Cidade–fantasma – Newton Moreno

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Ele morava do outro lado de tudo. Arrabaldes de uma cidade que se queria um estado. O dinheiro de faxineiro não permitia pagar as três conduções diárias. Melhor seria pernoitar por perto durante a semana e se permitir o lar só aos finais de semana. Ironia de morar na mesma cidade em que se trabalha, mas é esta a dimensão desumana de nossa esfera urbana. Feitas para gente não caber, quase feitas para serem desabitadas.

A solução encontrada foi dormir no cemitério ao lado do serviço. Imponente, e com jazigos maiores e mais luxuosos que seu casebre. Muitos tinham até capela. Não foi a parte mais difícil adaptar-se a uma morada mais ampla que a sua. Emprestou um colchão velho do depósito da fábrica e se aninhou, sentindo-se assim protegido pelos mortos. Ainda conseguiu pôr a foto da mãe ao lado da foto da lápide, uma sutileza para desenhar uma ideia de ninho.

Dormiu semanas assim, poupando finalmente o dinheiro da condução. Dinheiro que poderia usar para comprar um regalo para sua pretendente. Brasileira das margens. Queria abordá-la com um pouco mais que seu olhar de devoto apaixonado. Um mimo, uma colônia, um buquê de flores.

No começo, claro, sonhou que toda sua parentada vinha lhe visitar. Estava no território dos devolvidos e eles se sugeriam, matando saudades, cobrando orações, alertando sobre vivos. Enfim, seus sonhos eram invadidos pelo seu sobrenome. As raízes da árvore genealógica passeando pelo seu novo canteiro. As árvores de ponta-cabeça e as raízes se conversando pelo céu. Acordou sujo de medo e barro. E só.

Eles nunca se mostrariam ao faxineiro de olhos abertos. Decidiu rezar para suas almas afoitas. Mas, antes de sua prece, avistou uma moça passeando por entre uns túmulos à sua frente. Não sobrou pelo quieto no seu corpo. Reuniu coragem sonolenta para sair do jazigo e enfrentar a visitante. Sua figura esquelética sugeria que era uma visitante do além. Habitante sazonal, teimosa em querer-se neste mundo precário. Demonstrava familiaridade ao cruzar as lápides. Ele pegou a foto da mãe como quem lhe pede para lembrar as orações todas. Mas antes de entoar cantigas, a vizinha sumiu ágil. Talvez fosse um animal, talvez alguém namorando entre jazigos, ou só sua vista cansada. Precisava de alguma explicação para retornar ao sono. Aos poucos o corpo exausto da limpeza diária convenceu seus sentidos a se abandonar. Deixou-se ao descanso.

Tentou nem pensar mais em quem poderia ser a moça, mas não conseguiu. Testemunhou o amanhecer e, agradecido, marchou para a fábrica.

Na noite seguinte, procurou vestígios, pegadas, algum sinal da moça e nada. Trouxe um bastão para se proteger, sem ter a menor certeza da eficácia do objeto na presença de fantasmas. Mas, exaurido da noite mal dormida, desabou rapidamente. Dormiu aliviado até ser acordado por um toque gélido, um pedido de socorro.

Era a mão da moça a ferir-lhe a face com o frio da madrugada.

Deu um salto.

Ela pediu silêncio.

Parecia tão assustada quanto ele.

Ou mais.

Escondeu-se com ele no canto do jazigo.

Foi quando ele ouviu passos cercarem sua lápide. Alguém a seguia. Seria um exército de zumbis apertando o cerco? Seriam anjos socorristas que poderiam conduzi-la ao além? Seriam exorcistas? Ele cerrou os olhos pedindo uma resposta.

Ela saiu correndo assim que o barulho cessou.

Ele agarrou-se à mãe.

Mas então não era alucinação?!

Desta vez, sentiu o toque, o suor metálico, os olhos esbugalhados.

