A língua de Ipásias – Daniel Baz

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De novo. De novo. De novo preciso lhes dizer o óbvio. Quando Ipásias perdeu a primeira noite de sono com sua pesquisa, eu estava lá. Vi quando todos riram depois que ela revelou que criara uma língua com altura, largura, profundidade, peso, e talvez aroma, e talvez sabor. Eu fui a única que assisti às primeiras pedradas em sua janela, ao cão assassinado no pátio, à bosta na frente da porta e diziam cadela e diziam bruxa e diziam mais. Tenho certeza de que todo esse circo foi fundamental para que ela escondesse seus originais e, quando vocês chegaram aqui, ela já havia sumido há pelo menos um mês. De novo, de novo preciso lhes dizer que Ipásias começou por fonemas descobertos ao acaso, em um cavalo moribundo que tenta, num último esforço, lembrar o cheiro de seus filhos, no ranger dos dentes do cão faminto que, distraído, engole um mosquito, na criança estrangulada que sorri ao ver o verde da pastilha na boca do agressor, na árvore que não cai, mas também nunca vacila.

Ipásias descobriu, depois de anos de pesquisa, que, quando Sherazade lambeu, finalmente, o pênis do sultão, ele usou este idioma. Quando um borguinhão, de barba por fazer, atingiu o rosto de Joana d’Arc, chamando-a de desvairada, ela gemeu nesta língua. Quando Lucrécia Bórgia viu o corpo de Afonso de Bisceglie, depois de ser apunhalado por seu irmão, rastejar diante de seus aposentos, ela usou este complexo sistema de fonemas para acender a fúria e a cobiça que justificam os reinados e os enforcamentos.

De novo e novamente, é preciso lembrar que Ipásias fraturou os joelhos e teve as costelas partidas pela enunciação de frases simples. Teve cegueira temporária e despejou meia dúzia de natimortos nos baldes de seu quarto tentando conjugar os verbos principais da nova língua. Isso fez com que seu trabalho fosse ficando cada vez mais demorado e quase sempre inacabado. Até que, sem qualquer razão aparente, desistiu. Assim viveu entre nós seus últimos anos, muda, rota, pálida, inconfessa.

A razão de seu sumiço é um mistério. Após delimitar o complexo alfabeto e testar os primeiros sintagmas, percebeu que a nova língua, por ter tudo, não precisava referir-se a nada. Melhor dizendo, uma vez criada, não era mais necessário dizer nada. Tudo se resumia então à repetição estéril de sua criação e das condições de seu nascimento. Depois dessa descoberta, juro que nunca mais vi Ipásias. Por que me olham assim? Há mesmo a necessidade de me prender neste cômodo indescritível e anotar com desconfiança tudo o que digo? Juro que nunca mais a vi, ainda que ouça sua voz por estes aposentos frios com uma desconcertante nitidez, como se essas paredes, que agora me parecem tão recentes, fossem o hino exato de suas ambições.

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Sobre o autor

Nasceu em Rio Grande-RS, em 1985. É professor formado em Letras. Publicou o livro de poemas "Antes que o mundo aconteça" (2016) pela editora Concha. Escreve crônicas semanalmente para o Jornal Agora, de Rio Grande.

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