B de bruxa – Micheliny Verunschk

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PRÓLOGO

Autora: Micheliny Verunschk nasceu em Recife-PE, 1972. É autora dos livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme, 2010), b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP.

Livro: Conjunto de 28 poemas que foi primeiramente publicado em dezembro de 2013 na revista Mallarmargens. A edição da Mariposa Cartonera é artesanal, com capas feitas com papelão e pintadas a mão pelo poeta Wellington de Melo.

Tema e Enredo: Micheliny Verunschk faz uma releitura da figura mítica da bruxa, explorando o seu potencial feminista.

Forma: Em geral, o livro é composto por poemas curtos onde a autora utiliza o recurso da fantasia para discutir a estrutura de poder de uma sociedade machista.

CRÍTICA

A bruxa é uma figura que compõe o folclore europeu cuja origem remete às curandeiras que atuavam entre os séculos XV e XVIII e terminaram sendo perseguidas e executadas durante a Inquisição. Numa série de 28 poemas que agora estão reunidos no volume B de bruxa [bonnus bonnificarum], a escritora Micheliny Verunschk faz uma releitura dessa figura mítica, explorando o seu potencial feminista. Em vez de vilãs, velhas enrugadas e invejosas; as bruxas dos poemas se revelam como mulheres independentes, donas de suas vontades e prazeres, em situações que variam entre ritual erótico e desejo gastronômico.

No prato principal estão os homens, iguarias apreciadas até chupar os ossos. Quase todos os poemas são construídos em cima desse referente, transparecendo o domínio das mulheres sobre os homens. Elas são as predadoras e eles são suas presas. Nesse jogo, apesar do recurso da fantasia que envolve a figura das bruxas, os versos de Micheliny Verunschk terminam servindo de alegoria à estrutura de poder de uma sociedade machista, que encara a não-submissão das mulheres como algo a ser temido (como demonstra o poema V) e mesmo combatido, conforme nos diz a presença do termo “puta” nos poemas V, XXI e XXVII.

Embora o teor ideológico seja forte, o discurso não chega a atingir o nível panfletário. Tanto por ser atenuado pelo tom sádico e até cômico dos versos, quando a autora constrói boas imagens de bruxas canibais, em situações que sugerem a satisfação sexual; como por investir no poder do amor na sequência final, revelando que mesmo as bruxas são suscetíveis aos encantamentos da sedução (XXIII, XXIV, XXV, XXVI). Ao concentrar os poemas mais sentimentais na parte final do livro, a autora parece afirmar que as disputas entre os sexos podem ser desarmadas diante do amor.

Uma transição sugestiva, mas que não chega a dar a sacolejada necessária na leitura capaz de atenuar as limitações de Micheliny Verusnchk diante do mesmo tema. Ao dar exclusividade à figura da bruxa e ao ideal feminista, o conjunto de poemas perde em termos de variação, caindo em repetições de recursos, a exemplo das seguidas receitas para temperar homens ou do abuso de diálogos entre irmãs, o que termina por conceder um certo cansaço à leitura.

Lido em novembro de 2014
Escrito em 22.11.2014


 

Relação com o escritor: Conheci Micheliny Verunschk numa viagem à Garanhuns, quando tive a oportunidade de mediar uma mesa com ela e o poeta Fabiano Calixto num evento do Sesc, em 2013. Desde então, mantemos contato por conta de eventos e projetos como a Revista Vacatussa, que contou com a colaboração da autora no número 8.

 

FICHA TÉCNICA

B de Bruxa [bônus bonnificarum]
Micheliny Verunschk
Editora: Mariposa Cartonera
2ª edição, 2014
41 páginas

TRECHO

“ah, esse homem dá uma sopa.

irmã, primeiro tira-lhe a roupa.

ah, esse homem dá um caldo.

irmã, vê se já não está passado.

ah, esse homem dá uma canja.

irmã, vê se tem tutano e sustança.

 

ah, esse homem em minha mesa.

irmã, não será melhor em sobremesa?” (p. 25)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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