Teatro | Maria do Caritó

fev 11th, 2011 | Por Thiago Corrêa | Seção: Blog

De tanto ouvir falar no trabalho de Newton Moreno em Recife, coloquei a peça Maria do Caritó na lista do que precisava fazer no Rio de Janeiro. Nessa última quinta - ao invés de sentar num boteco em Botafogo, curtir um showzinho no Arpoador ou ficar de bobeira na rua vendo o povo passar - me meti no trânsito rumo a Gávea pra dar boas gargalhadas com Lília Cabral e seus companheiros de palco: Leopoldo Pacheco, Dani Barros, Fernando Neves e Silvia Poggetti.

Se tivesse que classificar, eu diria que se trata de uma comédia. A história de Maria do Caritó (Lília), uma solteira que está desesperada para encontrar um marido antes de completar 50 anos, é recheada de situações feitas para a plateia explodir em risadas. Algo que na minha sessão aconteceu um bocado, gerando desde um risinho contido a gargalhadas de fazer chorar, com direito a rápidas interrupções no meio do espetáculo para aplausos. Foi assim na cena da galinha Damiana (maravilhosamente interpretada por Dani), no número musical preparado por Maria do Caritó e na sua reação depois do primeiro beijo em Amatoli (Leopoldo).

Embora esse seja o clima que prevalece nos cem minutos de espetáculo, o texto de Moreno apresenta nuances que ficam martelando em nossa cabeça. Nesse ritmo, assim como quem não quer nada, o autor aproveita que abaixamos a guarda para introduzir o tema do coronelismo no Nordeste, questiona a devoção religiosa e desmedida do povo, ironiza a criação de mitos e ainda repensa o papel do teatro, numa reflexão metalinguística sobre o circo.

Além de rir, a gente também se comove com a solidão de Maria do Caritó, se aborrece com a ignorância do povo e se revolta com a ambição do seu pai (Fernando) e do coronel (Leopoldo) em explorar a condição de santa da filha para objetivos comerciais e políticos. O espetáculo é construído entre risadas e reflexões, uma linha que se traduz no palco com uma mescla de figurinos caricatos e falas inteligentes, num jogo que transita entre o burlersco e o lúdico, a leveza da fantasia e o peso amargo da realidade.

Tags: , , , , , , ,

Comente