João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma & Diário de tudo - José Castello

fev 15th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas

As sombras poéticas de uma entrevista

Certas pessoas conseguem ser maiores do que aparentam seus semblantes. Em 1991, um pernambucano franzino, com mais de 70 anos de idade, dor de cabeça constante e crises depressivas ainda era capaz de impor sua condição de gigante ao experiente jornalista carioca José Castello. Afinal, o repórter resolvera escrever uma biografia de ninguém menos que João Cabral de Melo Neto (1920-1999), poeta que revolucionara a literatura brasileira ao romper com a tradição romântica de sentimentalismos líricos para construir um caminho poético baseado na solidez do concreto, da matéria e das imagens.

Apesar das dificuldades impostas pela mítica, discrição de diplomata e problemas comuns à idade avançada do biografado; Castello não se limitou à tarefa de descrever fases da vida do poeta engenheiro. Ele atinge o grau de ensaio biográfico, criando paralelos entre a vida e a obra cabralina. O livro João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma & Diário de tudo é o resultado do poder de análise crítica do repórter que se fundamenta em cima do material colhido durante os 21 encontros com o pernambucano, realizados no apartamento do poeta no Rio de Janeiro, entre 7 de março de 1991 e 6 de abril de 1992.

Como o título já diz, esta edição de 2006 da Bertrand Brasil vem acrescida da parte inédita Diário de tudo, reunindo anotações tomadas pelo repórter logo após as conversas com Cabral. Nelas, ele relata suas impressões, dificuldades e dúvidas sobre como organizar o material. Essas informações, que somadas ao prólogo do livro, tornam-se preciosas revelações de bastidores, onde Castello nos dá uma aula sobre os desafios da reportagem e do jornalismo cultural.

Fã de Cabral, o jornalista apresenta seus dilemas quanto ao formato do livro, seus receios em relação aos assuntos a serem tratados e às estratégias de abordagem para se aproximar do poeta. Pelo que encontramos na edição, as escolhas de Castello – ao preferir se manter fiel ao acordo de preservar a intimidade do pernambucano e, ao mesmo tempo, buscar uma postura não de reverência, mas de quem almeja chegar ao novo – não poderiam ter sido mais acertadas. O repórter foca na obra cabralina, procura entender os caminhos trilhados pelo poeta, descobrir suas referências literárias, as lições do convívio com outros escritores e a relação entre seus versos com as viagens que integram à carreira de um diplomata.

Algo que percebemos no prólogo, onde Castello nos convence de maneira arrebatadora a lamber os dedos enquanto viramos as 240 páginas restantes. Nessa primeira parte, já é possível perceber a maestria com que o jornalista vai construir o livro, utilizando-se de técnicas de reportagem alinhadas à tendência do jornalismo literário, evidenciada pelo poder de observação e a delicadeza na hora de usar as palavras para desenvolver o personagem Cabral com densidade sentimental.

Como os versos do poeta engenheiro, o repórter não se deixa cair nas tentações das impressões da subjetividade. Pelo contrário, ele desenvolve suas teses sobre a obra e o estado de espírito do poeta a partir de fatos, sejam eles trechos de poemas, memórias do pernambucano ou mesmo através do olhar de Cabral, perdido nas profundezas interiores. Exemplo disso é a cena em que Castello apresenta a angústia do poeta em lidar com as incertezas da alma ao se deparar com um velório na sede da Academia Brasileira de Letras.

A teoria que o jornalista defende em todo o livro, inclusive, está presente numa bela associação do estado de espírito do poeta com o aspecto sombrio do hall do elevador que antecede o apartamento do escritor pernambucano. A essência de João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma vem concentrada nas 20 páginas do prólogo, ali, o autor já apresenta sua hipótese de que a obsessão do poeta pela matéria e pela objetividade é, na verdade, uma busca pessoal para afugentar seus fantasmas.

Nos capítulos que se seguem, essa idéia toma corpo à medida que Castello vai percorrendo a trajetória de vida de Cabral. Passa pela infância, pelas relações familiares, o gosto pelo futebol e a insegurança na hora de se encaixar numa atividade profissional. Desde então já é possível encontrar traços da formação intelectual do escritor, como o seu contato com a poesia e a cultura popular pernambucana através das leituras que o jovem Cabral fazia dos folhetos de cordel para os empregados do engenho do pai.

Agora, se foi o analfabetismo dos funcionários que aproximou Cabral da poesia, a evolução como poeta ocorre devido à sua amizade com alguns intelectuais. Num tempo em que internet era coisa de ficção científica, Cabral pôde construir seu conjunto de referências ao entrar num círculo de amizades com escritores e jornalistas, que lhe permitiu o contato a discussões e livros pouco acessíveis. Foi assim que ele descobriu ensaios teóricos de Paul Valéry e se achou com a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Castello segue o percurso do poeta recriando a atmosfera criativa da época vivida por Cabral, em que os intelectuais mantinham o hábito de se encontrar para discutir ideias.

Vemos aí a amizade do pernambucano com Joaquim Cardozo, a contribuição fundamental de Gilberto Freyre para o poeta publicar seu primeiro livro Pedra do sono, os encontros com Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira e Drummond no Rio de Janeiro, sua relação de antítese com Vinícius de Morais e sua abertura para trocar informações com jovens surrealistas espanhóis, bem como a aproximação com o pintor Joan Miró, durante sua passagem pela Espanha. Esses são momentos especiais do livro, onde Castello se mostra capaz de transportar os leitores para outra época, a fim de entendermos a grandiosidade que se esconde por trás daquele senhor franzino com mais de 70 anos.

Thiago Corrêa
lido em Dez./Jan. de 2010
escrito em 08.02.2010

: : TRECHO : :
“Um pouco dos segredos de João Cabral de Melo Neto se derrama, já, diante dos elevadores sociais. O poeta tem uma alma imensa, que se espalha pelo mundo externo. Espírito agudo que o atravessa como uma faca, lâmina nervosa que luta, todo o tempo, para cegar e esconder. Por isso, certamente, Cabral ostenta com tanta ênfase e tanto orgulho sua fé desmesurada na beatitude do concreto. Só diante do material a dor pode se aplacar. A matéria é, quem sabe, a cura do poeta.” (pp. 16-17).

: : FICHA TÉCNICA : :
João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma & Diário de tudo
José Castello
Bertrand Brasil
1a. edição, 2006
272 páginas

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Um comentário
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  1. Parabéns, Thiago. Boa resenha.
    Li e reli o livro de Castello. É uma viagem agradabilíssima pela vida e pela obra do poeta-engenheiro. Um verdadeiro ensaio biográfico. Parabéns ao Castello. Outro excelente livro dele é o Inventário das Sombras.
    Abraço.
    Carlos Vazconcelos
    Escritor

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