Árvore de Maravilha | Blues
set 7th, 2009 | Por Aline Arroxelas | Seçao: Árvore de Maravilha
Enquanto o céu, claro e límpido, convidava à liberdade, o mar era denso, compacto como uma boca aberta faminta.

Enquanto o céu, claro e límpido, convidava à liberdade, o mar era denso, compacto como uma boca aberta faminta.

Amanhã lá, qualquer lugar menos aqui, e ainda em lugar nenhum. / Eu seria uma flecha lançada, / e não uma árvore em solo fértil.

Abrir gavetas, desenterrar lembranças. Divorciar-se de outra época. Separar o que vai continuar com você e o que vai ficar com estranhos.

As palavras se perderam de mim. Não sei onde se esconderam, as danadas, mas não as encontro mais quando preciso.
Casa Vazia
Aline Arroxelas
Minha casa vazia.
As estantes tombadas.
Eu, perdida por entre as fotografias
do passado, do futuro desejado,
do presente espalhado.
As paredes que vão se desnudando aos poucos,
caindo literalmente em pedaços,
que recolho depois em feias caixas de papelão.
A sala será varrida por folhas.
O quarto só será visitado pelo vento.
O barulho da cortina batendo no vidro não incomodará mais [...]
Sereno
Aline Arroxelas
Ainda bem que ainda estava escuro e que, pelas frestas da janela, nenhuma claridade me deixava ver mais do que saber sua presença ao lado. Saber que eu poderia tocar, se quisesse, mas sem querer tocar para que nada se movesse, para que você permanecesse ali, quieto, até que meus olhos pudessem se acostumar [...]
Insular
Aline Arroxelas
Passou a chuva.
Enquanto me seco, transparente,
Empurro para me acomodar às quinas,
Arestas,
Cavernas.
Descubro uma fluidez inédita,
Uma pele anfíbia,
Camuflada.
Enquanto me curo,
Minha alta voz deve ser abafada
(disseram-me que nos silêncios é que se operam os milagres).
Meu peito já encolhido espera a dor de agulhas,
Com medo do médico,
Com medo da doença.
Ainda que cercada de cuidados,
Frequentemente me afogo por entre [...]
João, menino
Aline Arroxelas
O menino, ao cruzar a praça, já podia ver as prateleiras cheias. Não que sua vista alcançasse, ao cruzar a sombra do primeiro banco de cimento, a grave seqüência de estantes guardadas no edifício azul do outro lado, mas sua imaginação já se acordava.
Menino de chinelos, menino de bermudinha marrom clarinha, quase desbotada, [...]
Pé de casa
Aline Arroxelas
A mangueira continuava onde sempre esteve desde que eu a plantei, há uns bons vinte anos. Mas já não havia mais jardim, já não havia mais grama. Era só a mangueira saltando de um quadrado no concreto: rebelde, indômita.
Lembro bem que havia pé de tudo quanto era fruta… tinha a goiabeira perto [...]
Do canto da porta
Aline Arroxelas
Do canto da porta, o gato me espreita.
Com algo de guardião, uma coisa assim
que não sei bem
definir,
ele cobra as minhas escolhas.
O olho do gato me segue
(como me seguem as minhas circunstâncias)
e me dá esse eterno questionamento,
do ser,
do que foi.
Esse olhar, essa ausência felina
É a prova de que falhei.
Porque o gato não [...]