Adulterado - Antonio Prata
jun 9th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas, DestaqueEstranho no ninho
A se considerar a classificação de coletânea de crônicas escritas para a revista Capricho, voltada para o público adolescente feminino; o livro Adulterado tinha todas as prerrogativas para afugentar marmanjos barbudos como eu, que, bem ou mal, já se acostumaram com as responsabilidades da vida adulta. Mas por se tratar de Antonio Prata (autor de Bar ruim é lindo, bicho, uma das crônicas mais famosas desses tempo de internet), encarar os 55 textos reunidos na edição acaba se revelando um exercício de reinvenção de temas batidos como a descoberta da sexualidade, a legalização das drogas e o dilema do que ser quando crescer.
Filho do também cronista Mario Prata, Antonio mostra que sua herança genética também chegou ao talento no trato com as palavras. Tal como o pai, ele possui a mesma sensibilidade para desenrolar questões complexas da vida (ainda mais difíceis na adolescência) em textos claros, simples e bem humorados. Com esse tempero de linguagem casual, Antonio Prata se coloca como um tutor gente boa de garotas que ainda estão na fase dramática de descobrir o amor, sofrer com as mudanças hormonais e com a chegada da hora em decidir o futuro da vida via ficha de inscrição do vestibular.
Escritas para jovens que ainda não viveram nem um quinto de suas vidas, as crônicas guardam um teor educativo, com direito a conselhos do autor. Apesar disso, os textos reservam um prazer de leitura comparável a cronistas do porte de Luis Fernando Verissimo, João Ubaldo Ribeiro e do próprio Mario Prata. Por meio de um exercício de formulação da sua peculiar visão de mundo, o autor consegue se dirigir a um público tão específico, focando em assuntos típicos da puberdade, e, ao mesmo tempo, ser capaz de entreter leitores preocupados com o preço da gasolina, a crise mundial e a restituição do Imposto de Renda.
Um dos segredos para isso está no fato do cronista mergulhar em sua vivência de pós-adolescente, promovendo uma revisão de sua juventude, semelhante ao papel do narrador do seriado Anos Incríveis. Ao expor equívocos da época em que foi jovem, Antonio Prata termina por fazer um balanço de sua geração, desenhando um divertido retrato desse período de transição hormonal. Algo que, no seu caso, estendeu-se até os 30 anos, quando o cronista finalmente admitiu ter passado para o território inimigo – o mundo dos adultos – e resolveu se desligar da Capricho.
É nesse universo particular que o autor encontra o fio condutor para repensar os desafios da adolescência e cumprir seu papel de cronista, contextualizando as mudanças culturais dos últimos trinta anos. Reflexões que surgem através de recordações de infância, nostalgias da época de escola ou mesmo por meio de suas diferenças em relação a nova geração, como na crônica =S D Comunikssaum em que ele brinca com a linguagem usada nos bate-papos de internet). Nesse meio tempo, Antonio Prata ainda registra questões factuais envolvendo a indústria cultural durante os sete anos em que assinou a coluna na revista, como o lançamento do documentário Vinícius e a polêmica envolvendo a comentarista esportiva e hoje deputada Soninha, quando ela admitiu fumar maconha.
Thiago Corrêa
lido em Nov./Dez. de 2009
escrito em 22.12.2009
: : TRECHO : :
“Oi. Meu nome é Antonio Prata, tenho 23 anos e algo estranhíssimo aconteceu comigo: me transformei num adulto. Deve ter sido na calada da noite, enquanto eu dormia, pois confesso que não percebi nada. É normal, talvez diga a leitora, sem entender meu susto: é porque não aconteceu com você – ainda.” (p. 10. crônica: Adulterado).
: : FICHA TÉCNICA : :
Adulterado
Antonio Prata
Moderna
1a. edição, 2009
146 páginas