Elza, a garota - Sérgio Rodrigues
fev 15th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: CríticasA inclinações gráficas e ideológicas
Uma das principais características da literatura dita pós-moderna é colocar em xeque a realidade, rompendo a fronteira entre fatos que aconteceram daqueles que se passaram apenas na imaginação do autor. A estratégia de misturar esses elementos tanto funciona para emprestar um peso de veracidade à ficção, como também serve para questionar as construções discursivas da História, que muitas vezes ocultam as ideologias inerentes a quem faz esses relatos, jogando nova luz aos eventos importantes para a formação da sociedade.
A tática vem servindo para confecção desde best-sellers como O código Da Vinci, O caçador de pipas e os romances de Jô Soares à literatura de autores importantes como Luis Fernando Verissimo, Autran Dourado, Umberto Eco e o Prêmio Nobel J.M. Coetzee. Essa linhagem, denominada metaficção historiográfica pela estudiosa canadense Linda Hutcheon, ganha um novo exemplo com a publicação do romance Elza, a garota: a história da jovem comunista que o partido matou, que já pelo título se insere na classificação.
Seu autor, o jornalista Sérgio Rodrigues usa os conhecimentos de repórter para fundamentar o livro num episódio nebuloso e pouco conhecido da História brasileira. Sob a encomenda da editora Nova Fronteira para recuperar e tentar esclarecer a rápida trajetória da jovem Elza Fernandes na década de 1930, o autor mergulhou numa pesquisa espinhosa de seis meses, que lhe oferecia os riscos de dados desencontrados e registros contaminados pelos tons ideológicos da época.
Afinal, o trabalho aborda um momento-chave da História política do país e que, ainda hoje, é uma mancha de vergonha da esquerda brasileira. Sérgio Rodrigues reconta como a jovem interiorana Elza Fernandes, de 16 anos, tornou-se namorada do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), o Miranda, e terminou sendo estrangulada pelo Partido após o fracasso da tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas, que ficou conhecida por Intentona Comunista. Nesse percurso, o autor ainda retrata os momentos que precederam a Revolta Vermelha de 35, os dias em que as lideranças do PCB estiveram presas – a partir de relatos, documentos e publicações como as Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos – e procura explicar como cresceu a suspeita de traição sobre o então principal dirigente do Partido.
Sérgio Rodrigues, no entanto, faz uma distinção no uso dessas informações. A barreira entre realidade e ficção se instala no romance com a delimitação imposta pelo escritor de trazer os bastidores e suas impressões da pesquisa em itálico, no início dos capítulos; enquanto a narrativa inventada aparece em seguida já com a inclinação das letras corrigida.
Embora a fronteira entre os dois tipos de discurso seja física, elas terminam se aproximando pelo uso que a parte ficcional faz dos fatos históricos citados pelo ex-militante comunista Xerxes ao jornalista Molina, contratado para escrever as memórias do velho. Dessas conversas surgem bons momentos, como as analogias de Xerxes sobre a composição da memória com o trabalho de um arqueólogo e suas divagações sobre as diferenças entre direita e esquerda.
Além desses encontros, a narrativa acompanha a rotina de incertezas profissionais e amorosas do repórter, um quarentão que namora uma estudante vinte anos mais nova e deseja que seus escritos tivessem durabilidade maior que um dia. E é justo aí que o livro desanda, distanciando-se do relato histórico ao adotar um tom burlesco que se assemelha ao humor dos romances de Luis Fernando Verissimo, mas se revela incompatível com a urgência, peso e seriedade do tema.
Ainda assim, a publicação de Elza, a garota tem sua importância por surgir num oportuno momento, em pleno vigor do Governo Lula. O livro acaba exercendo o papel de rediscutir a esquerda numa época em que as questões de governo têm se sobreposto aos ideais ético-partidários. Uma associação prevista pela própria narrativa, durante uma passagem em que Molina assiste a um discurso do presidente Lula pela televisão.
Thiago Corrêa
lido em Out. de 2009
escrito em 27.01.2010
: : TRECHO : :
“Ah, Freud. Esse artigo que você tem nas mãos nunca me saiu da cabeça. Compara o trabalho do psicanalista ao do arqueólogo, que depois de dois ou três caquinhos esparsos tem que reconstruir, digamos, uma urna grega inteira. Como ele faz isso? Preenchendo as lacunas com sua imaginação. Ele se arrisca nesse trabalho, claro, e em alguns momentos chuta mesmo, chuta desvairadamente.” (pp. 80-81).
: : FICHA TÉCNICA : :
Elza, a garota: a história da jovem comunista que o Partido matou
Sérgio Rodrigues
Nova Fronteira
1a. edição, 2009
238 páginas