Antígona e o impeachment

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Acredito que a literatura pode nos ajudar bastante em uma discussão sobre valores, em especial políticos. As vidas de Antígona e de Creonte, tais como se apresentam na tragédia grega Antígona, de Sófocles, por exemplo, me ajudaram a entender melhor minhas próprias perspectivas a respeito do momento no qual vivemos. Pretendo, portanto, articular o debate de valores contido na peça com o nosso atual contexto político. Antes de mais nada, quero deixar claro que não associo Antígona a Dilma, nem Temer a Creonte. Nenhum dos dois possui a grandeza de um protagonista de tragédia grega. Se a vida política brasileira é um palco, não tenho dúvidas do quanto estamos mais próximos do gênero teatral conhecido como Farsa. Fui e continuo sendo contra o Impeachment e me junto ao coro “Fora Temer”. Apesar deste meu posicionamento, não tenho grandes apreços pelo governo Dilma, ou por sua pessoa em especial. Logo, Antígona e Creonte não representam neste ensaio nenhum político em particular. As duas personagens nos ajudam a entender muito mais a nós mesmos, do que as específicas bufonarias do Planalto.

O QUE QUEREM CREONTE E ANTÍGONA?

Infelizmente, não poderei aprofundar, na presente versão deste texto, a série de contextos que dizem respeito a como Antígona e Creonte chegam na situação de impasse na qual nós os encontramos no início da peça. Gostaria de lembrar apenas o básico a fim de seguirmos em frente: Antígona é filha de Édipo, que como recordamos casou com a própria mãe e assassinou o próprio pai. Embora não tenha culpa nestas duas escolhas, mesmo assim Édipo precisa ser punido e uma das punições consiste em seu afastamento do trono de Tebas. Isto cria um vácuo político que em parte motiva o confronto entre dois dos seus filhos, Polinices e Etéocles. É este último que é escolhido como rei de Tebas, o que provoca a revolta de Polinices e o leva a tentar, junto com um exército, invadir Tebas. No fim, os dois irmãos se matam no campo de batalha e Creonte assume o trono.

A peça se inicia com um impasse a respeito dos diferentes tratamentos dados por Creonte aos cadáveres de Polinices e Etéocles. No caso do último, ocorre um enterro com honras de herói. Ao rebelde Polinices, por outro lado, cabe a infâmia de permanecer insepulto. Não apenas Creonte proíbe o sepultamento nos arredores da cidade, o que segundo Martha Nussbaum e Trajano Vieira seria uma punição comum aos cadáveres dos traidores e ladrões de templos, mas proíbe, sob risco de recair a pena de morte sobre quem desobedecer, qualquer forma de enterro e rito fúnebre ao irmão de Antígona, não importando o quão longe seu cadáver estivesse da cidade. Trata-se de algo inaceitável aos olhos de Antígona e que choca os habitantes de Tebas. No começo da peça, Antígona lamenta que Polinices seja presa de abutres que “abocanham o tesouro dulcíssimo ao estômago!” (Todas as citações serão feitas a partir da tradução de Trajano Vieira). O questionamento de Antígona é bem resumido nesta fala, direcionada a Creonte: “[…] nem penso haver/em teu decreto força suficiente/para negar preceitos divos, ágrafos,/perenes, que não são de agora ou de ontem,/pois sempivivem. Quem nos assegura/sua origem? Não pretendo submeter-me/ao tribunal divino por temor/à petulância de um mortal”.

A decisão de Creonte segue ritos jurídicos adequados? Sim e as irmãs reconhecem que sua decisão é um documento jurídico, um decreto do rei. No entanto, muitas vezes nos escapa que ela é uma lei nova, que recrudesce uma lei anterior. Portanto, Creonte não é exatamente o representante de uma ordem jurídica isenta de questionamentos (cabe ao Rei promulgar um decreto em franca afronta aos costumes e aos deuses? O alcance da norma deveveria ser ex tunc ou ex nunc?), assim como Antígona não é a representante da pura afirmação individual perante os arbítrios do Estado, como muitos a interpretam. Creonte comete um erro político e pagará caro por isso, porque sua decisão autoritária afetará a própria ordem cósmica. A peça se chama Antígona, mas a grande trajetória trágica aqui é a de Creonte: se a heroína desde o início sabe do seu destino, é Creonte quem decairá – movido pela desmedida contida na decisão de profanar o cadáver de Polinices – de um estado de equilíbrio e fortuna até o infortúnio e a desgraça. Para complicar a sua situação, Antígona estava prometida ao seu filho, que se mata após sua noiva se suicidar. Morto o filho, é a vez de outro suicídio: o da esposa de Creonte. No fim da peça, arrependido, Creonte está sozinho. Sua família, aniquilada.

