A cartografia da noite – Micheliny Verunschk

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PRÓLOGO

Autora: Micheliny Verunschk nasceu em Recife-PE, 1972. É autora dos livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme, 2010), b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Em 2014, publicou seu primeiro romance Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Petrobras Cultural). É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP.

Livro: Publicado em 2010 pela Lumme, o livro parece adensar o reconhecimento inicial proposto pela autora em Geografia íntima do deserto, oferecendo a representação de pontos por onde o discurso invariavelmente passa.

Tema e Enredo: O livro é um mapa de uma região intermediária entre o sonho e o pesadelo – metáfora provável da própria existência humana, esse sonho dentro de outro sonho como diria o Buda.

Forma: A tensão se faz presente – porque assumida – entre o material selvagem da experiência subjetiva e o trabalho de composição. Os títulos das seções do livro também reforçam essa tensão, pois todos eles reforçam o caráter técnico que atravessa a proposição metafórica do conjunto: Matemática, Projeções, Cartometria, Mapas e Contrarumo.

CRÍTICA

Anotações de uma deriva noturna

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A cartografia é uma arte curiosa. Segundo Jorge Luís Borges, ela pode ser um dos poucos meios de proteger nossa mente da loucura do ilimitado. Como na fábula do cartógrafo, diz o escritor argentino, que em busca da perfeição cartográfica concebeu um mapa do tamanho exato de uma cidade. Cada ponto dela coincidia exatamente com o desenho que foi traçado para representá-la, de modo que o mapa fez desaparecer a cidade transformada então num jogo de traços e cores.

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Onde termina a solaridade da poesia e começa sua cara noturna? Talvez seja redutor pensar o novo livro de poemas de Micheliny Verunsch – A Cartografia da Noite (Lume, 2010) – nessa dicotomia que os títulos de seus dois livros de poemas parecem sugerir: Geografia Íntima do Deserto x A Cartografia da Noite. A primeira coisa a chamar a atenção nos dois títulos é o caráter metafórico que adquirem as atividades técnicas do geógrafo e do cartógrafo. Olhando em perspectiva os dois livros, tentando entender uma unidade que eles parecem oferecer e a partir mesmo da lógica metafórica que eles sugerem, pode-se pensar que o Geografia íntima do deserto é o exercício inicial de reconhecimento do mundo que nasce de sua escritura poética, e o A Cartografia da Noite. parece adensar esse conhecimento, oferecendo a representação de pontos por onde o discurso invariavelmente passa. Os marcos latitudinais e longitudinais de sua imaginação poética.

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A escritura poética como uma forma de ocupar o mundo é um traço marcante de certa modernidade. Já em João Cabral de Melo Neto, com sua metáfora do Engenheiro, título do livro que inaugura a fase em que a dicção enxuta, econômica e racionalizada passa a caracterizá-lo, tem-se talvez um dos mais importantes exemplos do estilo racional e prismático da poesia moderna. Mas o Engenheiro é uma negação veemente da fase inicial de Cabral, marcada pelo poema dramático Os três mal amados, e principalmente por Pedra do sono, seu primeiro livro e que teria sido renegado pelo próprio autor. Livro de intenso diálogo com o surrealismo, com a linguagem onírica e delirante da imaginação livre e do sonho. O exorcismo cabralino da lava subterrânea da imaginação profunda nunca conseguiu extirpar completamente o indomável limo do acaso de sua obsecada voz geometrizante.

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O diálogo de Micheliny com a poesia de João Cabral já foi apontado mais de uma vez. É um lugar-comum da crítica contemporânea. Um pouco menos se assinalou as diferenças da poesia de Verunschk para com seu modelo emulatório. Nos dois livros, o próprio título anuncia a aceitação do que a poesia de Cabral continuamente tentou controlar ou negar: o assédio da intimidade que costeia todo discurso lírico e a contemplação da imprecisão, da indefinição e do mistério da noite. Ainda mais na poesia de Verunschk a tensão se faz presente – porque assumida – entre o material selvagem da experiência subjetiva e o trabalho de composição. Os títulos das seções do livro também reforçam essa tensão, pois todos eles reforçam o caráter técnico que atravessa a proposição metafórica do conjunto: Matemática, Projeções, Cartometria, Mapas e Contrarumo. Um reforço da tensão racionalização/imaginário. Por outro lado, a metáfora de um saber espacial que a cartografia suscita ganha outras repercussões na maneira mesma como o sujeito lírico se relaciona com o espaço, como ocorre no poema Arrecife: “Desse ponto / partem distâncias imaginárias / que contam / das reais distâncias entre nós. / Um homem posto / à frente de uma janela / é o fantasma de si mesmo / suspenso por linhas / e cores improváveis. / Somos ele / e ele é todos nós / como se não fôssemos / (ainda) / a cidade / em seu entorno (…)”.

