Os autores no centro do espetáculo

0

Enfileirado na estante, a lombada roxa com o título Os anjos de Badaró em amarelo e o nome do autor Mario Prata na cor branca não se diferencia em nada às outras brochuras ao seu lado. Aberto, o interior da obra também não denuncia qualquer distinção dos outros volumes, apresenta o mesmo odor de cola que se convencionou chamar como “cheiro de livro”, páginas com folhas de papel branco impressas com fileiras de palavras na cor preta e os prolongamentos da capa que, dobradas para dentro, assumem a função de orelhas.

Apesar de todas as semelhanças, a contracapa da nova edição de Os anjos de Badaró (que reaparece este ano nas prateleiras através da editora Planeta) revela que a obra representa um significativo ponto de transição na história do suporte livro, acrescentando à literatura brasileira um capítulo que mexe em questionamentos teóricos essenciais para a arte literária e provoca reflexões sobre o futuro nesses tempos incertos de premonições sobre o fim do livro impresso. Afinal, a narrativa foi escrita por inteiro na internet. Ao longo de seis meses, do dia 24 de maio de 2000 em diante, foi possível acessar o site e encontrar Mario Prata, lá da sua casa, escrevendo, fazendo com que milhares de leitores, de diversas partes do mundo, acompanhassem ao vivo a gênese – “letra a letra, palavra a palavra, corte a corte, morte a morte” – de Os anjos de Badaró.

Publicado em papel apenas uma semana depois do autor ter digitado o ponto final sob os olhares atentos dos leitores, o romance traz a investigação empreendida pelo jornalista Alcides Capella sobre o misterioso suicídio do amigo de infância Ozanan Badaró, um milionário dono de uma rede de prostituição de luxo que envolvia até consórcio para programas com jovens universitárias. “A editora foi fazendo o livro enquanto eu escrevia. Demorei uma semana escrevendo o capítulo final para dar tempo do livro ficar pronto. Tinha até tamanho definido para encaixar direitinho”, lembra Mario Prata.

A história conta com um ponto de partida antigo, já usado de maneira tímida pelo autor na primeira versão de James Lins, 51: o playboy que não deu certo (1994). Esse mesmo mote reaparece numa das crônicas de Minhas mulheres e meus homens (1999), onde Prata revela a origem da sua inspiração, escrevendo sobre um amigo de infância chamado Badaró, que se torna degustador de puta. Aquilo que seria mais um romance tradicional, com publicação já acertada pela Objetiva, ganhou outro rumo quando a cunhada de Prata lhe pediu para vê-lo enquanto escrevia. Curiosidade que – somada ao interesse dos leitores por seu processo criativo, às possibilidades de um novo veículo de comunicação e às promessas de grandes negócios das empresas pontocom – logo empurrou o projeto de Os anjos de Badaró para o ambiente on-line.

METALINGUAGEM

Outro fator que contribuiu para a migração foi a ideia já prevista pelo autor de desenvolver a investigação de Capella através de textos salvos em disquetes por Badaró. Ainda que não fosse pensada especificamente para a web, ao deslocar a narrativa para o meio virtual, essas informações sugerem novos significados, transforma-se em metalinguagem, ganham o peso de uma autorreflexão de alguém que procura se conhecer, ambientar-se e chamar atenção para o terreno em que pisa.

Algo que acontece em relação à facilidade de edição nos arquivos digitais (que, ao contrário de um palimpsesto ou do papel, não deixam marcas na reescritura), quando as personagens dona Blanche e Cláudia (sogra e esposa de Capella, respectivamente) observam pela função propriedades que os documentos dos disquetes foram manipulados após a morte do Badaró. Se no livro impresso isso funciona como recurso narrativo para desmascarar as atitudes suspeitas de Naretta (viúva de Badaró), no ambiente digital essas passagens ganham o significado de uma reflexão do autor sobre seu próprio processo de criação, que envolve revisões e modificações diárias dos textos escritos on-line.

