A crítica literária e os ensaios de José Lins do Rego

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“E assim derruba-se tudo para que uma arquitetura de feira de amostras possa se exibir à vontade. O homem foge do natural para um arrivismo mercantil. A cidade que crescera horizontalmente força o seu destino e procura, por todos os meios, condensar-se em lata de sardinha. E com isto cometem-se crimes contra o bem-estar, contra o bom gosto, contra a vida”. Não, não estamos comentando a destruição do edifício Caiçara, lá do Recife. Não se trata, tampouco, de um artigo assinado pelo Movimento Passe Livre, ou um editorial criticando as polêmicas obras da Copa do Mundo. Estamos, na verdade, em 1942. Publicado no livro Gordos e magros, o ensaio O homem, a casa e a cidade, escrito por José Lins do Rego, nos lembra o quanto o autor de Menino de Engenho não hesitou em fazer parte do debate público do seu tempo.

É preciso realizar um balanço não apenas da obra do autor paraibano, mas também das camadas e camadas de debates críticos a respeito de seus livros. Dois textos publicados pelo jornal curitibano Rascunho, por exemplo, já começaram este trabalho. Em “O curioso caso de José Lins do Rego”, Cristiano Ramos faz um cuidadoso balanço dos clichês por trás de algumas afirmações críticas a respeito de Zé Lins. No mesmo Rascunho, Rinaldo de Fernandes realizou trabalho semelhante na coluna que mantém no jornal. De fato, o autor de Fogo morto sofre de uma leitura excessivamente ideológica de sua literatura. Por outro lado, porém, ele me parece “vítima” de sua própria retórica. E não há lugar melhor para entender estas contradições do que nos seus ensaios. Embora as coletâneas originais estejam há muito fora de catálogo, temos duas boas antologias publicadas pela José Olympio. Ambas nos dão um bom panorama da sua faceta como crítico e ensaísta. Trata-se de Ligeiros traços: escritos da juventude, organizada por César Braga-Pinto e O cravo de Mozart é eterno, organizada por Lêdo Ivo. Ligeiros traços está melhor amarrada, com uma boa introdução do organizador, complementada por ótimas notas de rodapé e uma datação precisa dos textos. O volume organizado por Lêdo Ivo, por outro lado, carece de notas explicativas e a datação original dos textos não é indicada. Há, somente, a indicação da coletânea que originalmente os editou. Muitos dos textos, porém, foram publicados primeiro em jornais e revistas e teria sido interessante indicar as datas e locais originais de publicação.

O menino é o pai do homem, diz Brás Cubas redizendo Wordsworth: à primeira vista, isto não seria verdade ao lermos Ligeiros traços, que compila textos escritos por Zé Lins dos 18 aos 23 anos de idade. Como pode o autor de Cangaceiros ter escrito frases como: “E os garimpeiros do ideal esculpem emoções, ascendem belezas em difusão por toda parte, garantem a integridade da nossa cultura, com a condição bárbara de deixar a terra de seus motivos, de seus sonhos, de suas saudades” ou (ao tratar da poesia de Carlos Dias Fernandes) “A sua figura de homem forte e sadio é uma projeção de seiva florida sobre os seus ritmos masculinos”? A resposta não é difícil: o talento de Zé Lins está aqui em latência e um longo percurso ainda seria percorrido. Ele mesmo, posteriormente, vai negar seus escritos de juventude, afirmando serem tão somente panfletários. Ao escrever sobre livros e artes, por exemplo, interessava-lhe menos elaborar leituras e análises das obras e mais explicitar o impacto juvenil das sensações causadas pelas mesmas em sua própria sensibilidade. Sua visão sobre o Brasil ainda é rasa; o repertório de leituras, pouco. Sua crítica se conforma com as muletas retóricas porque elas são o suficiente para implementar o gesto laudatório ou demolidor, pontos de chegada da sua crítica naquele momento. Devemos imaginar o Zé Lins daquele tempo como um jovem literato que se deixava levar pelo que pode haver de provinciano em toda cena literária, esteja ela em Itabaiana ou em São Paulo. Ele bem poderia ser um dos precários poetas e jovens intelectuais criados por Roberto Bolaño, talvez mesmo García Madero, o narrador de Os detetives selvagens. O jovem Zé Lins, aliás, certamente teria organizado um blog. E participaria ativamente de debates no Facebook e no Twitter, compartilhando textos dos seus blogueiros e articulistas preferidos.

