aDeus – Miró da Muribeca

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PRÓLOGO

Autor: Miró nasceu no Recife-PE, em 1960. O poeta é um dos expoentes da vertente conhecida na cidade por poesia marginal, pelo fato de trabalharem temas urbanos, de maneira provocativa, numa perspectiva periférica e de ter o trabalho caracterizado pela ligação da palavra à performance. Miró já publicou outros 11 plaquetes, que foram reunidos no volume Miró até agora (2013).

Livro: O volume reúne 32 poemas inéditos de Miró selecionados, dentro de um universo de cerca de 150, pelo editor Wellington de Melo. Os poemas foram escritos antes da internação do poeta no Hospital Oswaldo Cruz, em junho de 2015. A edição é artesanal, feita dentro dos preceitos do movimento cartonero, que utiliza papelão como capa. Cada exemplar tem uma capa customizada.

Tema e enredo: Neste volume, a poesia de Miró surge mais metafísica. Seus versos falam sobre deus, morte e solidão. Neste ponto, o poeta toca no processo de desapropriações na Muribeca.

Forma: Versos curtos e diretos. Imagens do cotidiano servem de impulso para as reflexões do poeta. Desta vez, o humor característico da poesia de Miró não aparece para fazer graça, como um chiste. Ele se apresenta mais irônico, mais ácido, para provocar a crítica.

CRÍTICA

A metamorfose de Miró

Em junho de 2015, os jornais do Recife noticiaram que o poeta Miró estava internado no Hospital Oswaldo Cruz. Pelo que foi divulgado na época, a internação era o resultado de uma vida alimentada por álcool e solidão. No início de agosto, Miró voltava ao noticiário, desta vez por conta do lançamento do seu 12º título inédito, o primeiro a ser publicado após a coletânea Miró até agora (2013), que reuniu todas as plaquetes anteriores do poeta. Com o livro aDeus, o poeta da Muribeca se despedia – não da vida, como sugeria o desenlace da trama– mas do passado destrutivo que o levou à internação.

O adeus, na verdade, significava renascimento. Que, ao menos na literatura, realiza-se na forma de uma poesia pujante, apresentada na edição caprichosa da Mariposa Cartonera. É bom deixar claro: não estou nem me referindo ao projeto cartonero, de edições artesanais e capas personalizadas. Mas, sobretudo, ao trabalho de edição com o texto, zelo com a revisão e a criteriosa seleção promovida por Wellington de Melo, ao selecionar os 32 poemas inéditos – entre cerca de 150 já escritos por Miró – que compõem aDeus.

Um cuidado ainda mais perceptível por se tratar de um poeta imediatista como Miró, que já chegou a reconhecer seus livros como souvenirs das performances. O tratamento editorial digno recebido por aDeus eleva a obra de Miró a novo patamar. Pela primeira vez, o poeta da Muribeca publica um livro que se resolve pelo texto e não nos deixa sentir falta de suas performances arrebatadoras. Desta vez, os versos falam por si. Resultado tanto da maturidade alcançada pelo autor, como do trabalho de edição, que tem o mérito de pensar o livro com a visão de conjunto e não como depósito sortido de poemas.

Ao filtrar as impurezas e organizá-los no volume, o título ganha um eixo, concentrando o foco nos versos que talvez possam traduzir o momento de transição vivido pelo poeta. Assim, não só os versos, mas os poemas e as páginas se comunicam entre si, criando uma sequência narrativa, uma unidade temática que confere potência ao discurso e reafirma o valor da obra (mesmo quando a sua qualidade oscila, como nos casos do desconexo poema da página 28 e do didático Manifesto alegrista).

Em aDeus, Miró passa a pensar mais em termos ontológicos, transita por reflexões metafísicas sobre deus, morte e solidão, num combinado que resvala em questionamentos sobre a sua própria existência. Os pormenores do cotidiano não servem mais como pretextos para a contação de causos, eles agora revelam a grandeza de um poeta em sua rotina, impotente diante do mundo, mas ao mesmo tempo ciente do poder das palavras e do seu compromisso em discutir questões universais.

O que, naturalmente, repercute no tom mais equilibrado do livro. Ainda que o humor esteja presente, aDeus é mais sério do que o habitual na obra de Miró. Aqui, o humor não aparece no intuito de fazer graça à plateia, como um chiste (a exceção é o poema sem título da página 21). Ele se apresenta mais irônico, mais ácido, para provocar a crítica, a reflexão, como no poema Paradoxo.

Quando o viés cronista de Miró aparece, é para sublimar o dia a dia em poesia, resgatando a importância de miudezas que nos passam despercebidas, camufladas pelo desgaste da rotina. Plantas nascidas entre prédios (p. 15) e o céu azul num dia que promete ser cinzento (p. 34) se transformam em sinais de esperança, folhas caídas do calendário motivam arrependimentos (p. 23), um banco de praça contrapõe o frenesi das obrigações diárias (p. 20) e as desapropriações no bairro de Muribeca – que antes nutriria o leitmotiv da denúncia dos abusos e da desigualdade social na visão de um preto, pobre, poeta e periférico – agora desvelam os efeitos desumanos da especulação imobiliária através da perspectiva de impotência e angústia de um homem sob o efeito corrosivo da solidão. Para nossa sorte, o enclausuramento de Miró terminou, revelando os efeitos poéticos da sua metamorfose.

Lido em setembro de 2015
Escrito em 22.09.2015


Relação com o escritor: Boa. Após entrevista que fiz com Miró em 2010 para o Diario de Pernambuco, por conta do lançamento de Quase crônico; criamos uma boa relação, de encontros e conversas nos eventos literários da cidade.

FICHA TÉCNICA

aDeus
Miró
Mariposa Cartonera
1ª edição, 2015
44 páginas

TRECHO

“as pessoas estão passando
para mais uma segunda-feira

eu sentado no banco da praça
ainda sou domingo” (p. 20)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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