Carros, prédios e overdrives – Renato L

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Quando o movimento Ocupe Estelita ganhou força no primeiro semestre deste ano, não foram poucos os que compararam seu impacto ao do Mangue Beat na década de 90. Novamente, para rememorar o manifesto Caranguejos com cérebro, escrito por Fred Zeroquatro, parecia que uma dose de energia era injetada com o propósito de “estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife” e desmascarar “o desvario irresistível de uma cínica noção de ‘progresso’, que elevou a cidade ao posto de ‘metrópole’ do Nordeste”.

A comparação, claro, não era um mero exercício de nostalgia. A movimentação em torno do Estelita, na sua rica diversidade e na inteligência orgânica coletiva, digamos assim, que traça seus rumos, estava (e continua) conectada realmente com aspectos decisivos do Mangue. Além disso, basta uma olhada superficial nos manifestos e letras de artistas como Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, para mapear o impacto nos seus trabalhos da crise crônica das cidades brasileiras, intensificada ao ponto da catástrofe a partir da “década perdida” que foram os oitenta.

Tomemos, para reforçar esse segundo ponto, uma letra como a de Pastilha colorida, do Mundo Livre. Seus versos autobiográficos descrevem o crescimento desordenado do bairro de Candeias durante a adolescência de Zeroquatro. Uma espécie de distopia urbana onde campos de futebol são abduzidos por prédios e só resta aos jovens trocar “pastilhas coloridas”, referência ambígua ao material usado para revestir construções de baixo custo e aos comprimidos vendidos nas farmácias das esquinas. Ou, então, a incrível letra de A Cidade, talvez a música que melhor traduziu, na década de 90, os impasses da crise urbana brasileira, com seu refrão de precisão absurda: “a cidade não para, a cidade só cresce/o de cima sobe e o de baixo desce”.

É, no entanto, esse refrão clássico de Chico Science que nos permite, também, demarcar algumas diferenças entre o contexto do Mangue Beat e este do Ocupe Estelita. Porque, o fato é que, nos últimos 10 anos, assistimos a um processo inédito e contínuo de redução das desigualdades sociais, onde o “de cima” ainda sobe, por certo, mas o “de baixo” conseguiu ganhos consideráveis. É verdade que essa redução da ainda grotesca disparidade de renda brasileira está ligada a um modelo de desenvolvimento que alimenta, com velhos e novos ingredientes, a crise urbana. Mas isso não anula a importância das conquistas obtidas e só deixa o quadro ainda mais complexo.

Outra diferença a ser notada diz respeito ao campo artístico que melhor captou o “zeitgeist” da época. Se a música surgiu como intérprete privilegiada dos sonhos e pesadelos da Manguetown, agora é o audiovisual que parece dialogar melhor com nossos impasses. Cineastas como Kleber Mendonça Filho e Marcelo Pedroso, ao lado de veteranos cheios de vigor como Cláudio Assis e Hilton Lacerda, elaboraram a crítica mais estimulante ao “Novo Recife”, através de longas e curtas de ficção e de documentários.

Talvez a mudança mais importante, no entanto, seja o próprio Ocupe Estelita. Porque o fato é que o Mangue, apesar do imenso impacto cultural, não veio acompanhado por uma movimentação da sociedade civil com o grau de criatividade e a força potencial que vemos agora. É daí onde, provavelmente, nos próximos anos, seremos lembrados da utopia embutida em um slogan do Maio de 68 remixado por Science e seus companheiros: sob o calçamento está o mangue/está a praia/estão nossos desejos por outro cais, outra cidade.

 

Renato L nasceu no Recife-PE, em 1963. É formado em Jornalismo pela UFPE. Trabalhou muito tempo como DJ, foi o “ministro da informação” do Mangue Beat e secretário de Cultura do Recife por três anos e meio.

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