Ave, deuses políades – Aline Arroxelas

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Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se
no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem
se conhecer, incomunic
áveis entre si. Às vezes os nomes
dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes,
e at
é mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que
vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar
e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos.

(Ítalo Calvino, Cidades Invisíveis)

 

No fim do século XIX, na ilhota de Hashima, Japão, foi erguida uma cidade para extração de carvão submarino. Mais de cinco mil almas estabeleceram moradia naquele pedaço de terra no meio do mar, com pouco mais de seis hectares, alguns em busca de uma vida melhor, outros porque foram forçados a tanto. Na década de 70, a ilha ficou completamente vazia, abandonada junto com as minas. As ruínas estão entregues ao vento e à maresia inclementes.

Mais ou menos nessa época, foi fundada uma das cidades nucleares da União Soviética: Pripyat, Ucrânia, anexa à usina nuclear de Chernobyl. Em seu auge, tinha quase cinquenta mil habitantes. Em 1986, com o colapso da usina e a nuvem radioativa, foi desocupada. Fotos clássicas mostram a roda-gigante e o hotel desertos, legando-nos uma bela urbe arborizada.

Dois anos depois, em Pernambuco, Brasil, a antiga cidade de Petrolândia – que recebera em 1877 a visita do Imperador Dom Pedro II – foi inundada para a construção de um lago e funcionamento de uma usina hidroelétrica. A população foi transferida para a área onde hoje está a atual cidade de mesmo nome. No fundo do lago, atual destino para mergulhadores, jazem os escombros dos edifícios submersos, incluindo duas igrejas e uma fábrica de doces. Parece que ainda procuram a estação ferroviária construída sob as ordens do Imperador.

Pompeia, atingida pela lava do Vesúvio em 79 d.C. Fordlândia, comprada no frenesi do latex em 1927. Oradour-sur-Glace, cuja população foi dizimada na Segunda Guerra. Pyramiden, esvaziada durante o colapso do sistema soviético na década de 90. Belchite, destruída em batalha de Guerra Civil, em 1937. A lista é grande e ainda crescente.

NARRADOR:

– Amamos algumas poucas cidades ao longo da vida. Outras odiamos. E em algumas cidades juramos mesmo nunca mais por os pés. Há cidades, assim, onde chegamos para sair; de outras, saímos para encontrar o que quer que seja.

CORO:

– Nenhuma cidade existe sozinha, porque é produto do trabalho e da racionalidade dos homens. Enquanto que o ambiente natural não carece de explicações – a árvore e o rio são o que são e não se justificam – o construído tem existência porque o homem brinca de Deus e quer fabricar seu próprio meio. Para expandir, para trocar, para celebrar a própria grandeza (às vezes fingindo enaltecer o próprio Deus).

NARRADOR:

– Quando a cidade é dissociada da humanidade que a gerou – permanecendo apenas os esqueletos das construções de pedra, metal, e escritos incompreensíveis – diz-se que se tornou uma cidade-fantasma, isto é, um lugar parado entre a vida e a morte. Mas é claro que uma cidade naturalmente vive e morre, até mesmo as grandes metrópolis, e toda ela é, em parte, um cemitério. Nascem de rescaldos antigos, em tempos mal lembrados. Surgem de um amontoado de gente e circunstâncias nem sempre benfazejas, e sobrevivem numa sucessão de renovações.

CORO:

– Porque numa cidade tudo morre: toda a gente, por óbvio, mas também os lugares, as funções dos lugares, os nomes dos lugares, e, por fim, a própria lembrança dos lugares. Para se conhecer essas cidades que já foram – e que sobrevivem dentro da cidade que é – ou se procura fundo em suas entranhas, ou se confia nas lembranças dos mais antigos. Escavar, perguntar. Pesquisar, ouvir. Preservar, narrar.

NARRADOR:

– Uma amiga lembra que tinha seis anos quando veio morar na cidade, trazida pelos pais que se separavam. Conta que chovia. Quando cheguei aqui, não havia senão casas nessa praça; disso me lembro bem. O moço do sertão chega e sente que o mundo todo começa ali, no destino do ônibus calorento. Minha avó pegava um trem na zona da mata e desembarcava no centro, e até hoje quando conta essa história balança o corpo para marcar o ritmo da viagem, xec xec xec: “que delícia era viajar de trem”. No lugar onde hoje floresce um lucrativo hipermercado, era um hospital psiquiátrico onde pacientes gritavam atrás de grades para toda a eternidade. Eu vi.

DIVINDADE:

– A tudo isso os deuses desta terra respondem: Pois morra, pólis herética. Definhe, acabe-se em ruínas. Primeiro, substitua-se até se tornar irreconhecível; serás feia e maltratada a nossos olhos. Depois, na lama debaixo dos prédios suntuosos, nos esgotos deficientes, nas encostas podres de teus rios e no pó que cimenta os buracos das estradas tu sobreviverás. Alguém há de lembrar que ali havia uma praça, um hospital, um cais. Não os mortais, eternos viajantes de passagem, mas os que virão depois, vivendo em outra cidade coincidente, sairão em tua busca, como exploradores do próprio umbigo. Fatalmente, em um ou outro momento, a cidade antiga reassomará, sobrepondo-se em carcaças secas – uma cidade por cima da outra – como um monstro descrito em língua morta, até ser refundada, reiniciada, sem história e sem fotografias.

Na cidade inundada de Potosí, Venezuela, por vinte e cinco anos só foi possível ver, saindo das águas como um sinal daquela Atlântida, a cruz no topo da torre da igreja. Hoje, a estiagem revela não só a igreja como também seu cemitério, completamente emersos por sobre a terra seca. Renasceram para não serem esquecidos. Mas serão.

Aline Arroxelas nasceu em Recife-PE, em 1979. Graduada em Direito pela UFPE, é membro do coletivo Vacatussa desde 2005, tendo publicado contos em edições anteriores da revista.

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