O mesmo acontece quando Capella estranha a desenvoltura da sogra na informática, colocando em discussão a possibilidade de anonimato da internet, através das salas de bate-papo virtuais: “Me disseram que tem lá um troço chamado chat que é pra isso mesmo. Para uma velhinha, como este exemplar que tenho aqui na minha frente, mentir que tem 20 anos, o peito da Feiticeira e a bundinha da Tiazinha”. Mais uma vez, o autor traz para a obra um hábito que fez parte do seu cotidiano durante os seis meses de escrita, fazendo alusões aos bate-papos abertos pelos internautas que acompanhavam Os anjos de Badaró.

“Eles começaram a bater-papo todo dia num chat. Aí entrei e vi que eles estavam falando de mim, claro, tudo fã. Achei ótimo aquilo, entrei com meu nome e falei ‘oi, pessoal, tô aqui’. Só que ninguém se manifestou, nada, silêncio. Aí chamei uma menina pro reservado e ela disse que eu era o quinto Mario Prata que entrava ali”, diverte-se o autor, que precisou passar por uma bateria de testes para comprovar a identidade. Em outras cenas, o autor aponta para as praticidades permitidas pela rede, como pegar o resultado de um exame de sangue, a rapidez dos sistemas de busca e o volume de informações contidas na internet.

Nesses pontos, o livro apresenta seu valor documental ao registrar as reações geradas durante o período de transição de uma cultura analógica/material para a eletrônica/virtual. Para tanto, o autor se vale do personagem Capella, um jornalista policial com 63 anos de idade e 40 de profissão, alheio à informatização do mundo. Na redação, ele resiste com sua velha máquina de escrever Remington, nega-se a ter aulas de informática e vê seu salário desvalorizado em comparação com o do responsável pelos computadores do jornal. Mas quando o amigo morre e deixa pistas espalhadas em disquetes, ele se vê obrigado a comprar um computador para desvendar o mistério que envolve o suicídio e finalmente escrever uma reportagem relevante capaz de lhe render o tão desejado Prêmio Esso.

A reação da sua esposa Cláudia é sintomática para mostrar a ruptura provocada pela informatização: “Computador? Computador! E você acha, Alcides, que, com a sua idade, você vai conseguir aprender a mexer naquele negócio? Nessa idade?”. O estranhamento causado pela informática se estende à linguagem que a cerca, com seus termos específicos e estrangeirismos, virando motivo de piada no livro quando os personagens se deparam com as palavras delete, inicializar, power, ícone, megas e arroba: “É mega pra caralho, Gatão. E no que consiste um mega? Quantas arrobas tem um mega?”. O espanto dos personagens é reflexo de um período de mudança, em que a informática começava a se popularizar no Brasil e a internet só fora liberada no país há cinco anos, com os infortúnios da conexão discada e a ilusão de sucesso fácil, com a supervalorização especulativa das empresas pontocom. Esse boom é representado na obra através da expansão para a internet da rede de prostituição de Badaró, através do site Os Anjos de Badaró, que após sua morte estava avaliado em 2 milhões de dólares.

 A própria experiência de Os anjos de Badaró é uma aposta desse momento de otimismo. Para implementar a ideia, foi preciso o investimento da produtora TV1.com e o patrocínio do portal Terra, já que a empreitada exigiu o desenvolvimento de um software específico, a montagem de uma parafernália tecnológica na casa do autor e o envolvimento de uma equipe com outras oito pessoas (três para auxiliar o autor, três da produtora TV1.com e outros dois do portal Terra).

EVENTO

Embora dê conta da narrativa, a versão impressa serve apenas como um souvenir daquilo que foi a experiência on-line, a exemplo de como funcionam os catálogos para as exposições. Ao contrário de Tabajara Ruas e João Ubaldo Ribeiro, autores já renomados que também se aventuraram pela rede; o mérito de Mario Prata foi pensar a web como suporte diferenciado do papel, explorando suas características e não apenas como meio de distribuição do livro. Além da obra, o site possuía seções extra que possibilitavam entretenimento aos internautas, como enquete, horóscopo feito pelo próprio Mario Prata e fichas das garotas de programa que trabalhavam para o Badaró, criadas, sob orientação do autor, por seu filho, o também escritor Antonio Prata. Apenas duas dessas fichas, de um universo de cerca de vinte, foram preservadas no livro impresso. Ao longo do processo, também foi criada a rádio on-line Os anjos de Prata, onde, a exemplo das novelas, cada personagem tinha sua música.