 ANTÍGONA E CREONTE BLOQUEARIAM VOCÊ NO FACEBOOK

No dia no qual ocorreu a divulgação dos telefonemas entre Lula e Dilma, recordo de subir a rua Itambé, no bairro de Higienópolis, onde dou aulas na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Era o início da noite. Panelas e gritos se ouviam por todos os lados, quase todos contrários ao governo Dilma e a Lula. Me chamou atenção, em lados opostos da rua, dois grupos de pessoas, cada um em seu apartamento, que se xingavam devido à divergência de opiniões. Nunca fomos esta cultura pluralista e amorosa que muitos de nós ainda acreditamos ser, mas a impressão é que há hoje em dia um clima mais acentuado de acirramento. Andamos intransigentes, com os nervos à flor da pele, absolutamente certos a respeito do Bem e do Mal. Tanto enfrentamento não é nosso, somente, pois notícias de outros países nos relatam comportamentos semelhantes, como temos acompanhado no caso da atual corrida presidencial nos EUA, ou do referendo a respeito da permanência ou não da Inglaterra na União Europeia.

Antígona e Creonte estão obcecados por suas próprias escolhas. Não há mais mediações possíveis em suas perspectivas de mundo. Não há nuances, ponderações. Ambos reagem de modo enérgico a quem os questiona. Além disso, apegada a apenas um dos irmãos mortos, Antígona se mostra indiferente aos apelos da irmã, ou ao amor do seu noivo. Para ela, a injustiça surgida da futura degradação do cadáver só pode ser respondida com mais destruição. No entanto, não está em jogo uma vingança contra Creonte, ou mesmo contra a cidade de Tebas. Antígona, como tantos de nós, responde à injustiça e à violência através da autoimolação: “Sabia que morreria, mesmo sem o anúncio;/o inverso me surpreenderia. O fim/precoce é um benefício a alguém que sobre/vive num ambiente sem escrúpulos”.

Surpreende, além do mais, a intransigência da personagem. “Se alguém julgar/insano o modo como agi, bem mais/insano que esta insana é quem me diz”, ela responde quando é interrogada por Creonte. O rei, por sua vez, radicalizou o próprio ponto de vista de maneira semelhante ao dela. Com uma diferença importante, no entanto. Onde Antígona demonstra uma aceitação da própria sina, Creonte, em contraponto, se revela iracundo, destemperado. Entregue ao luto, ela não consegue mais enxergar sentido e alegria na sua vida; Creonte, por outro lado, só pensa em seu próprio poder e na consolidação de sua autoridade. Antígona é puro sacrifício e resistência passiva; já o rei é pura violência e força ativa.

Ao ser contrariado por Antígona, por exemplo, Creonte se sai com frases como esta: “Queres amar? Pois ames nos baixios!/Mulher não mandará comigo vivo!”. Mais adiante, mudo aos pedidos de Ismene para que não cumpra a sentença capital, Creonte chama Antígona de “fêmea sórdida”, instantes depois de ter apelidado Ismene de “Víbora” que lhe “sugava o sangue na surdina”. Pior, no entanto, é o seu desrespeito ao adivinho Tirésias. “Soa à estupidez viver submisso à ideia fixa”, o sábio lhe aconselha, para depois lhe informar o quanto os deuses estão insatisfeitos com o seu decreto de deixar o cadáver insepulto e de executar Antígona. Creonte não aceita ser contrariado e o acusa de conspiração. Também o acusa de receber dinheiro a fim de proferir vatícios contra ele: “És um vate sagaz, mas sem escúpulos”. Qualquer forma de discordância às visões de mundo dos dois protagonistas é enxergada não apenas como um ataque pessoal, mas como uma tentativa de corrupção dos valores que ambos, Antígona e Creonte, consideram inquestionáveis e sagrados. Discordar dos seus valores é visto por ambos como uma grave ameaça aos fundamentos de seus mundos, ou melhor, aos fundamentos do Mundo tal como ele é. Desta maneira, o Coro da peça e as personagens Ismene e Tirésias desempenham o papel de revelar outras nuances ao mundo sem contrastes de Antígona e Creonte.

