Amar é crime – Marcelino Freire

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Marcelino Freire nasceu na cidade de Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. É um dos principais nomes da geração consolidada através das antologias da Geração 90. Entre seus livros, se destacam Angu de Sangue (2000) e Contos Negreiros (2005), pelo qual venceu o Prêmio Jabuti de contos.

Livro: Amar é Crime é o sexto livro de contos de Marcelino Freire. Depois de publicar Contos Negreiros (2005) e Rasif: Mar que Arrebenta (2008) pela editora Record, Marcelino lançou a obra em 2010 através da Edith, editora independente que ele ajudou a criar.

Tema e Enredo: Os contos falam sobre pessoas à margem, vozes que geralmente não possuem força ou representatividade política. O autor observa personagens que enfrentam morte, dor, partida; perda e desespero como recorrências simbólicas.

Forma: Marcelino aprofunda um estilo que trabalhou em livros anteriores: uma prosa ritmada, conectando palavras através de sons e sentidos; lembra expressões populares como cantorias, repentes, cordéis, a oralidade do cotidiano, mas não obedece a uma filiação rígida.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

O som, a fúria e o amor

A primeira leitura de um texto de Marcelino Freire costuma chacoalhar pela maneira como parece um tipo excêntrico de criação literária; lembra expressões populares, como cantorias, repentes, cordéis, mas não obedece a uma filiação rígida. Talvez essa sensação de descobrir uma voz que pulsa a cada página, uma ficção feita de emoção, sangue e clamor, seja melhor apresentada em Amar é crime, coletânea de contos em que o autor parece amadurecer sua escritura e, como o título sugere, endurecer sua visão de amor.

Nos enredos, frequentemente curtos e empacotados de maneira que o drama seja intensamente breve, Marcelino parece preferir personagens à margem, vozes que geralmente não possuem força ou representatividade política; combatem crises, pessoais ou coletivas, com a raiva adquirida por derrotas constantes. A construção dramática parece urgente, como palpitações em instantes decisivos. O autor observa personagens que enfrentam morte, dor, partida; perda e desespero como recorrências simbólicas.

Marcelino mantém neste livro o estilo que o destacou na literatura nacional, uma prosa ritmada, conectando palavras através de sons e sentidos; uma autoria associada à reprodução literária da oralidade do cotidiano. Parecem heranças de cânticos, performances, testemunhos bravos. O perigo parece ser a reincidência de um estilo reconhecível, a repetição de certos maneirismos a ponto do esgotamento, transformando em rotina o que poderia ser uma força criativa única.

O livro foi publicado pela Edith, editora que Marcelino ajudou a compor – inicialmente como espaço para alunos de suas oficinas, pessoas próximas com estilo ou vozes particularmente marcantes. Depois de Contos negreiros e Rasif, lançados pela editora Record, uma das mais fortes no mercado nacional, a divulgação numa editora com perfil artesanal parece intensificar aspectos de liberdade e pesquisa autoral, uma escrita autônoma e um tanto experimental.

O primeiro conto do livro meio que ambienta essa preferência pelo que há de rústico, bruto, político e ainda assim poético nas narrativas do cotidiano. Em Vestido longo, Marcelino cria uma personagem que explica sua miséria particular, indica a reincidência de agressões físicas e verbais por causa de sua cor e classe social, sugere possíveis fins para gente que começa sem nada. O autor materializa dramas existenciais, conflitos de classe, injustiças sociais na ambição por um vestido longo, suposto símbolo de posse e direitos.

O grande momento da prosa de Marcelino neste livro parece ser União civil. É um conto que sugere a natureza biográfica da escrita do autor, a maneira como um acontecimento pode acionar uma torrente de criação literária: a imagem como documento vivo da memória. Ao mesmo tempo em que compõe uma história sobre a gênese de um amor, Marcelino estabelece uma outra linha narrativa, que destaca procedimentos de sua criação através de um escritor em uma palestra – uma união que parece complicada de equilibrar, pela possibilidade latente do exagero, do drama e da artificialidade, mas que surge em perfeito domínio literário.

Parece ser essa a unidade entre as narrativas de Amar é crime: tratam de conexões que tendem perigosamente ao abuso dramático, ao esvaziamento pelo excesso (nas críticas, nos posicionamentos, nas imagens, nas falas, nas repetições), mas o autor, de forma lúcida e liricamente contagiante, assegura um sabor peculiar e intenso em cada pequena narrativa.

Lido em jun./jul. de 2014

Escrito em 16.07.2014

[author] [author_info]Hugo Viana

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Currículo: Jornalista, é o responsável pela cobertura de literatura no jornal Folha de Pernambuco.

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Amar é crime

Marcelino Freire

Edith

1a. edição, 2011

159 p.

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“A primeira pergunta foi de um jovem, de óculos. Por um segundo, ele ganhou a cara de João. Eu já havia me esquecido da cara de João. Como era mesmo a cara de João? Caralho! O tempo segue colando. O tempo tem um ritmo industrial. É uma grande fábrica, que não para. Cara, vê se se concentra no bate-papo. Você está em São João Del Rey para trabalhar. Acorda. E escrever um conto não é um trabalho? Estou escrevendo. Reescrevendo. Para não perder. A minha história, no esquecimento.

-Meu nome é Paulo e eu gostaria de saber quando foi que o senhor descobriu que queria ser escritor?”

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Adenize Franco, Rascunho, dezembro de 2011

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/sangue-derramado/).

“Utilizando temas atuais e situações violentas que foram midiatizadas e, por isso, facilmente reconhecíveis pelo leitor, assim como o reconhecimento dessas identidades perdidas em meio ao caos que impera na urbe contemporânea, Marcelino Freire consegue explorar a tragédia social brasileira a partir de uma linguagem que é incômoda e provocativa, permeada por cacoetes sonoros e ritmos fervorosos. Estas características, por um lado, singularizam a obra desse escritor contemporâneo que cada vez mais ganha visibilidade no cenário da literatura brasileira e, por outro, pluralizam as questões de cunho social. Esse novo crime do escritor estabelece um parâmetro entre o amor e a morte, residente nesse desejo tão estranho de se revigorar, após se matar.”

Fabio Victor, Folha de São Paulo, 14 de julho de 2011

(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1407201123.htm).

“Como nas obras anteriores, a tragédia social brasileira é a seiva da maioria das narrativas. O realismo urbano de Marcelino é hiper-realista e extravagante, causa propositalmente incômodo.”

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Do mesmo autor

Angu de sangue – Marcelino Freire

BaléRalé – Marcelino Freire

Contos Negreiros – Marcelino Freire

Rasif: mar que arrebenta – Marcelino Freire

Nossos ossos – Marcelino Freire

Entrevista

Entrevista de Marcelino Freire ao Vacatussa (julho de 2014)

Links relacionados

Blog do autor: Ossos do ofídio

Rádio: Entrevista de Marcelino Freire ao Café Colombo

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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  1. Pingback: Dossiê: Marcelino Freire - vacatussa

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