A ilha – Fernando Morais

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Um país construído pelo povo

Pensar na implantação do socialismo como fruto de uma vitória bélica de alguns guerrilheiros barbudos é ignorar o caráter ideológico da Revolução Cubana. Ao ler o livro-reportagem A Ilha, de Fernando Morais, percebe-se que o grande mérito de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara não foi derrubar Fulgencio Batista do poder, mas conquistar o apoio do povo.

O que as palavras do autor nos revela é como as mudanças revolucionárias foram sendo implantadas pelos guerrilheiros, num processo de transformar a população cubana em agente modificador da realidade, ao invés de meros espectadores. Os efeitos foram sentidos não apenas no processo de tomada do poder, e sim, principalmente, na consolidação das reformas de Fidel Castro.

Com seu talento para a literatura, Fernando Morais consegue aparar arestas de temas espinhosos, desvendando o socialismo cubano em capítulos dedicados a assuntos como educação, segurança, saúde, habitação, justiça, economia e cultura. Mesmo com a suavidade na escolha das palavras, o texto é denso em informação, rico em dados e com detalhes que fundamentam a opinião do autor. O ponto falho é que a nova edição não oferece um parâmetro aos leitores, pela falta da conversão dos valores da época para a moeda de hoje.

Escrito na década de 70, o livro ficou famoso por revelar aos brasileiros a ilha de Fidel Castro, na época um país proibido pela ditadura militar. Talvez por isso, a imparcialidade de Morais tenha sido questionada, já que os pontos positivos levantados por ele em relação a Cuba são muitos.

Tanto que, 25 anos depois, no prefácio da 30a edição, o jornalista parece confessar a culpa ao tentar se corrigir com um discurso piegas sobre a importância da liberdade. Algo desnecessário, já que o assunto é sabiamente abordado pelo autor no capítulo “Imprensa”, onde ele, por meio de um entrevistado, transforma o exemplo de Cuba num espelho em que também podemos nos ver.

Apesar dessa constrangedora revisão, o novo prefácio acrescenta muito ao livro. Ele nos mostra que da Cuba descrita na reportagem pouco ainda resta. De maneira simples e bem fundamentada, Morais faz uma rápida viagem histórica sobre os percalços enfrentados pelos cubanos após a dissolução da União Soviética.

Vemos o término dos privilégios conseguidos com o bloco socialista, seguido do bloqueio americano e o início do processo de abertura que Cuba vem sofrendo. A ilha, que um dia havia impressionado Morais com um outdoor exibindo uma mensagem do revolucionário vietnamita Ho Chi Minh, está se tornando num país qualquer, com a propaganda de uma multinacional desejando boas vindas aos visitantes.

Thiago Corrêa
lido em Jan. de 2008
escrito em 07.07.2008
 
: : TRECHO : :
“A bordo de um quadrirreator Ilyushin-62 vendido pela Aeroflot à Cubana de Aviación (ainda com a marca soviética pintada na fuselagem) a aeromoça oferece, em lugar dos tradicionais jornais diários, um suplemento de 64 páginas sobre a vida do guerrilheiro Camilo Cienfuegos, um dos combatentes da Sierra Maestra, morto em 1960. Estou a caminho de Cuba.” (p. 47).

: : FICHA TÉCNICA : :
A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro
Fernando Morais
Companhia das Letras
30a. edição, 2001
231 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

5 Comentários

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  3. Não consigo entender essa adoração à Cuba. Ainda mais nos dia de hoje, com a informação sendo divulgada aos quatro cantos do planeta em segundos, ter gentes dispostas a referendarem algo caótico, deprimente e sem futuro algum. Só se justifica, a adoração, se for por algumas moedas, aí até entende-se caso contrário,,,

  4. Toninho Métta em

    A única esperança p/ quem ainda acredita no sonho, é saber que a quarta internacional está viva !

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