PETRALHAS & COXINHAS

Conversando semanas atrás com uma amiga que defende o Impeachment, ela me dizia o seguinte: mesmo que não tenha havido crime, Dilma deve cair em nome dos 11 milhões de desempregados do seu governo e da lama de corrupção na qual seu partido afundou. Como não ouvir, na sua voz legitimamente insatisfeita, uma perspectiva que de alguma maneira se relaciona com aquilo defendido por Antígona? De igual maneira, escuto Antígona na minha própria fala. Acredito que este processo do Impeachment, mesmo que o seu rito seja legal, mesmo que tenha ocorrido de fato crime de responsabilidade, é inadequado por causa de um conjunto de fatores que lhe retiram legitimidade. A solução mais adequada, a meu ver, seria a convocação de novas eleições. Muitas variáveis entram na minha escolha: a corrupção dos Eduardos Cunhas, o verdadeiro peso de uma pedalada fiscal (por que outros chefes do Executivo não têm recebido a mesma punição severa?); a postura antiética de um vice-presidente fazer campanha aberta contra a presidente eleita da sua chapa (se queria tanto ser presidente, por que não lutou por novas eleições?); as revelações trazidas pelos vazamentos de Sergio Machado; por fim, me parece que o Impeachment, do modo como está ocorrendo, parece muito mais com um recall, ou uma demissão gerencial. E tenho sinceras dúvidas se de fato amadurecemos nossa democracia seguindo por este caminho. De qualquer maneira, minha cara amiga e eu defendemos perspectivas políticas diferentes, mas convergimos nas mesmas estratégias argumentativas a fim de embasar nossos discursos: na atual discussão sobre os rumos políticos do Brasil, não há como deixar de levar em consideração uma série de variáveis cuja natureza não é exclusivamente jurídica.

Somos Creonte, por outro lado, quando gritamos: “Não vai ter Golpe!”. Ou seja, não vai haver uma suposta fratura nas leis maiores que regem a democracia no nosso país, mesmo se a manutenção de Dilma até 2018 for, também, um risco político e ético para a própria democracia que tanto prezamos. Escuto Creonte quando vejo os defensores do Impeachment acusando toda a esquerda defensora do mandato de Dilma de ser antidemocrática e de pregar a não observância das leis, o que é um grave equívoco de interpretação. Continuo a escutar Creonte, ainda, quando nós, que estamos à esquerda, reduzimos os protestos contra Dilma como algo apenas das “elites”; quantos outros não deslegitimaram os protestos contra Temer e o Impeachment afirmando que todos na rua vestindo camisa vermelha foram comprados por partidos, ou sindicatos?

Não podemos lidar com um momento político tão complexo movidos por uma radicalidade semelhante ao que encontramos em Antígona e Creonte. Precisamos levar em conta diferentes fatores, tanto jurídicos, quanto éticos e políticos, e fazer uma escolha. Conscientes, porém, de que é a nossa própria estrutura política que está afundando o país. Não devemos, é claro, ficar em cima do muro. Eu próprio fiz questão de afirmar neste texto qual escolha fiz. Mas, seja qual for nossa escolha, precisamos perceber o quanto nosso posicionamento não está livre de contradição e frustração. Sim, é provável que você tenha identificado um caminho perigoso aberto pelo meu texto, podendo ser assim resumido: “se tudo pode ser relativizado, então as leis, as normas, os ritos, nada valem? É isto que você defende?”. Não é o que Antígona defende, tampouco eu. Em momento algum a personagem se arvora a anular o próprio ordenamento jurídico contra o qual se posiciona, porque sua demanda é radicalmente pontual. Antígona não é uma revolucionária. Nem uma golpista. Foram benéficos os vazamentos daquelas conversas entre Lula e Dilma? Alguns dirão “tínhamos que saber daquilo”, mas agora o STF declarou ilegais parte daquele conteúdo… Quem de nós não comemorou o afastamento, pelo mesmo tribunal, de Eduardo Cunha da presidência da Câmara? Mas a constitucionalidade do bem intencionado ato do STF está longe de ser uma unanimidade. O súbito silêncio das panelas e das ruas em relação ao governo Temer tem me chamado atenção. Haveria algum parentesco com o “mas o PT não inventou a corrupção”, tantas vezes repetido por mim mesmo? Estamos em uma situação de crise muito perigosa, no qual será preciso usar todo o nosso discernimento a fim de escolher, em cada novo problema velho, quem deve ser nosso interlocutor privilegiado, se Antígona, se Creonte. Uma permanente insegurança jurídica, um prolongado sentimento de vivermos sob a sombra de uma autoridade de exceção, aí estão nomeados os nossos demônios políticos.

Precisamos estabelecer, na medida do possível, uma distância cética, quem sabe até mesmo irônica, em relação às escolhas políticas que neste momento somos levados a defender. O exercício da dúvida é algo que podemos aprender com a Antígona. Em relação às paixões políticas, deixemos, portanto, que Antígona e Creonte vivam os nossos potenciais excessos emocionais. Seres sobrevivendo puramente através das palavras, cabe-lhes viver um ciclo perpétuo de vingança e sentimentos dilacerantes; ambos estão contemplando o abismo porque, desta maneira, não precisaremos fazer o mesmo. Em um dos últimos versos da peça, Sófocles recomenda, mediante a voz do Coro, isto: “A vida é grata se a ponderação/Prepondera”. Fazendo a última ponte com o nosso presente, eu diria o quanto uma minoria torce para que a reflexão política de todos nós esteja ausente. A pessoas assim cabe o nosso maior repúdio e desconfiança, bem como a certeza de que a literatura é um ótimo antídoto.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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