Expo | Amor e Solidariedade
mai 5th, 2011 | Por Thiago Corrêa | Seção: BlogUma das lembranças que trago da infância são os passeios no shopping, regados a pastel de queijo da Pastello, acompanhado de um copo de Fanta e brincadeiras em cima de uma mulher nua, de formas arredondadas feita de pedra. Mais de duas décadas depois, eis que parentes dessa mulher aparecem aos montes aqui perto de casa, no Parque Dona Lindu. Trata-se da exposição Amor e Solidariedade, uma retrospectiva da trajetória de Abelardo da Hora que foi escolhida para inaugurar a Galeria Janete Costa.
Mas não foi por esse ímpeto nostálgico de relembrar minhas primeiras peripécias em cima de uma mulher pelada que resolvi romper meu silêncio escrito. Embora isso mereça ser ressaltado neste texto, também não foi pela satisfação de ver esse espaço de cultura funcionando aqui perto de casa nem pela constatação de que ele está atraindo pessoas que normalmente não sairiam de casa para ver uma exposição, mas que encontram um tempinho no meio dos exercícios físicos para dar uma espiada no que está acontecendo ali dentro.
Bom, chega de mistério. O que me levou a estar aqui em frente ao computador foi o impacto que senti ao me deparar com o conteúdo social da obra de Abelardo. Eu fui ali achando que só iria ver o mulherio arredondado e as referências à cultura popular, e de repente tropeço com a tristeza de uma mãe lamentando a fragilidade do seu filho doente. A montagem da exposição permite esse impacto, criando uma fronteira que evidencia o abismo entre a preocupação puramente estética de Aberlado, na sua busca por novos caminhos da forma; e a social, onde o discurso se sobressai e atinge não através do olhar, mas da consciência.
A paulada é grande, você sai de um estado de letargia provocado pela beleza para cair num sentimento de culpa, revolta e angústia em questão de alguns passos. Num instante você está no paraíso habitado por mulheres nuas fazendo pose, grupos de frevo e maracatu; para ser expulso e se ver no convívio de retirantes da seca, meninos raquíticos com seus buchos cheios de vermes, palafitas, sobreviventes de guerra e olhares de desespero. Tudo ali, felicidade e miséria junto sob o mesmo teto. Como o mundo absurdo em que a gente vive.