Chupando o Verissimo – Mateus Barbosa

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Alô, Rui?

Rui, é o Anésio.

Grande Freitas!

Não o Freitas. É Anésio, o Pontes.

Grande Pontes!

Desculpa, não sei se te acordei, ou se tirei sua concentração, sei que você gosta de escrever à noite, mas eu precisava falar contigo. É que eu tava escrevendo e… e…

Fala, Anésio.

Bom, é que…

Vou direto ao ponto.

Pra não enrolar e falar logo.

Já tá enrolando.

Então vou dizer.

Já podia ter dito.

Tá. Sem arrodeios.

Tá arrodeando.

Cara, eu sonhei que tava chupando o Verissimo.

Ah, Freitas, quem nunca….

Não é o Freitas, é o Pontes. Pon-tes.

Grande Pontes! Relaxa, quem nunca deu uma chupadinha numa ideia, num diálogo ou num conto do Verissimo?

Não, não é só isso.

E o que é então?

Eu não tava exatamente chupando as ideias do Verissimo, se é que você me entende.

E o que você tava chupando então, cacete?

Isso o quê?

O cacete.

Como assim, o cacete, cacete?

O cacete. O pau, a bilola, a manjuba, a tromba, o maranhão, a rola do Verissimo, porra.

A porra também?

Não, a porra não. Porra, Rui, sei lá. Enfim, eu sonhei que tava pagando um boquete no Verissimo.

Vai ver é um desejo inconsciente, você admira tanto ele. Normal querer sugar um pouco da genialidade do mestre. Mas cair de boca no canudo realmente é estranho.

Aí é que tá: eu sonhei com essa porra, acordei com uma ideia e escrevi algo muito bom, Rui. Um conto de humor, sarcástico, leve, um tema comum, cotidiano. Ficou Genial, Rui, genial! Mas ficou a cara do Verissimo, entende?

Bom pra você. Publica, oras.

E se descobrem?

Se descobrem o que?

Que ontem eu sonhei que dava uma chupada no Verissimo e hoje escrevi um conto hilário com a cara e o estilo dele?

Isso aí já é paranóia.

Eu tô me sentindo como uma prostituta, sabe? Eu chupo o cara e tenho uma ideia que parece que foi do cara que eu acabei de chupar. Parece que eu tô pagando a ideia com um boquete. Sei lá, não tô me sentindo honesto com isso. Fora que eu não gosto de sonhar que tô chupando o pau de ninguém, né? Parecia tão real, Rui, tão real.

Calma. Vai dormir um pouco, tenta não pensar no Verissimo. Amanhã você decide o que fazer com a cabeça fresca. Mas se me permite um conselho…

Foi pra isso que te liguei, Rui.

Você sempre quis ter uma casa em Búzios, não é?

O que isso tem a ver?

Você tem vontade de morar em Paris, não tem?

Também. Mas…

 Se você quer realizar isso tudo sendo escritor, tenta sonhar com o Paulo Coelho hoje, que amanhã você vai escrever uma merda que vai fazer sucesso em mais de oitenta países. E dorme tranquilo, todo mundo fala que ele tem o pau pequeno.

Mateus Barbosa nasceu em Maceió-AL, em 1977. Atualmente vive entre o Recife e o Rio de Janeiro. É escritor de contos e crônicas e roteirista da Rede Globo, onde escreve seriados de TV. É incoerente, paradoxal, vive se contradizendo, se sente como uma fraude e vive tentando não ser desmascarado.

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Sobre o autor

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