Como inaugurar um gesto?

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Para duas Julianas

Foi preciso submeter-se à pedra para fazer repousar a alma. Assim foi-lhe dada a chance de lutar contra si mesma. Nenhuma vontade de desapegar apesar da dor. Havia algo de pertencimento naquilo que nunca se fez. Era algo de incerto. Esboço. Algo que fazia pulsar. Ainda que esmorecer estivesse sempre dado. Há pessoas do Reino da Pedra cujo Não é sempre escudo. Há pessoas do Reino da Água cujo Sim refunda todas as coisas, inclusive o não – matéria a ser moldada. Estava escrito no Grande Livro que tanto raro quanto impossível era o encontro desses opostos.

Mas quem poderia supor o olhar que supera as superfícies e desconsidera a natureza das coisas?

*

Fui apanhada de surpresa, confesso. Existia nada em mim que pedisse passagem. Há tanto tempo atravessada por falsos mágicos. Criei cicatrizes impermeáveis. Por aqui estava naturalizado o cansaço dos músculos e a falta de densidade nos ossos. Sentir parecia fazer pouco caso de uma trajetória já muito demarcada com fracassos. Então, a tentativa era essa: levantar a guarda, blindar os olhos para qualquer sinal de encanto. Que piada, que piada!

Era quarta-feira, e eu fingi sair de casa para um compromisso inadiável. Mentira. Tudo o quanto se quer no campo do encontro pode ser sabotado, ou, em melhor palavra, recriado. Mas fica amargando na boca e no estômago a possibilidade de desaprovação. Tanta coisa em mim pedia: não vá. Inclusive o desalento de uma noite mal dormida. Fui. Porque ser libriana, dizem, não permite insurreição diante das coisas acertadas com afeto.

Queria ter conseguido resistir à força que me convocava atenção do outro lado da mesa. Queria ter continuado fingindo que não. Mas, sim, tinha sentido mágica desde o primeiro sorriso. E eu quis jogar o jogo como os gladiadores: tudo ou nada. Sem espada ou armadura. Não esperava ir tão longe. Minha certeza era que esbarraria no escudo-Não. Quando não veio, eu deveria supor que era uma questão de tempo sentir pesar a lâmina do primeiro corte.

*

Ela é do Reino da Pedra. Provavelmente, da Família Pura e Brilhante. Porque nunca a pude, nem posso, conter nos meus olhos por muito tempo. Ainda assim. Dói no fundo. Dói e finca. Dói e funda. Hoje há, em mim, um lugar que já não se parece meu. Um lugar desaguado. É que apesar de Pedra, habita nela Fogo. Eu dizia: sim, você dói e brilha. Mas ela dizia que não.

*

Eu deveria supor minha natureza Água. Mas sempre quis ser Pedra. E me vi Pedra tanto tempo que me esqueci de saber o que era. Mas é fato. Nunca tive forma fixa. Nunca pude me resguardar muito tempo em moldes. Nunca fui afeita às barricadas. Tudo em mim que parece pouco tem força na soma. E é diante dos Abismos que me deságuo sem pudores. E assim, escorro intensa. Escorro imensa. Que até na Pedra faço parecer cheia de violência e força. E há barulho. E sou estrondo.

*

Mas é sempre em redor que sei ficar. Num silêncio que abraça. No entanto, tudo nela transpõe abismos para perto. Então, escorro. E há queda. E barulho. E violência.

*

Antes do corte, ela trouxe o bálsamo. Me curou dos atravessamentos feitos pelos falsos mágicos. Desmancharam-se algumas cicatrizes. Foi surgindo nova pele. Porosa. Atravessável. E atravessou, ainda que não quisesse. Atravessou e demarcou espaços. Mas não habitou. Não quis habitar.

*

Eu dizia: sim, você dói e brilha. Mas ela dizia que não. Ela já não diz. E Não.

*

E eu sem força de sair. Porque, sim, por natureza, sou Água que se acalma. Ainda que para ela eu lhe pareça oceano em busca de outras Pedras. Mas não. Enquanto ela brilha Fogo, eu parada. Até que um dia seca.

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