À espera dos bárbaros – J. M. Coetzee

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PRÓLOGO

 Autor: J. M. Coetzee nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, África do Sul. Tem mais de 23 livros de ficção publicados, entre romances, volumes de contos e autoficções; além de obras de ensaios e cartas. É o primeiro autor a vencer dois Booker Prize (em 1983 e 1999). Em 2003 venceu o Prêmio Nobel de Literatura.

Livro: À espera dos bárbaros é o terceiro livro por J. M. Coetzee. A obra foi publicada em 1980. Conquistou o James Tait Black Prize em 1980 e o Geoffrey Faber Memorial Prize de 1981. A obra integra os vinte títulos que compõem a coleção Great Books of the 20th Century da editora Penguin.

Tema e enredo: Levando uma vida monótona, entre a burocracia de administrar o vilarejo e jogar conversa fora com os amigos; o magistrado ia envelhecendo em paz, até a chegada do coronel Joll, da temida Terceira Divisão da Guarda Civil. Com ordens de promover uma missão contra os bárbaros, Joll bate de frente com os princípios do magistrado.

Forma: Coetzee prefere abordar o problema através da tangente, a partir dos efeitos causados na vida de pessoas comuns (no caso, numa vila de fronteira); ao invés de abordar o problema em seu epicentro, nos círculos onde as decisões são tomadas.

CRÍTICA

O clima era de paz, as preocupações não iam além do dia-a-dia. Mas com o surgimento de uma notícia ou capricho político, cria-se um inimigo, instalando medo e ódio na vida das pessoas, a ponto de receber apoio irrestrito, capaz até de tolerar a prática de tortura. O que serviria como um resumo da ainda não acabada Guerra do Iraque, é o enredo do livro À espera dos bárbaros, de J.M. Coetzee, Prêmio Nobel de 2003 e único escritor a ter vencido por duas vezes o Booker Prize, considerado o mais importante prêmio da Grã-Bretanha.
O conflito forjado pelo presidente americano George W. Bush contra o Iraque, que poderia ter sido a fonte de inspiração para Coetzee, na realidade serve para mostrar o quanto o livro continua atual e, infelizmente, arcaicas as estratégias de manutenção de um Império. Lançado pela primeira vez em 1980, o livro chega com um atraso de 26 anos ao Brasil, mas revigorado pelos rumos da História.

Assim como ocorre em seus outros livros, Coetzee prefere abordar o problema através da tangente, a partir dos efeitos causados na vida de pessoas comuns (no caso, numa vila de fronteira); ao invés de abordar o problema em seu epicentro, nos círculos onde as decisões são tomadas. Com isso, o escritor conserva o clima de incertezas, fazendo o leitor perguntar se tudo aquilo tem fundamento ou não passa de uma interpretação equivocada do personagem.

Sempre colado a um único personagem, Coetzee encarna desta vez o velho magistrado da cidade. Levando uma vida monótona, entre a burocracia de administrar o vilarejo e jogar conversa fora com os amigos; o magistrado ia envelhecendo em paz, até a chegada do coronel Joll, da temida Terceira Divisão da Guarda Civil. Com ordens de promover uma missão contra os bárbaros, Joll bate de frente com os princípios do magistrado, que inicialmente se mantém discreto na defesa dos seus ideais. Mas com as práticas desumanas utilizadas pelo coronel, o magistrado vai deixando transparecer seu desconforto, perguntando-se quem são os verdadeiros bárbaros, até ser considerado um traidor.

Como o protagonista de Vida e Época de Michael K ou o professor universitário de Desonra, o magistrado também possui uma visão diferenciada dos que estão a sua volta. Todos três não se deixam levar pelas versões oficiais. Ao contrário, se opõem a elas, mas de uma maneira bem particular, sem a intenção de informar sobre o que está acontecendo, agregar forças para os seus lados ou tornarem-se líderes. No máximo, mártires de si mesmos. A luta se dá mais num campo individual, pautada pela ética pessoal, de uma forma quase egoísta.

Essa consciência mais apurada dos protagonistas, impedem que eles tenham uma relação mais próxima com outras pessoas, fazendo da solidão uma temática importante da obra de Coetzee. O isolamento é construído tanto pelos cenários remotos, como pelas diferenças físicas. Se Michael K sofria pelo seu lábio leporino e aparência de deficiente mental, os personagens de Desonra e À Espera dos Bárbaros encaram o problema da velhice. Neste último, o autor utiliza as preocupações pessoais do magistrado, quanto ao esvaziamento da vida de um velho, como uma metáfora para o sentimento de um vilarejo que luta pela sobrevivência, seja ela contra os bárbaros ou o deserto que o cerca.

Lido em Abr./Jun. de 2006
Escrito em 22.06.2006


 

Relação com o escritor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

À espera dos bárbaros
J.M. Coetzee
Trad. José Rubens Siqueira
Companhia das Letras
1a. edição, 2006
208 páginas

TRECHO

“Numa determinada época do ano, sabe, os nômades nos visitam para negociar. Bem: vá até qualquer barraca do mercado nessa época e veja quem é roubado no peso, é enganado, ofendido e intimidado. Veja quem é forçado a deixar suas mulheres para trás, no acampamento, por medo de que sejam insultadas pelos soldados. Veja quem está caído bêbado na sarjeta, e veja quem chuta aquele que está caído. É esse desprezo pelos bárbaros, desprezo demonstrado pelo menor dos moços de estrebaria ou camponês, que eu como magistrado venho combatendo há vinte anos.” (p. 70)

EPÍLOGO

Ópera:À espera dos bárbaros virou uma ópera, adaptada pelo músico Philip Glass. A ópera teve sua estreia em setembro de 2005, na Alemanha.

OUTRAS OPINIÕES

Academia Sueca, em 2 de outubro de 2003

(http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2003/press.html)

“um thriller político que segue a tradição de Joseph Conrad na sua ingenuidade idealista que abre os portões para o horror”.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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