A leitura de Ligeiros traços, contudo, não é de interesse apenas para os especialistas. Gostaria de sugerir que pudéssemos ler esta coletânea como uma espécie de involuntário romance de não-ficção, fragmentário e epistolar, no qual acompanhamos os embates, as descobertas, as paixões e as brigas de um artista ainda jovem. Descobrimos suas leituras formadoras, os primeiros mestres e as amizades; deduzimos, nas entrelinhas, as marcas das noites boêmias no Recife – o lança-perfume, as prostitutas, os bailes, a cocaína e o álcool. Presenciamos sua chegada na Faculdade de Direito, bem como suas primeiras reações ao Modernismo; identificamos seu precoce interesse em pensar o Brasil, seu compromisso de criar uma arte sintonizada com a cultura popular, especialmente a nordestina. A tensão, nunca resolvida, entre uma aguda consciência social e as bases conservadoras do seu pensamento já se revelam de maneira nua e crua também. Da mesma forma, uma das maiores qualidades do Zé Lins ensaísta já está presente em seus textos de juventude: o mérito de, mesmo se as ideias não são originais ou aprofundadas, agregar uma vivacidade e um vigor àquilo que está sendo debatido. Os ecos ouvidos em Ligeiros casos podem ser retomados anos depois, na sua ficção. Um dos melhores textos, por exemplo, é a homenagem que ele faz, em 1919, ao poeta José Passarinho, cantador negro de origem humilde transformado em personagem do seu romance de 1943, Fogo morto.

Ligeiros traços termina sua narrativa com a chegada de um personagem que será o definitivo mentor intelectual do nosso protagonista: Gilberto Freyre. Não por acaso, nos textos de O cravo de Mozart é eterno, a sombra do autor de Casa Grande & Senzala se faz presente do início ao fim da coletânea. Comparando os dois livros, percebemos que ele encontrou uma maior maturidade no modo de se posicionar como intelectual público. Seu projeto literário também está melhor definido; o papel de Freyre neste processo é fundamental. A convivência com o sociólogo pernambucano lhe ajuda a fornecer as bases para pensar o Brasil, o Nordeste e sua própria ficção. Como bem aponta Sônia Lúcia Ramalho de Farias em O sertão de José Lins do Rego e Ariano Suassuna, neste momento Zé Lins assume para si o ideário regionalista de Freyre, que propõe o resgate da tradição cultural nordestina como uma retomada de valores considerados genuinamente nacionais. Vários textos de O cravo de Mozart é eterno são atravessados por esta questão. Seja ao traçar perfis de escritores e intelectuais, como o já citado Freyre ou Graciliano Ramos, seja ao comentar livros ou obras de arte (“Foi uma vitória da Marinha”, “O pintor Cícero Dias”, “O quinze”), o Brasil, a sua diversidade cultural, a importância do Nordeste, a força do popular, a reflexão sobre como melhor dizer o nacional através da arte surgem com frequência. Seria um equívoco afirmar que estes são os únicos tópicos dos seus ensaios e da sua crítica compilados em O cravo de Mozart é eterno, mas certamente aparecem repetidas vezes e em posição de destaque.

