Cássia – Cícero Belmar

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Não, não me arrependo de nada. Não lamento nada. Rouca e grave, ela dizia. Aliás, ela cantava, mas era tão suave, como se nos dissesse, confessional. “Não, nada de nada”. Jamais imaginaríamos que aquela era uma despedida.

Voz que cabia perfeitamente em qualquer interpretação, desde a balada mais romântica até o rock pesado. Era combustível de minhas transformações. Ela repetia o que Edith dissera, muitos anos antes: “Está tudo pago, varrido, esquecido. Não me importa o passado”.

Aquilo foi me dando uma angústia profunda, perturbadora, pois eu achava mesmo que alguma coisa estava prestes a acontecer. Um mau pressentimento. Foi então que Márcia disse que o sentimento nefasto era consequência de minha caretice, eu estava precisando voltar aos velhos tempos. Relaxe e curta o show, sugeriu. Foi dizendo isso e saindo, para ir ao banheiro.

Talvez fosse a interpretação. Cássia Eller colocava a voz no drama mais profundo: “Com minhas recordações, acendi o fogo, minhas mágoas, meus prazeres. Não preciso mais deles!”

A música falava de um recomeço e eu, não sei por que diabos, me deprimia.

Não sei qual foi a última, mas essa foi a primeira música do show. Quando começou, o palco às escuras, Cássia Eller estava sentada num banquinho tocando violão. Cantava como se a alma estivesse ferida mas pronta para recomeçar. Piaf estava ali em emoção, tensão e no tom, a cantar Non, je ne regrette rien. Eu, no gargarejo, dava para ver até o sinal no lado esquerdo do nariz dela.

Antes do show, passamos no Bar da Risadagem. Eu, Márcia e Flavinho, para “o esquenta”. Estava lotado, clima de festa. Metade do bar iria ao show também. Eu bebi água de coco, tinha parado totalmente por recomendações médicas. Meus amigos, pelo contrário, beberam e cheiraram, ficaram eufóricos. Eu era o único que contrastava com a animação coletiva. Talvez fosse porque estava de cara limpa.

Até aquele dia, Márcia tinha parado também. Ficou uns tempos sem beber, solidária a mim, e isso lhe fez bem. Mas, naquela noite era difícil não cair na farra. Junto com Flavinho, misturavam as coisas. Eu, totalmente careta, entendi que precisava ficar protegendo os dois. Na verdade, estava um chato, querendo regulá-los; e sem querer, ficava analisando ambos, achando que quando a gente está viajando realmente não tem medo de ser ridículo.

Márcia cheirou todas e disse que aquilo era uma perdição total. Ria, feliz e excitada: isso é uma loucura. Não sei onde ela arranjava tanta palavra, falava sem parar. Pó não tem viagem, é um barato, é racional demais, a galera entra numas de concatenar as ideias, fica falando com muita lógica. Ou é assim ou deixa o cara agressivo. Flavinho mandou todas e como sempre ficou pirado.

Terminei convencendo-os de que era importante chegar cedo no Classic Hall, pegar um bom lugar, eu queria ficar bem na frente.

O palco não tinha cenário, nem parecia aquele cheio de flores grandes, do show anterior. Era Cássia, os músicos e a luz por trás. De camiseta preta, cortada nos ombros, ela estava com o cabelo pouco mais crescido, ainda que não fosse grande. Usava bandana e o cabelo ficava meio assanhado. Um par de brincos pequenos.

Non, je ne regrette rien.

Eu não entendia o motivo daquela tristeza que me abatia. Eu chorava, pois sempre fui um merdinha, um babaca emotivo para caralho. Dose de uísque na mão, Márcia foi umas três vezes no banheiro, muito frisson, aquilo já estava dando na vista, eu reclamei.

Márcia ia e eu não entendia o pressentimento inexplicável de que algo aconteceria a qualquer momento. Porra, será que estou com síndrome de pânico? Mas, graças a Deus, nada de extraordinário ocorreu. De tanto ir ao banheiro, ela perdeu quando Cássia Eller levantou a camisa e mostrou o peito.

Cássia já tinha ficado com os peitos de fora no Rock in Rio e o público foi ao delírio. A platéia que naquela noite lotou o espaço de show do Classic Hall também vibrou quando ela repetiu a cena, levantando a camisa. Segurou os mamilos e fingiu que iria chupá-los.

Cássia Eller cantava coçando o saco, imitando cafuçu de quinta, cuspindo no chão, brincando com a gente. Cheia de trejeitos. Ela dizia, aliás, cantava: “Varridos os amores e todos os seus temores; varridos para sempre, recomeço do zero”.

Quando ela cantou os grandes hits, com aquele vozeirão poderoso, o público pulou e cantou junto, aos berros. O segundo Sol, All star, Brasil, Malandragem, Vá morar com o diabo, essas coisas.

Recifense gosta das coisas da terra, tem orgulho de sua música. O Classic Hall quase veio abaixo quando ela cantou Quando a maré encher. Engatou nuns rocks, e o bicho pegou de vez. Não lembro com exatidão qual foi a última música. Acho que foi Bichos escrotos ou Top top. Encerrou na pauleira, isso eu posso garantir.

Flavinho se perdeu da gente. Essas coisas de birita com cocaína são muito ruins. No outro dia, soubemos que ele foi socorrido, levado de ambulância ao hospital mais próximo e os médicos disseram que ele sofrera uma “intoxicação por drogas acima do suportável pelo organismo”.

Os pais de Flavinho eram ricos. Levaram-no para um hospital particular, caríssimo. Três dias depois, fomos visitá-lo em casa. Falei do meu pressentimento e Flavinho brincou, disse que eu o estava agourando mal, mas que ainda não tinha sido dessa vez. Márcia comentou que tinha o corpo fechado e que eu andava cada vez mais bruxo, saravá!

Flavinho não lembrava quase nada do show. Ela estava com a bandana? Realmente ele não vira nada. Os pais pagaram um SPA de desintoxicação, para onde ele iria nas próximas semanas, passaria outras tantas por lá. Márcia jurou que iria largar o vício de uma vez por todas. Rimos. Prometeram que no próximo show de Cássia Eller no Recife estariam comportados.

No início da noite de hoje, 29 de dezembro de 2001, menos de dois meses depois do seu último show no Recife, soubemos que Cássia Eller morreu de repente.

Non, je ne regrette rien. Não, não me arrependo de nada.

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Sobre o autor

Cícero Belmar nasceu em Bodocó-PE, em 1963. É escritor e jornalista. É autor de romances, contos, biografias, livros infantis e peças de teatro, a exemplo de Rossellini amou a pensão de Dona Bombom. É membro da Academia Pernambucana de Letras.

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