BaléRalé – Marcelino Freire

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Marcelino Freire nasceu em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. É um dos principais nomes da geração consolidada através das antologias da Geração 90. Entre seus livros, se destacam Angu de Sangue (2000) e Contos Negreiros (2005), pelo qual venceu o Prêmio Jabuti de contos.

Livro: Publicado em 2003, o livro ganhou uma segunda edição já em 2004. O livro integra a série LêProsa, parceria entre a Ateliê Editorial e a eraOdito editora. O volume reúne 18 contos e traz texto de orelha de João Gilberto Noll.

Tema e Enredo: Através de contos que focam majoritariamente nas relações familiares e na homossexualidade, o autor expõe problemas de violência, incapacidade de compreensão do outro e preconceito.

Forma: A perspectiva é de indivíduos à margem, o que permite um ponto de vista singular para a sociedade. Os contos se valem da oralidade, seja através de diálogos, de fluxos de consciência ou de um monólogo em que o narrador pressupõe e interage com o interlocutor.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Baile em família

Entre 2000 e 2005, Marcelino Freire publicou três livros e se estabeleceu como um dos principais nomes da literatura. Embora já tivesse publicado os livros acRústico (1995) e eraOdito (1998), é a partir de Angu de Sangue que ele firma o pé na literatura. Com a urgência da denúncia social e a peculiaridade da voz baseada em rimas para histórias de tema realistas, os contos de Angu de Sangue chamaram atenção e logo foram levados aos palcos pelo Coletivo Angu de Teatro, estabelecendo um marco para o teatro pernambucano e para a carreira do escritor. Cinco anos depois, o talento do autor se confirmava com a publicação de Contos Negreiros, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti na categoria contos. Espremido entre um e outro, há o livro BaléRalé.

Publicado em 2003, BaléRalé até teve uma boa trajetória, ganhando já no ano seguinte uma segunda edição. Mas até pela proximidade de se encontrar entre dois pilares da obra de Marcelino Freire, o livro acaba sendo ofuscado. No entanto, as sombras de Angu de Sangue e Contos Negreiros não são capazes de tirar o brilho de BaléRalé. Ainda que se encaixe nas mesmas características temáticas e estéticas produzidas pelo autor em seus outros volumes de contos – como a perspectiva da margem, as histórias com teor de violência e preconceito, o gosto pela oralidade, pelas rimas e pelo humor– BaléRalé apresenta algo próprio, que se revela forte o bastante para defini-lo.

Se não chega a ser algo único na obra de Marcelino Freire, ao menos lhe confere uma unidade e indica uma proposta autoral, um direcionamento que vai além do que simplesmente juntar textos para compor um volume de contos. Do ponto de vista temático, esse conjunto surge através da predominância de abordagens sobre as relações familiares e a homossexualidade. Onze das 18 histórias do livro tem como eixo esses temas.

Nos contos Darluz, Vovô, Mãe que é mãe, Phoder, Balé, Papai do céu e Minha flor; Marcelino Freire aponta para a decadência da estrutura familiar e as consequências disso para a sociedade. Algo que vai dos traumas provocados pelos abusos sexuais cometidos por um pai (Papai do céu e Phoder) e da falta de respeito da neta com o avô (Vovô) à brutalidade revelada pelo discurso das personagens de Darluz e Mãe que é mãe, revelando contextos de miséria, violência e reivindicações por um assistencialismo vampiresco, incapaz de provocar mudanças. O contraponto é amor da mãe de Minha flor, num desequilíbrio entre a preocupação excessiva com a criação do filho e a afirmação da sua própria individualidade e sexualidade.

Assim como ocorre com a família, a incidência de contos sobre o tema da homossexualidade traz variações na abordagem. Ao jogar luzes de novas perspectivas, o autor consegue projetar sombras diferentes sobre o mesmo objeto. Em todos os oito contos em que o autor aborda a sexualidade, a sombra do segredo se projeta. No entanto, contos como Minha flor e Papai do céu seguem pelo rumo do tabu e da repressão sexual que descamba para o abuso e para a negação de si, Homo Erectus e O poeta focam na dimensão de escândalo que ocorre na revelação de alguém ser gay, enquanto que A volta de Carmem Miranda questiona justamente a militância através de um olhar nostálgico para a época em que o segredo era um dos atrativos de ser gay.

