Entrevista | Ronaldo Correia de Brito - Retratos Imorais [16.08.2010]

set 6th, 2010 | Por Thiago Corrêa | Seção: Entrevistas

Entrevista feita por Thiago Corrêa sobre o livro Retratos Imorais com o escritor Ronaldo Correia de Brito, no dia 16 de agosto de 2010.

Suas histórias sempre carregam uma sensação de deslocamento. Passado tanto tempo da sua expulsão do paraíso, você ainda se sente um estrangeiro?
Sempre me senti um sem-lugar, acho que sempre ocupei o não-lugar. Nasci numa fazenda chamada Lajedos e, como ela ficava muito distante da cidade Saboeiro, eu não era de Saboreiro. Depois fui para o Crato e eu não era do Crato. Em seguida eu vim para Recife e aqui não é minha cidade. Sempre que alguém escreve sobre mim diz: o escritor cearense radicado em Pernambuco. Eu moro aqui há 41 anos, Recife é minha cidade por escolha, mas não é a minha cidade. Eu giro por outros lugares e vivi sempre numa espécie de exílio. Acho que sou bem estrangeiro.

E mesmo assim, os contos de Retratos Imorais são recheados de detalhes afetivos do Recife.
Esse livro tem muito de Recife. Por outro lado é curioso o fato de me achar um sem-lugar, mas ninguém precisa tanto de um lugar para escrever como eu. Se não imaginar uma paisagem, se não tiver toda uma construção geográfica, eu não consigo escrever. Homem sentado no meio fio é Recife, escrevi esse conto desejando escrever um poema sobre a cidade, como a Evocação No. 2.

Você mostra um Recife violento e, ao mesmo tempo, revela o carinho que sente pela cidade, como a lembrança ao maracatu e a troca das pedras portuguesas pelos blocos de concreto.
Acho que ninguém amou esta cidade mais do que eu. Cheguei aqui em 1969 com 17 anos e achei esta cidade a coisa mais linda do mundo. Não queria ir ao cinema, não queria teatro, só queria ver a cidade. Recife perdeu 90% da sua arquitetura civil, que era linda. Andava por essa cidade, que resolveu preservar só sua memória do barroco, vendo a arquitetura eclética, da art déco, art noveau, do neoclássico. E era muito seguro andar pelo Recife, gostava do cheiro de mijo e de merda dos becos, do cheiro da lama. Tive uma paixão, era encantado por essa cidade. O Recife tinha uma coisa parecida com o Crato, que ficava dentro de uma Mata Atlântica. Ainda tinha muito verde por aqui e tinha um lastro da história mais antiga deste país, de um Brasil que começou aqui. Então claro que eu sofri com a cidade, vendo ela ficar violenta, vendo essa cidade ficar dura.

Quando você fala de que precisa de um lugar para escrever, percebo que isso se traduz numa necessidade em construir os cenários em detalhes, com precisão.
Acho importante tentar criar a precisão na imprecisão. Parece que não deixo espaço para o leitor, que eu deixasse tudo pronto para ele. Mas se você cria uma atmosfera, o leitor vai sentir calor, sentir um vento, ele vai imaginar de que lado o vento sopra, o que acontece. Por outro lado, eu nunca revelo o que vai acontecer, nunca termino nada, deixo uma vaga sensação. Na verdade, dou informações para que o leitor imagine o que vai acontecer. Temos como função de escritor criar um transtorno.

Nesse livro você dispara diversas citações, faz referência a vários autores, fotógrafos e filmes. Isso é reflexo de uma necessidade sua em dialogar com o mundo?

Sempre que eu escrevo, dependendo do universo em que construo minha narrativa, vou estar com mais ou menos possibilidades de usar vocabulários e de estabelecer diálogos com o cinema, o teatro, a literatura e as artes plásticas. Cada vez mais me sinto uma pessoa com direito a usar todos os bens de cultura, me apropriar deles como fazem os artistas populares. Quando coloco o discurso na voz de uma pessoa como no conto Eufrásia Menezes, de Livro dos Homens, fica muito trabalhoso para chegar no universal. Precisa uma leitura psicanalítica da personagem, precisei colocar ela numa dimensão trágica. O discurso é dela e nada vem ao meu socorro. Mas se eu tenho duas personagens como em Duas mulheres em preto e branco, que são duas médicas, que leram muito, viram muito cinema e são duas histéricas; elas podem soltar uma verdadeira verborragia. Então a coisa vai se abrindo, isso acontece muito em Retratos Imorais. Agora em Romeiros com sacos plásticos, eu reescrevi sobre romeiros, mas sob a perspectiva dos sacos plásticos, da civilização contemporânea. De repente posso fazer um link entre a personagem Maria do Carmo e a música medieval.

Em Retratos Imorais tem contos das décadas e 1970 e 1980 que você reescreveu. Como foi esse reencontro com esses textos? Como era o escritor Ronaldo Correia de Brito da década de 1970?
Eu mudei como escritor. Desde Galileia, eu avancei muito na minha relação com a escrita. Não é fácil, embora eu sempre reescreva. Quem trabalha com a genealogia do texto teria pano pras mangas para investigar minha escrita. Vamos pegar um exemplo, Romeiros com sacos plásticos antes se chamava O governo. Tive a vontade de reescrevê-lo quando vi as fotografias sobre Juazeiro (do Norte) do Patrick Bogner. Isso é possível na literatura, ao contrário do cinema ou das pinturas. E porque eu já tinha outra compreensão sobre aquele conto. O que aconteceu é que eu mudei, vou mudar sempre, acho que sou um tipo de escritor inquieto, que gosta de correr riscos. O que, às vezes, não é bom para as editoras. Acho que alguns leitores se sentem traídos ao ler esse livro, sinto que os leitores querem que o autor se repita. O grande risco de Retratos imorais é ser um livro com 22 livros dentro dele, cada conto desse é a estrutura de um livro. As pessoas querem coerência e unidade, mas a literatura não tem coerência e unidade. O escritor é contraditório. Tenho o cuidado em ser cruel com os leitores, em transtorná-los, mas eu próprio me transtorno quando escrevo. A única coisa que o leitor não pode esperar de mim é que eu não ouse.

Em vários contos você se utiliza da sua experiência como médico, algo que não aparecia muito antes. Como é que essa vivência em hospitais dialoga com seu lado escritor?

A maior parte da minha vida passei pelo menos 60 horas por semana como médico, isso significa que durante cinco dias na semana eu passava pelo menos 12 horas dentro dos hospitais ou dentro de salas de ambulatório. Então eu estava num lugar de ouvir a dor, a solidão, o medo e de acenar com a cura, ou com o consolo, ou com pelo menos o poder de ouvir, de tocar e olhar. É mais do que natural que eu deixasse, finalmente, essas histórias serem contadas. Acho que cada vez mais vou falar sobre isso, e não apenas como uma experiência mítica, mas de uma forma dolorosa.

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