8 histórias de futebol na literatura

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OK, já é Copa do Mundo e a concentração anda em baixa. A vontade é de ficar grudado na frente da televisão pra assistir às mesas redondas e colher informações pra ajudar na hora de preencher o bolão da Copa. Mas como nunca tive a sorte do polvo Paul nos palpites, o jeito é continuar trabalhar pra ganhar dinheiro. Como nada impede que se una o útil ao agradável, elaborei uma lista de livros e contos que usam o futebol.

 

Greg1 –Decameron – Sidney Rocha

Pra começar, um texto da casa. Na edição de número 5 da Revista Vacatussa, o autor-convidado Sidney Rocha nos presenteou com um belo conto que se passa nos bastidores da Copa de 1982. Uma excelente alternativa para entendermos o que houve por trás da Tragédia do Sarriá e do grito de tetracampeão em 1994 após o chute na Conchichina dado por Baggio em sua cobrança de pênalti.

Vídeo: Teaser

Revista: Revista Vacatussa #5

 anonovo2 – Abril, no Rio, 1970 – Rubem Fonseca

 

Ainda no terreno do contos, vale lembrar Rubem Fonseca. Em Abril, no Rio, 1970 – publicado no livro Feliz Ano Novo -, Fonseca começa o conto fazendo uma análise do cuspe do tricampeão Gérson para falar sobre a diferença da saúde que há entre os craques e os aspirantes.

Crítico do livro: Feliz ano novo

 

 

 febre_de_bola3 – Febre de bola – Nick Hornby

Na empolgação da leitura de Alta Fidelidade, acabei me deparando com outro título de Nick Hornby. Torcedor fanático do Arsenal, da Inglaterra, Hornby faz de Febre de bola um almanaque de todos os jogos assistidos por ele. Pra quem não é torcedor do Arsenal, o livro acaba sendo enfadonho pelo excesso de detalhes, mas ainda é possível encontrar lá seus méritos. Aqui e ali, quem gosta de futebol vai apreciar os relatos de Hornby, a exemplo da análise que ele faz sobre como a vida foi trilhada pela sua paixão pelo futebol. Assim, por esse perspectiva pessoal, temos acesso a Tragédia de Hillsborough (que resultou na morte de 96 pessoas durante o jogo do Liverpool e Nottingham Forest em 1989) e sobre a mudança de estilo do futebol inglês com a chegada de jogadores estrangeiros. Em 2005, o livro ganhou uma versão pro cinema. Na adaptação, porém, os diretores Peter Farrelly e Bobby Farrelly diluíram os detalhes futebolísticos e transformaram a história numa comédia romântica.

4 – O segundo tempo – Michel Laub

segundotempoAinda nesse rumo de fanatismo de torcedores, O segundo tempo de Michel Laub usa o clássico gaúcho entre Internacional e Grêmio, disputado na semi-final do campeonato brasileiro de 1989, como pano de fundo para falar sobre o drama de um menino de quinze anos que assiste o divórcio dos seus pais. O livro não chega a ser grande coisa, mas – a exemplo de Febre de Bola de Hornby – faz uma reflexão interessante sobre como nossas vidas são habitadas por fatos e jogadores medíocres.

Crítica: O segundo tempo

 

drible5 – O drible – Sérgio Rodrigues

Meu atual livro de cabeceira. Ainda não terminei, mas já posso recomendar sem medo de errar. O capítulo inicial, em que o autor descreve o lance do drible que Pelé deu no goleiro do Uruguai na Copa de 1970, já é o suficiente para lamber os dedos.

Trecho: “O ímpeto é logo contido, editado, rew, play, pause, play. A bola sai do pé do Tostão, volta, sai, volta. O passe do cara é perfeito, diz Murilo, sentado perto de você no sofá junto da lareira acesa, uma criança brincando com sua pistola de laser. Um miligrama de força a mais ou a menos, seria quase perfeito, praticamente perfeito, mas não, é perfeito, metido da meia-esquerda com o pé esquerdo numa linha diagonal de desenhista de Brasília, a mais leve curvatura, em direção ao centro da grande área. Nesse momento a imagem começa a andar para a frente em câmera lentíssima. De repente tudo o que vemos, a voz do homem é baixa e roufenha, sem o tom de comando de antigamente, tudo o que vemos é Pelé correndo em direção a uma bola branca, mas aí vem o goleiro e agora a bola está entre Pelé e o goleiro, mais perto do grande crioulo mas cada vez menos, porque o goleiro, aliás o famoso Mazurkiewicz, o goleiro resolve ir à luta e sai com tudo da área, não quer nem saber.”

 

6 – A cabeça do futebol

livro-cabeca-do-futebol1Organizada por Carlos Magno de Araújo, Samarone Lima e Gustavo de Castro, essa coletânea reúne de crônicas sobre o futebol de 25 craques das letras. Nesse time, estão autores como Raimundo Carrero (cujo amor pelo Sport o fez comer grama na Ilha do Retiro), Fernando Monteiro, Juca Kfouri, Daniel Piza, José Roberto Torero e Xico Sá.

Crítica: A cabeça do futebol

 

 

 

 7 – A eterna privação do zagueiro absoluto – Luis Fernando Verissimo

A_ETERNA_PRIVACAO_DO_ZAGUEIRO_ABSOLUTO_1231470441PPegando a deixa das crônicas, eis aqui o rei Luis Fernando Verissimo. Nessa coletânea de contos e crônicas, Verissimo relembra com nostalgia o dilema ao ganhar uma bola de couro, o prazer de ter visto Domingos da Guia jogar, a época da Copa de 62 e as superstições e lendas que envolvem o futebol. Também mostra a incompatibilidade entre homens e mulheres a partir do futebol e abre uma janela no tempo, permitindo um visita a época já longínqua da Copa da França, em 1998, quando se discutia o dilema de se convocar Edmundo, as teorias da conspiração que sucederam a convulsão de Ronaldinho antes da final e ainda assistir o surgimento de Ronaldinho Gaúcho alguns anos depois.

Crítica: A eterna privação do zagueiro absoluto

 

bagre8 – Diz-me quem escalas que te direi quem és – José Roberto Torero

Já que o tema da lista é futebol na literatura, a crônica Diz-me quem escalas que te direi quem és de José Roberto Torero não poderia deixar de entrar em campo. Nela, Torero escala o time dos sonhos da literatura brasileira, formado por Drummond no gol; Manuel Bandeira, Érico Verissmo, Nelson Rodrigues e Padre Antonio Vieira na linha defensiva; Gregório de Matos, Mário de Andrade e Machado de Assis no meio de campo; e Guimarães Rosa, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos como trio de frente. Vale a pena conferir, a crônica está na coletânea Os cabeças de bagre também merecem o paraíso.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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