Ciclotimia – Maurício Limeira

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A chuva era uma promessa.

“Vai sair?”, ela quis saber.
“Vou.”
“Vai chover…”

O interesse cabia dentro de um papel de bala.

*

“Quer fazer amor?”

Pareceu um filme rodando ao contrário. Ele, que se vestia para sair, parou e foi tirando a roupa recém colocada.

“Quero.”

*

Ela chorou todo o tempo. Gozou chorando.

Ele nunca imaginou que fazer silêncio pudesse doer tanto.

A porta da rua, essa foi ficando cada vez mais longe.

*

“Quer comer alguma coisa?”

Jantaram juntos às quatro da madrugada. Naquela hora, ele ficou imaginando que horas seriam na Ucrânia. E se naquele instante haveria alguém feliz por lá.

Era tudo insuportável. Era ele mais insuportável do que tudo.

“Não liga a televisão agora”, ela pediu. “Agora não. Por favor.”

Ele pôs de volta o controle remoto no lugar.

“Eu não quero brigar com você.”

Ele também não queria.

“Mas você não diz o que está acontecendo.”

Ele também não sabia o que estava acontecendo.

“Eu não posso te ajudar?”

Em algum lugar na Ucrânia, ele tinha certeza de que alguém estava sendo feliz naquele exato instante. Invejou cada poro do ucraniano que estava sendo feliz no lugar dele.

Quando a luz se apagou, a sala ficou completamente escura. Mas eles continuam lá. Dá pra ouvir quando respiram.

*

A promessa se cumpre.

“Está chovendo.”
“Você tirou a roupa da corda?”
“Sim.”

Que bom seria se todos os nossos diálogos contassem com um Nelson Rodrigues supervisionando.

Que bom seria se ao olharmos no espelho não víssemos apenas nós mesmos.

“Vem cá. Deita aqui do meu lado.”

Ele deita. Se aconchegam um no outro.

“Pensando em quê?”, é sempre ela quem fala.
“Na Ucrânia.”
“Ucrânia? Por que Ucrânia?”
“Por nada. Por tudo. Que horas são na Ucrânia agora?”
“Umas três da tarde.”
“Quantas pessoas vivem lá?”
“Umas cinquenta milhões.”
“Qual é a capital deles?”
“Kiev.”
“E o PIB?”
“Não faço a menor ideia. Mas prometo que quando você morrer eu mando te enterrarem lá.”

No escuro, aninhado na pele quente dela, ele sorri.

*

Nesse mesmo instante, no centro de Kiev, na Ucrânia, o sujeito parou no meio da rua e olhou ao redor. Depois continuou andando. Mas agora não via graça em mais nada na vida.

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Sobre o autor

Nasceu no Rio de Janeiro-RJ. É funcionário público formado em História pela UFRJ. Tem contos publicados na revista Cult, e um deles premiado em concurso pela Fundação Ceperj. Mantém o blog: oadversario.blogspot.com.br.

4 Comentários

  1. Angelo Pessoa em

    Caiu-me nas mãos, aleatóriamente, este conto (Ciclotimia do Maurício Limeira). Confesso que gostei bastante, muito mesmo. Principalmente estas conexões entre pessoas ao redor do mundo. Gosto disso. Acho que acontecem… de verdade. Lerei os outros em breve, mas já percebi que o nível literário está altíssimo. Parabéns aos edidores e ao juri. E, é claro, ao autor.

    • Angelo Pessoa em

      Caiu-me nas mãos, aleatoriamente, este conto (Ciclotimia do Maurício Limeira). Confesso que gostei bastante, muito mesmo. Principalmente estas conexões entre pessoas ao redor do mundo. Gosto disso. Acho que acontecem… de verdade. Lerei os outros em breve, mas já percebi que o nível literário está altíssimo. Parabéns aos edidores e ao juri. E, é claro, ao autor.

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