Boa noite, Zago – Samir Mesquita

0

Desculpe, só consegui vir agora. Onde ela está?
No quarto, deitada.
Qual o diagnóstico?
Mais alguns dias, algumas horas, é incerto.
Está sofrendo?
Não reclama.
Sempre foi forte, não seria diferente agora. Como você tem lidado com tudo isso?
Já sabíamos deste final.
E quem são todas essas pessoas lá dentro?
Vieram acompanhar de perto os últimos relatos.
Ela continua escrevendo?
Obstinadamente. Três cadernos nos últimos dois dias.
Ainda encontra palavras.
Nunca lhe faltaram quando se trata de escrevê-las.
Não é hora de pensar nas que não foram ditas.
Eu sei, mas isto ainda pesa.
Concentre-se no que os silêncios dela lhe disseram.
Talvez não me satisfaçam.
Talvez, pelas circunstâncias, devesse se contentar com eles.
Podemos não falar sobre isso?
Claro, desculpe a intromissão. Bem, gostaria de vê-la.
Não será tarefa fácil.
Percebo. De onde vêm todas essas pessoas? Há quanto tempo estão aqui?
Da cidade toda, de todos os bairros, chegaram logo que o médico disse que não havia mais opções de procedimentos.
E o que querem?
Oras, ela está escrevendo sobre elas, sobre as pessoas de Zago.
Ela sempre escreveu sobre Zago. Sua prosa sempre percorreu os paralelepípedos obtusos desta cidade e entrou nas casas sem bater à porta para extrair dali suas inconveniências. Porém nunca se interessaram pelos seus escritos. O que há de diferente agora?
Está a dar os nomes verdadeiros aos personagens.
Como sabe disso?
Ela anuncia um nome com sua voz frouxa e então começa a escrever. Se a pessoa não está, não demora a aparecer. Tive que tomar um dos cadernos das mãos de um cidadão. Estava desorientado pelo que podia estar escrito.
Agora me diga: como ela consegue escrever com todos esses abelhudos ao redor?
Apenas olha para o caderno à sua frente e escreve. Mas rascunha com letras cada vez mais diminutas, letrinhas realmente impossíveis de serem lidas.
É um modo de manter sua estabilidade enquanto abala a dos espectadores.
Penso que isso faz parte das narrativas.
Pode ser, sempre foi adepta da ironia. Mas acha que ela está fazendo isso porque desta vez faz questão de ter público?
Seria uma vaidade tardia.
Nunca é tarde para vaidades do ego.
Não sei o que a motivou, está muito diferente.
Sabe se escreveu algo sobre você?
Não tive curiosidade. Se tivesse, estaria lá entre eles aguardando ouvir meu nome.
Talvez ela tenha escrito o que sempre quis te dizer.
Mais um motivo para eu continuar longe daquele quarto.
Supõe que ela tenha escrito algo sobre mim?
Se tivesse falado seu nome, teria chegado antes.
Não sou como os outros.
É lógico que não. Mas reside nesta cidade, não reside? Então é óbvio que ainda irá escrever sobre você também.
Pode não resistir até lá.
Fato, a saúde e a escrita dela são imprevisíveis neste momento.
Não me preocupa o que tem a escrever sobre mim, sempre tivemos uma ótima relação.
Ela está a ser extremamente impiedosa entre as vírgulas.
O que quer dizer com isso?
Tem aberto orações explicativas com as mais verminosas palavras.
De todo modo, gostaria de vê-la. Nem que por um instante, nem que uma última vez.
Tente pelo corredor e depois pela porta dos fundos do quarto. As pessoas tendem a se concentrar na porta principal.
Não quer mesmo vir comigo?
Estou bem aqui.

–––––––––––

Conseguiu se aproximar o quanto queria?
Impossível, os acessos estão todos bloqueados. Quantas pessoas há naquele quarto?
Perdi as contas. Tanto que faz frio lá fora, mas não tive alternativa a não ser manter as janelas abertas.
E não faz nada para impedi-los de entrar?
Todos têm o direito de se despedir.
Não estão aqui para dizer adeus, você bem sabe.
Não posso julgar suas razões.
Tem o dever de protegê-la.
Isso nunca constou em meu contrato.
Tem esta cláusula moral em razão do tempo juntas.
Isto nunca se aplicou a ela.
Ela a protegeu mais vezes do que imagina.
Há algo que eu deveria saber?
Se não sabe, é mais um dos silêncios que ela reservou.
Agora é defensor dos hiatos dela.
Apenas respeito suas escolhas. Mas se você não está preocupada com ela, eu estou. Estas pessoas não se cansam?
Em certo momento, todos se cansam.
E não vão embora?
Não arredam nem antes nem depois de ouvirem seus nomes. Permanecem inertes na expectativa do próximo a ser anunciado.
Mas há também crianças e idosos ali. Uma hora o sono há de chegar.
Nenhuma pálpebra é invencível. Nesta hora, as crianças e adultos se deitam com ela. Começam por achar um espaço vazio na cama, depois vão se apertando…
A cama é grande, mas isso é indecoroso.
… Até que começam a se deitar uns sobre os outros, sobre os outros, sobre os outros…
Podem sufocá-la!
Podem, mas não sem antes dizer boa noite.

Compartilhe

Sobre o autor

Samir Mesquita nasceu em Curitiba-PR (1982) e mora em São Paulo. É autor dos livros Dois Palitos (edição do autor, 2007), 18:30 (edição do autor, 2009) e do e-book Clichê (e-galáxia, 2015). Mantém o site: www.samirmesquita.com.br

Comente!