Do ponto de vista formal, a leitura de BaléRalé revela um autor consciente do conjunto que foi construído, diversificando suas estratégias narrativas para não abusar das mesma fórmulas e, assim, expor seus segredos pela repetição como ocorre, por exemplo, em Angu de Sangue. A oralidade continua sendo uma constante, mas ela aparece em diferentes embalagens, através de diálogos tradicionais com uso de travessões para indicar as falas dos personagens (Na hora do banho), narrativas em primeira pessoa (A sagração da primavera), em terceira pessoa (no bom E sombra), de fluxos de consciência (Jéssica e Papai do céu) ou de um monólogo em que o narrador pressupõe e interage com o interlocutor, que talvez seja a marca mais forte dos contos do autor.

Por uma ou por outra, aqui Marcelino Freire não limita seus contos a uma reviravolta nas frases finais, condicionando-o ao desfecho. Embora isso até ocorra em Homo Erectus, de maneira geral as histórias reunidas em BaléRalé são trabalhadas como um todo, com seus pontos altos espalhados pela narrativa, o que diminui a dependência por um final arrebatador e até os torne irrelevantes. Nesse sentido, talvez o conto A ponte o horizonte seja o melhor exemplo disso. A partir da tentativa de suicídio de uma pessoa, Marcelino Freire desfia a história, num processo constante de inserir novos elementos e, com isso, criar novas situações até chegar a um absurdo que expõe a sede do brasileiro pelo sensacionalismo.

Relido em julho de 2014

Escrito em 13.07.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Como jornalista e crítico, tenho acompanhado o trabalho de Marcelino Freire desde Angu de Sangue, o que sempre nos faz entrar em contato para entrevistas. [/author_info] [/author]

 

[/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

BaléRalé: 18 improvisos

Marcelino Freire

Editora: Ateliê Editorial

2ª edição, 2004

144 páginas

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“Vamos, caiam fora daqui. Quero ficar na minha. Livre com a minha consciência. O vôo é meu, livre. A queda é minha, livre. A morte eu escolho morrer.” (p. 27. Conto: A ponte o horizonte)

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Adaptação

Alguns contos do livro ganharam adaptações teatrais. A volta de Carmem Miranda e Darluz integra a montagem de Angu de Sangue feita pelo Coletivo Angu de Teatro. O mesmo conto também entrou na peça Sexo Verbal, junto com os contos Phoder e Balé. A volta de Carmem Miranda também reaparece nos palcos na peça Bicha Oca, em julho de 2009, que adaptava livremente cinco histórias de tema gay do escritor Marcelino Freire.

Epígrafes

O livro traz duas epígrafes. A primeira é de Nijinski: “ Minha dança é a da vida contra a morte”. E a segunda é um trecho da música Sangue de Bairro, de Chico Science: “Quando degolaram minha cabeça / Passei mais de dois segundos / Vendo meu corpo tremendo / E não sabia o que fazer / Morrer, viver, morrer, viver!”.

 

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Ramiro R. Batista, no blog Leia Livros!, 26 de novembro de 2009.

(http://leialivroseresenhas.blogspot.com.br/2009/11/bale-rale-marcelino-freire.html).

“a escrita de Marcelino em Balé Ralé é forte, contundente, visceral, quase um atropelamento, por um caminhão, e daqueles bitrem, e carregado de areia ainda. (…). ‘Tá, mas e o conteúdo? Calma. É que agora que a coisa pega. Marcelino em Balé Ralé exibe um estilo de “moleque”, daqueles que só gosta de sentar no fundo da sala de aula para ficar atirando bolinha de papel com o canudo da caneta só para incomodar os colegas e infernizar aquela professora de 60 anos, que voltou a dar aula depois de aposentada.”

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Do mesmo autor

Angu de sangue – Marcelino Freire

Contos Negreiros – Marcelino Freire

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Amar é crime – Marcelino Freire

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Entrevista

Entrevista de Marcelino Freire ao Vacatussa (julho de 2014)

Links relacionados

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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