O livro dos mandarins - Ricardo Lísias

mar 22nd, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas, Destaque

Negócios da China

O humor tem um efeito físico sobre as pessoas, desperta o riso, libera endorfina e dá sensação de relaxamento. Em alguns casos, a bem da verdade, ele é apenas um pretexto, uma camuflagem, serve de estratégia de sedução para, quando realizada a conquista, desencadear reações que corroem pensamentos, ideologias, sistemas políticos e instituições. Com uma linguagem aparentemente amistosa, o escritor paulista Ricardo Lísias nos convida para entrar no universo das grandes corporações e, aos poucos, nos faz refletir sobre a lógica desse capitalismo transnacional através da leitura do seu romance O Livro dos Mandarins.

O título remete ao livro que o protagonista Paulo, alto executivo de um banco internacional, pretende escrever para iniciantes que sonham em alcançar o sucesso profissional. A bem da verdade, as lições contidas na obra serão baseadas na própria experiência do personagem, cuja trajetória começou como estagiário do banco, depois de transformou no responsável do Setor de Desenvolvimento e se encontra disputando uma vaga no Projeto China. Para garantir um lugar nesse seleto grupo, Paul* escreve uma carta de intenções onde ressalta experiências profissionais, sua fidelidade ao banco e seu conhecimento sobre o mandarim e a cultura milenar desse gigante asiático.

Tudo isso – as anotações para o livro, a elaboração da carta, os planos e considerações de Pau** – serve de recurso para Lísias montar a estrutura do romance. O autor, a bem da verdade, promove uma simbiose da sua escrita com os pensamentos do personagem, incorporando na linguagem da obra os trejeitos do protagonista. Isso ocorre tanto nos rompantes de fúria e euforia do executivo expressados em parágrafos longos, desconexos e fantasiosos; como nas suas mudanças de opinião e adesão do vocabulário corporativo - jargões de executivos, frases pré-fabricadas dos livros de autoajuda e incessantes repetições de metas e justificativas usadas como mantras para nortear o personagem.

De tão focado na atividade de fazer projeções sobre o mercado no futuro, esse hábito do protagonista também se reflete nos avanços de tempo da narrativa, onde são feitas previsões sobre o que vai acontecer com Pa*** em Pequim e em relação ao seu retorno ao Brasil. A bem da verdade, ele ainda não sabe, mas antes mesmo de concluir a carta, P**** já terá sido selecionado, após tantos elogios do amigo Paul (presidente do banco no Brasil) que fizeram o Paulson (presidente do conselho da instituição financeira em Londres) destacar com asteriscos o nome do *****.

Esse jogo com nomes proposto por Lísias, a bem da verdade, é a forma dele expor o processo de impessoalidade e a irrelevância das particularidades territoriais dentro da lógica das instituições financeiras. Além do recurso dos asteriscos para dar a ideia da perda de identidade e transmutação do ***** enquanto ele é promovido, o autor também explora esse caráter reducionista nos apresentado um mundo homogeneizado. Assim, no ocidente todos são chamados por derivados de Paulo (Paula, Paul, Paulson, Pauling…), no Sudão só existe Omar Hasan Ahmad al-Bashir e Salma, enquanto na China aparecem variações de Lin San San e Liu Xan.

Nesse contexto, a bem da verdade, as diferenciações vêm através das profissões, do grau de competência, do nível das relações interpessoais e das grifes das roupas que os personagens vestem. Do próprio protagonista pouco se conhece, apenas que ele é um executivo de verdade, ambicioso, compromissado com seus objetivos, tem fascínio pela China, idolatra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e desde pequeno sente dor nas costas que teria tratamento caso ele fosse para a China e descobrisse a cama ceragem.

A bem da verdade, a forma se alia ao conteúdo nesse jogo elaborado por Lísias para refletir sobre os princípios corporativos. Se na linguagem o autor justifica o aspecto da impessoalidade através da irrelevância dos nomes e inversões de países, no plano narrativo a quase total ausência de passagens sentimentais é explicada pela frieza exigida aos profissionais que precisam tomar decisões importantes, pelo discurso de fidelidade à empresa, bem como a partir da dor que o protagonista sente nas costas desde a infância, capaz de lhe tirar o fôlego e provocar desmaios quando combinada a calafrios emocionais.

Ao invés de partir para a briga de maneira direta, o autor insinua a crítica por meio do cinismo do seu humor. A fome por sucesso do executivo e sua devoção ao perfil corporativo permite a Lísias criar situações que beiram o surreal a partir de uma narrativa elíptica cheia de mudanças de perspectivas e referenciais, desvirtuando aspectos morais, éticos, legais, geográficos, étnicos e culturais. A bem a verdade é que, para um executivo, nada disso importa, desde que os objetivos da empresa sejam alcançados.

Thiago Corrêa
lido em Fev./Mar. de 2010
escrito em 07.03.2010

: : TRECHO : :
“Pau**, trinta e seis anos, considerado um dos principais talentos do Brasil em análise futura e gestão de equipes, adora palavras e chega a colecioná-las. Aliás, a cada semana esse executivo exemplar cola no pé do seu e-mail uma lista de termos inspiradores. Assim, os funcionários podem formar para si significados mais produtivos enquanto trabalham. Em uma grande corporação, usar a palavra certa no lugar mais adequado é um dos segredos do sucesso” (pp. 59-60).

: : FICHA TÉCNICA : :
O livro dos mandarins
Ricardo Lísias
Alfaguara
1a. edição, 2009
341 páginas

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