da personagem do Oriente, Ivana Arruda Leite usa parte do seu acervo de histórias que ela vem colecionando desde a infância, quando passava o tempo ouvindo os casos contados por sua tia Augusta.

São fábulas, algumas com enredos de príncipes e bruxas, outras envolvendo assombrações e pessoas normais. Em comum, elas trazem lições de moral, defendendo valores como a honestidade, o amor, a sinceridade e o jeito simples da vida interiorana em contraponto à ambição humana tão em evidência nas metrópoles.

Autora experiente, com participação em mais de duas dezenas de coletâneas e outros seis livros publicados, Ivana Arruda Leite consegue domar a estrutura fragmentada do volume com sua prosa fluente, fazendo com que as histórias contadas por Diomira sirvam para discutir valores morais nesse momento de ganância coletiva. Bom, ao menos com o Coronel Carrerão, a estratégia deu certo.

Thiago Corrêa
lido em Jan. de 2010
escrito em 28.01.2010
reescrito em 31.01.2010

: : TRECHO : :
“Nonato Carrero, também conhecido como coronel Carrerão, famoso por sua rabugice, era um homem ríspido e de poucas palavras. Vivia sozinho na Fazenda Bela Vista, maltratando os empregados e botando para correr quem dele se aproximasse.” (p. 06).

: : FICHA TÉCNICA : :
Diomira e o Coronel Carrerão: a Sherazade do Sertão
Ivana Arruda Leite
Ilustrações: Fê
Brinque-Book
1a. edição, 2009
48 páginas

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