Assim como na juventude, o jornalismo continuou a ser o espaço privilegiado para expor suas ideias. Não encontramos mais aquela retórica bacharelesca de outrora: como atestam seus próprios textos (“Espécie de história literária” e “Gilberto Freyre” são exemplos), regionalistas e modernistas em muito podiam discordar, mas convergiam na busca (através de caminhos diversos) por uma renovação dos usos, repertórios e modos de dizer da literatura brasileira. Por outro lado, tal como nos escritos de juventude, os textos continuam a ser menos propostas de análise e mais testemunhos de trajetórias intelectuais, em que se reafirmam os valores literários que o ensaísta paraibano julgava pertinentes. A linguagem agora é bem a sua própria e tem um jeitão de “causo”, de conversa de bar. Esta constatação me parece importante, pois chama atenção para o fato de que há sim um estilo próprio desenvolvido por José Lins do Rego, resultado de um contínuo processo de amadurecimento.

Intervenção, calor da hora, opinião: estas são as características que se consolidam no ensaísmo da maturidade. Um bom exemplo disto é “O provinciano Machado de Assis”, no qual José Lins do Rego primeiro toma uma posição a respeito de uma polêmica entre Álvaro Lins e Afonso Arinos, manifestando seu apoio ao primeiro. Arinos atacara Lins afirmando que o crítico pernambucano era um provinciano por nunca ter viajado muito. Ressaltando a centralidade de Machado de Assis não só na literatura brasileira, como na produção literária de todo o continente, José Lins do Rego rebate Arinos lembrando que Machado “nunca deixou a província fluminense”. Por fim, após lembrar de outros nomes ilustres que pouco ou nunca saíram do país (entre os citados, Mario de Andrade), reitera o compromisso que ele, José Lins, tem com um lugar e com uma tradição, enfatizando o quanto isto não impede que se alcance uma universalidade.

Conforme bem apontaram Rinaldo de Fernandes e Cristiano Ramos, qualificações como “regionalista”, “escritor testemunhal”, “mero contador de histórias”, “memorialista”, “escritor apenas da cana-de-açúcar” contam verdades parciais sobre seu ficção. Mas o próprio José Lins do Rego, em alguns textos de O cravo de Mozart é eterno, contribui para criar essa aura ao redor de si mesmo. Em “Coisas de romance”, ele afirma que, ao ser perguntando sobre suas influências, falou apenas “dos cegos cantadores de feira”. Em seguida, reitera o quanto “o romance brasileiro não terá em absoluto que ir procurar os Charles Morgan ou os Joyce para ter existência real. Os cegos da feira lhes servirão muito mais como a Rabelais serviram os menestréis vagabundos da França”. Linhas depois, reproduz uma conversa com Manuel Bandeira, na qual o poeta lhe diz: “Você é motor que só funciona bem queimando bagaço de cana”. Não só o autor de Pedra Bonita dá razão a Bandeira, como associa esta conversa a Fogo morto. Deste modo, podemos levantar a hipótese de que a agenda ideológica que em muitos casos impediu uma perspectiva mais acurada por parte da crítica a respeito da sua ficção, também foi assumida por José Lins ao teorizar sobre seu próprio trabalho. Mas isto não o impediu de, em “Paulo Prado”, passada a época de embate mais aguerrido entre modernistas e regionalistas, reconhecer a importância de Oswald e de Prado, ou de enfatizar, em outros textos, o quanto “regionalismo” não é necessariamente sinônimo de qualidade literária ou agudeza sociológica. As ideias de Freyre são fundamentais para entendermos José Lins do Rego e o regionalismo de 30 de modo geral, mas nenhum daqueles autores, José Lins incluso, cabem perfeitamente em uma gaveta.

Ao contrário de outros autores, como Octavio Paz, Borges ou Paul Valéry, nos quais o ensaísmo se revela tão importante e fecundo quanto suas criações poéticas e ficcionais, os ensaios de José Lins do Rego estão aquém da força de sua ficção (a exceção, talvez, pudesse ser feita aos seus relatos de viagem, merecedores de um estudo em separado). No entanto, vale a pena sim voltar aos escritos, ficcionais ou não, deste homem que amou de peito aberto sua terra, seus livros, seus frevos e seu Flamengo.

(Texto originalmente publicado pela revista Continente em 2013 em um especial sobre a vida e obra do escritor paraibano José Lins do Rego)

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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