Mas o grande diferencial de Os anjos de Badaró está na estratégia de usar o potencial da internet para dar à literatura um viés de evento. O teórico da cibercultura Pierre Lévy lembra que, diante do gigantesco fluxo de informações que renova a rede a cada instante, uma das alternativas das artes virtuais é justamente adotar a lógica de evento. Ou seja, chamar atenção e marcar território antes de serem engolidas por outras novidades e manias da rede. Barulho que o site fez com festa de lançamento e show de ninguém menos que a cantora Ivete Sangalo. Uma abertura simbólica para o projeto que viria a se destacar justamente pela mudança na postura dos escritores, trabalhando a escrita como uma forma de performance, quebrando a imagem da criação como algo divino para reforçar a noção de processo, de alcance progressivo ao invés de presente das musas.

A presença diária no site de um escritor já conhecido do público como Mario Prata e as atualizações constantes contribuíram para o sucesso da empreitada, fazendo com que o site ultrapassasse a marca de 400 mil visitantes espalhados geograficamente em mais de 50 países. Números que impressionam ao recordamos que a experiência foi escrita na língua portuguesa e ocorreu no ano 2000, quando o acesso à banda larga no Brasil chegava a apenas 121 mil usuários (em 2011, esse número é de 18,4 milhões) e pesquisas indicam que em maio de 2001, o número de internautas no país era de 10,4 milhões.

Apesar da experiência ser pouco lembrada nos dias de hoje, na época o projeto despertou grande curiosidade. O ineditismo da experiência atraiu a atenção da mídia, rendendo ao autor repercussões na imprensa nacional, francesa, italiana e espanhola. De maneira geral, já naquela época, as matérias traziam em comum a curiosidade sobre o projeto (relatando o modus operandi da empreitada), a possibilidade de troca de informação com os leitores e para a mudança do perfil do escritor, que até então era retratado no imaginário como uma pessoa reclusa no seu ato de criação e, de repente, coloca-se como o centro das atenções, estrelando um reality show próprio durante seu processo de criação. Isso, vale lembrar, antes mesmo de entrar no ar o programa No Limite (considerado o primeiro reality show da televisão brasileira, cuja estreia se deu em 23 de julho de 2000) e do fenômeno dos blogs, ferramenta de publicação virtual que deu novo fôlego às escritas pessoais (o blog brasileira!preta, de Clara Averbuck, só surgiria no ano seguinte).

Por exigência do portal Terra, que patrocinou e hospedou o site, uma webcam foi instalada para que os internautas, além de acompanhar o texto, também pudessem ver o autor durante o ato de escrita. “Eu tinha que ficar no ar por conta do contrato. Um dia, quando não estava com saco para escrever, disse que ia mostrar minha carteira e comecei a dizer o que tinha nela. Descobri coisas inacreditáveis que eu guardava ali e daí surgiu a ideia do Minhas tudo (livro que reúne crônicas sobre objetos pessoais do autor publicado em 2001). Tinha dias em que eu perguntava, vocês querem o livro ou Minhas tudo?”, lembra Mario Prata.

A experiência seguia os ventos soprados por Andy Warhol, servindo de prenúncio para os rumos que a literatura iria tomar neste início de século XXI. A professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paula Sibilia aponta no livro O show do eu que uma das características da literatura contemporânea é a inversão do grau de importância entre a obra e o autor. De acordo com ela, a obra passa para o segundo plano, enquanto o autor sobe ao palco para receber os flashes e falar da sua vida, transformando livros em ornamentos e suas personalidades em “obra”. Um cenário que tem se confirmado com a profusão de eventos como a Festa Literária Internacional de Paraty –Flip (criada em 2004), o interesse das editoras em pegar carona na fama de cantores e subcelebridades (Adriana Calcanhoto, Lirinha, padre Marcelo Rossi, Gabriel, o pensador, Bruna Surfistinha, Jean Willys) para vender livros, o peso de escritores bons de palco como Marcelino Freire e Fabrício Carpinejar e o aparecimento de casos curiosos como Barbú, escritor argentino que, acompanhado de uma fotógrafa, fantasia-se de macaco para divulgar seus livros pelas ruas de Buenos Aires sob o slogan: o primeiro gorila escritor.

Reportagem originalmente escritaa e publicada na Revista Continente, em 2012

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

Comente!