Cidade nova – Felipe Cruz

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Meu Deus,
na cidade temos esses lugares,
essas longas áreas
construídas há não mais que 30 anos
onde se espera que as pessoas vivam e liguem cada objeto,
repondo incessantemente os bebês
e perdendo-se entre ruídos domésticos de liquidificadores
que fazem a comida,
trituram-na,
e das cadeiras arrastadas até a borda
(observação de uma vida que se desdobra em calma
e muito de dor
por aquilo que as toalhas de mesa e as almofadas não cobrem,
aquilo que o som do trabalho levado adiante do lado de fora não abafa,
tanto, tudo aquilo que somos
bem debaixo dos tetos e entre muros desses quintais generosos
onde criança e adulto e velho e cão evitam lembrar-se
do que os ônibus transportam durante as manhãs e à tarde,
primeiro em direção à e depois de volta da cidade).

Então chove e está tudo desamparado
correndo grande risco de ser compreendido
– essa explosão que se ramifica para dentro da cozinha e da roupa lavada.

E tu andando como te ensinaram a não fazer
e pensando o que tua casa não é,
porque o coração já não pode mais com essa janela vaga
esse leve odor de terra revolvida anos a fio,
quando no passado cada dedo apontava
e cada dente mastigava
a grossa pele do vestígio que os mortos deixaram eras atrás,
antes de serem enterrados à quilômetros de distância.

À parte do epicentro dessa nossa doença.

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Sobre o autor

Nasceu em Belém-PA, em 1988. É formado em Letras, trabalha como professor e escritor. Tem poemas publicados na revista Polichinello e um livro de poesia, "Acúmulo", publicado pela Fundação Cultural do Pará em 2016.

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