Uma morta-viva era sua vizinha e, ao que parece, estava sendo perseguida. Então outros viriam atrás dela e dele. E se fosse acusado de acobertar a fugitiva?

Considerou não dormir no cemitério esta noite. Estacionou-se na frente da fábrica. Amanheceu ali mesmo e, no outro dia, com dinheiro ou não, iria embora. Não tinha economia que justificasse ser comida de morto-vivo. Desconjuro. No ônibus, lembrou as histórias que os meninos contavam no norte sobre alma penada, alma teimosa que não sabe se abandonar. Quantas vezes a mãe… Tinha deixado a foto da mãe!

Saiu tão desesperado que a foto foi largada. Justo a única foto de sua amada mãe, gasta no porta-retrato colado com durex, esmaecida memória do maior amor. Prometeu que seria enterrado com ela. Não poderia deixá-la lá. Baixou do ônibus e retornou.

Cuidadoso, entrou no cemitério e tudo parecia calmo.

Marchou até sua lápide-quarto.

E constatou assombrado que a moça dormia em sua cama.

E que fantasmas roncam.

Quis fugir, mas algo na beleza soturna da visitante o encantava. Já que ia morrer, que seja com a visão de uma formosa mulher. Viva ou morta, ainda assim mulher. E que mulher. Não parecia tão ossuda roncando. Deixou saudade em alguém, com certeza. Dormindo era mais formosa que os anjos e santas esculpidas pelos jazigos. Seu incansável coração acendeu ao chegar tão perto. E assistiu surpreso sua mão se dirigir a seu rosto querendo senti-la.

A moça deu um salto.

Choque térmico.

Acuada, pediu com um gesto silêncio. Depois investigou o cemitério e retornou mais tranquila. Sentou à sua frente. Aceitou um pouco de água que ele ofereceu. E ele foi aos poucos entendendo que a moça não era morta, era sua conterrânea humana, ainda vizinha desta humanidade.

Teria tido a mesma ideia que ele?

Afinal o cemitério era imenso, o maior da cidade, caberiam outros párias como ele.

Mas ela habitava o lado extremo do cemitério, quase beirando o morro. Habitava com sua família, despejada há meses, o lado mais ermo, esquecido, o que eles chamavam o cemitério do cemitério. A parte em ruínas, descuidada, com ossos à vista, covas sem dono.

Ela estava fugindo porque o pai a queria casar à força.

A moça chorava sua recusa.

Queria fazer ao menos esta escolha, já que o destino não lhe deixou decidir nada mais em sua vida.

Ela sugeriu uma despedida, estendendo-lhe a mão.

Ele segurou sua mão e nunca se sentiu tão vivo.

Ele disse que a acompanharia.

Ela o conduziu até sua morada.

E rasgaram a madrugada apaixonados entre lutos de mármore.

Algumas flores até ganharam viço enfeitiçadas pelo orvalho do amor dos dois.

Qual não foi sua surpresa ao encontrar no lado oriental do cemitério, uma cidade.

Uma favela crescia como erva por entre jazigos.

Ali, todos pareciam já mortos. E como não dizer que eram?

Pareciam fantasmas, e na verdade eram.

Mortos sociais.

Esqueletos com marcas do abandono. O que restou. Um aterro. Uma fronteira insípida lá e cá.

E estranhamente ele sentiu-se em casa. Era sempre assim ao lado dela.

E pediu para ficar.

Ajudou a limpar ossos.

Foi se educando para a morte.

E, o principal, encontrou na moça, quase fantasma, o melhor da sua vida.

Casaram-se na capela do cemitério e ali perto foram enterrados algumas décadas depois.

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Sobre o autor

Newton Moreno nasceu no Recife-PE (1968). Recebeu importantes prêmios no Brasil por sua dramaturgia, como Shell APCA, Contigo! e Prêmio Bibi Ferreira. Em 2016, lançou o livro de contos Ópera. Este conto integra o livro ainda inédito Cidades sensíveis.

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