Crônicas para ler na escola - Ronaldo Correia de Brito

out 17th, 2011 | Por Thiago Corrêa | Seção: Críticas, Destaque

Ronaldo Correia de Brito através do espelho

Não faz muito tempo que os olhos da crítica literária eram condicionados a se voltarem à biografia do autor. Era através da vida dele, do seu engajamento político, das suas proezas intelectuais, das suas noias, obstáculos, loucuras, frustrações e amores que as obras eram analisadas. Embora essa prática tenha caído em desuso – com a ascensão das leituras formalistas (que privilegiam mais os recursos estéticos da obra) e dos estudos culturais (que procuram explicar o livro pelo contexto histórico-social em que fora produzido) –, fica difícil não recorrer ao apelo biográfico quando se trata de resenhar o volume Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola.

O título reúne uma seleção feita pelo crítico literário Cristhiano Aguiar com 41 crônicas assinadas pelo autor de Galiléia para a coluna Entremez da revista Continente e o site Terra Magazine. Dada a amizade entre o crítico e o escritor, a escolha dos textos desenha um painel de interesses, ideias, sentimentos e memórias que reflete diretamente na figura de Ronaldo. Numa via de mão-dupla, ao mesmo tempo em que o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009 lança luz a determinados temas, na intenção de traduzir o mundo em que vive; ele também se revela enquanto ator desse cenário: deixa rastros dos seus caminhos argumentativos, resgata lembranças importantes para sua formação intelectual, aponta referências literárias, expõe sua perspectiva e os valores que o guiam.

Afinal, como bem observa a professora Regina Zilberman na apresentação do livro, a primeira pessoa que assume o papel de narrador coincide com Ronaldo. O eu da narrativa é o próprio escritor, que se posiciona nas crônicas sem os subterfúgios da ficção, sem as maquiagens e disfarces dos personagens. O caráter pessoal dos textos é tão evidente que os mais próximos do escritor não terão dificuldades em ouvir a sua voz durante a leitura do livro. Por outro lado, a consciência de Ronaldo em se revelar, às vezes, parece pesar, traduzindo-se num certo didatismo, em explicações que deslocam o tom natural, transitório e subjetivo das crônicas para uma vocação de registro jornalístico, acadêmico.

Independentemente desses soluços, o que importa é que os fatos descritos nas crônicas de Ronaldo superam os limites da rotina individual para servir de mote na construção de um pensamento crítico, num processo que permite desvendar o contexto e a maneira como o escritor se insere nele. Nesse sentido, é interessante ver como o autor lida com sua condição de escritor premiado, refletindo sobre a transformação da literatura em eventos (na crônica E mesmo assim continuamos escrevendo), a rotina das suas turnês (Uma viagem literária) e a constatação de que a distância a percorrer para reverter o status sagrado da literatura em leitores reais ainda é imensa (Constrangimentos e Os cinco rapazes do hotel Pirâmide).

Mais do que isso, as crônicas também possibilitam uma visão precisa das ideias lançadas pelo autor, apontando opiniões diretas e tentativas de interpretação da sociedade contemporânea que em outros momentos foram ou ainda serão reformuladas dentro do seu universo ficcional. Quem lê as crônicas Peixes, cebolas e políticos; Para onde estão me levando?, Viva o partido encarnado! e Cristo nasceu em Macujê muito provavelmente vai perceber o mesmo sentimento de revolta que aparece com força dilacerante em alguns dos contos de Retratos imorais, onde o autor denuncia o fracasso do poder público, o caos social e o cinismo da classe política.

Mas talvez o melhor exemplo disso sejam os textos Procura-se um personagem, O que faz Mickey no lugar de Jesus? e Natal, pão de ló e Coca-Cola que evidenciam a luta do escritor, já sutilmente travada pela peça O baile do menino Deus, contra a invasão indiscriminada da cultura de massa, num processo de deterioração da tradição e dos valores religiosos da sociedade de consumo. Dentro dessa mesma perspectiva, também podemos entender a obra de Ronaldo a partir das suas ressalvas aos experimentalismos das práticas narrativas contemporâneas (contidas nas crônicas Cortem a cabeça! e A escrita e os modismos) ou do respeito do autor aos mestres da cultura popular, à tradição oral e ao imaginário sertanejo (revelados em Entrevista com o lobisomem, Bach e José Ancieto e E mesmo assim continuamos escrevendo). Posicionamentos esses que indicam caminhos para pensar na estrutura classuda dos livros Faca e Livro dos Homens, na opção pelo encantamento em algumas das suas histórias e no seu processo de reescritura de mitos.

Embora os textos apontem para questões específicas da obra de Ronaldo, no conjunto elas evidenciam o descompasso do escritor com o seu mundo, a sua condição de estrangeiro, de outsider que não consegue se encaixar nos padrões da moda e, por isso, explora a literatura como uma maneira de compreender o outro e a si mesmo. Cada uma do seu jeito, as crônicas colaboram para a identificação dos pilares que sustentam o universo da sua obra numa linha fronteiriça entre o urbano e o rural, o erudito e o popular, o moderno e a tradição, o real e a imaginação que foi tão bem sintetizada no romance Galiléia, através do deslocamento de três sujeitos exilados diante das suas origens.

Thiago Corrêa
lido em Ago. de 2011
escrito em 19.08.2011

: : TRECHO : :
“Olhado das ruas e becos, recantos de praças e avenidas, o carnaval revela o Recife e sua gente. Aprecio os enquadramentos fechados, os pequenos planos, as melodias perdidas, os cheiros que entram pelo nariz sem pedir licença, o suor do passista que nos salpica. Gosto do carnaval que nasce espontâneo, por pura vontade de brincar, e do folião que se fantasia, invertendo a ordem do mundo.O carnaval aglomera, vira onda e furacão, mas também é solitário, vontade de um único brincante.” (p. 57, crônica: Sozinho eu vou).

: : FICHA TÉCNICA : :
Crônicas para ler na escola
Ronaldo Correia de Brito
Objetiva
1a. edição, 2011
170 páginas

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