Cláudia – Tiago Germano

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Até Cláudia, a morte era a parte do filme que eu não conseguia entender. Era o que acontecia quando a polícia atirava no ladrão e a brincadeira se acabava. Quando o cachorro parava de sofrer e não latia mais no quintal. Quando alguém muito velho viajava para um lugar muito longe e não voltava nunca mais. Quando o jornal não tocava a vinheta e o homem de gravata não dizia boa noite. Quando o juiz mandava todos se calarem antes de começar a partida. Quando juntava gente na frente de uma casa e o dono não estava lá para fazer a festa.

A vida não era esse emaranhado de mistérios. Não se buscava um sentido para as coisas porque as coisas eram mais sentidas, tivesse ou não permissão para fazê-las. O dia de amanhã era um grande brinquedo como todos os outros, só que mais eterno, mais duradouro.

Cláudia tinha seis anos, os cabelos curtos, um sorriso que eu via todos os dias a duas cadeiras da minha. Quando vi Cláudia pela última vez, era dia de sábado, dia de feira. Enterrávamos nossas mãos nos sacos de farinha e ela sorria. Sorria porque iria ver o mar.

No carro, quando era minha família que voltava da praia, fingi muitas vezes dormir para ouvir a conversa dos meus pais. Falavam sempre de Cláudia. Claudinha. “Morte estúpida”, diziam. E eu tentando imaginar como se podia morrer de maneira inteligente. A morte passou a confundir as minhas ideias. Como nas transmissões de TV. Exibiam o enterro do morto e ofereciam “ao vivo”. Não podia suportar essa lógica.

Passei a ter pesadelos. A morte me sorria à distância de duas cadeiras, com os cabelos daquela menina que o pai agarrou na esperança de poder salvá-la, com o uniforme que eu usaria pela manhã, o mesmo que a mãe de Cláudia vestiu nela para ser enterrada, enterrada como as nossas mãos no saco de farinha, com o mesmo uniforme azul, da mesma cor do mar que enchia minhas pernas, que me puxava para dentro dele e me empurrava de encontro às rochas.

Naquela segunda-feira do velório de Claudinha, minha mãe me acompanhou por todo o caminho. No almoço, tentou afogar minha mágoa numa garrafa de refrigerante. Na infância, não me lembro de outra vez que tenha tomado refrigerante em dia de semana. Não me lembro de outra vez em que a morte tenha tido um gosto tão doce.

Tiago Germano nasceu em Picuí, no interior da Paraíba, em 1982. Mora em João Pessoa, onde é repórter do caderno Vida e Arte, do Jornal da Paraíba. É autor de um romance ainda inédito e escreve atualmente o segundo. Seu conto O Domador de Hienas ficou entre os finalistas do Prêmio Off-Flip 2014 e será publicado em coletânea no próximo ano. Claudia faz parte de um livro de crônicas, também inédito.

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Sobre o autor

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