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A noite é o espaço fértil do infinito desejo, de suas inúmeras possibilidades. O amor, o prazer e a dor se entrelaçam na estranha viagem do sujeito rumo ao “jardim de serpentes que me devoram os pés”. As imagens assediam o sujeito numa lógica autofágica. Em outras palavras, ele é consumido pelas próprias imagens que cria. O livro é um mapa de uma região intermediária entre o sonho e o pesadelo – metáfora provável da própria existência humana, esse sonho dentro de outro sonho como diria o Buda. Isso talvez explique a recorrência de imagens de “devoração”, como ocorre também no poema sem titulo que fecha a seção Projeções: “traz o teu encanto / de cidade perdida / junto ao meu peito / pois nos meus mapas e manuscritos / não te encontro. / E talvez só no teu corpo / exista a chave / que te decifre // – ou me devore”.

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Há as lacunas da viagem, aquilo que a viajante descuidou. Nesse sentido, o poema Literatura, da seção Mapa, nos parece clandestino. Destoa do conjunto e viaja à sombra das outras peças rigorosamente compostas. É preciso rigor também para com a ironia e, nesse sentido, para mim, as bússolas da poeta falharam nele, deixou-se levar sem a tensão. Outras dissonâncias seriam o uso de um recurso muito eficaz na maior parte dos poemas, mas que pode virar cacoete ao se repetir constantemente. O do corte, o vocábulo órfão, deslocado do discurso, mas capaz de reconfigurá-lo num fecho que surpreende e abre o poema para um jogo de significação mais amplo, como acontece no poema que abre o livro: “Uivo / uma dor perdida / e latejo / num vasto espaço / que a cartografia da noite / diz ser a região dos silêncios. // Uivo // Neblina”. A palavra “neblina” separada do resto do poema e trazendo um dado novo para sua textura metafórica. O mesmo ocorre nos poemas Sala, Um suicídio, Uma criança antiga, mas com graus diferentes de rendimento poético.

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A presença, o sagrado, o abjeto e mesmo o tempo comparecem como motivos e núcleos temáticos fundamentais dessa poesia que busca habitar o terreno silencioso da noite. Descortinar as fantasmagorias de si mesmo que assombram o sujeito permitem, ao mesmo tempo, que ele possa localizar-se de maneira mais consciente no fluxo de sua viagem. Toda viagem é um caminho de volta para si mesmo. É um atravessar de noite escura – diria San Juan de la Cruz – em direção ao “jardim de feras em chamas que há nos sonhos”, que resta como um retorno ritualístico ao paraíso, após a estadia nas paisagens silenciosas da noite. O último poema do livro pode ser lido como esse ressurgimento do discurso órfico transformado pelas suas peregrinações noturnas: “O sol / devolve / cada coisa / que a noite / furtou / com sua língua de gata. / E tudo retorna / ao seu lugar usual. // No entanto, / nem tudo se recupera: / o jardim de feras em chamas que há nos sonhos / e entre o Abismo e o Unicórnio, / Eurídice, / o meu olho cego”. Mundo em movimento, espaço vertigem, mas que tem no seu centro o desejo e o amor sempre fadados a serem interrompidos pela própria lógica da jornada de cada um, mas fica o lembrete: o unicórnio é peregrino.

Relido em novembro de 2014
Escrito em 22.11.2014


Fábio Andrade é poeta, crítico literário e professor de Letras da UFPE.

FICHA TÉCNICA

A cartografia da noite
Micheliny Verunschk
Editora: Lumme
1ª edição, 2010
66 páginas

TRECHO

Uivo

uma dor perdida
e latejo
num vasto espaço
que a cartografia da noite
diz ser a região dos silêncios.

Uivo.

Neblina.

OUTRAS OPINIÕES

Claudio Daniel, na Revista Cult, setembro de 2013.

(http://revistacult.uol.com.br/home/2013/09/cartografias-poeticas-de-micheliny-verunschk/)

“A autora adensa a sua partitura poética de modo inventivo e pessoal sem cair no fácil minimalismo praticado no período – poemas verticais, com as linhas em espaço duplo, poucos verbos, sempre no infinitivo, e ligeiras perturbações na sintaxe. A escrita poética de Micheliny Verunschk não é suscetível de cair na diluição de procedimentos de escolas exatamente por causa de sua sinceridade e fidelidade às obsessões de sua mitologia particular”

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