Como se estivéssemos em palimpsesto de putas – Elvira Vigna

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PRÓLOGO

Autora: Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nascida em 1947 no Rio de Janeiro, atualmente mora em São Paulo. Seu romance Por escrito (2014) foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos de melhor romance.

Livro: O projeto gráfico da Companhia das Letras é simples, porém eficaz, escolhendo de modo acertado utilizar como recursos apenas um único padrão de cor e o próprio título da obra.

Tema e enredo: Tendo as confissões sexuais de João como centro da narrativa, o romance nos apresenta a uma sofisticada e intrincada reflexão a respeito dos impasses da vida contemporânea.

Forma: Utilizando uma narração não confiável e um desenvolvimento não linear, Elvira Vigna trabalha com as perspectivas de retomada e reescritura contidas no conceito de “palimpsesto”.

CRÍTICA

Durante calorentas tardes cariocas, uma jovem designer escuta um homem de meia-idade relatar os encontros dele com prostitutas. Nas entrelinhas do discurso do personagem masculino, aos poucos descobrimos existir também uma falência em seu casamento; além disso, João, este homem, é de uma flagrante pobreza de espírito. Esta é a premissa do novo romance de Elvira Vigna, Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas. A designer, narradora do livro, também possui sua cota de fracassos profissionais e amorosos. A cena que os define se encontra na página 40. Os dois personagens conversam em um escritório de uma editora falida. Falta luz, os vidros estão quebrados e há teias de aranha pendentes no teto. Do lado de fora, “postes se tornaram iguais às árvores. São árvores um pouco mais convictas, mais determinadas, mais retas”. A narradora assim descreve João e a si própria: “Eu e João mortos, fossilizados em nossos respectivos lugares, o uísque que seguramos apenas uma mancha um pouco mais escura nos copos de plástico, esses sim, ao contrário da Eneida, indestrutíveis, definitivos, eternos”.

Fiquemos com estes dois objetos: “copos de plástico”, por um lado; a Eneida, por outro. Escolho ambos porque representam duas armadilhas para a literatura contemporânea e sua relação com os diferentes caminhos de representação da vida cotidiana. Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas se destaca da média dos romances porque, primeiro, não se contenta em elaborar tão somente uma Poética do Copo Plástico. Por outro lado, também não há o exibicionismo das citações, do narrador erudito que pincela cinicamente uma suposta “Degradação da Experiência” através de malabarismos filosóficos, teóricos, naquilo que chamo de Literatura Nota de Rodapé. Vigna assume aquilo que penso serem duas das melhores vocações do romance enquanto gênero literário: uma visão crítica de diferentes discursos, posicionados em tensos diálogos; o questionamento do próprio ato de narrar.

O projeto de Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas se impõe três desafios: a posição da sua narradora; uma assumida contradição da linguagem, que é ao mesmo tempo minimalista e dispersiva; a estrutura narrativa, que nos remete ao “palimpsesto” do título. É por dentro mesmo da forma romanesca que as discussões políticas se desenvolvem, discussões estas relacionadas ao machismo, à prostituição, à condição da mulher, às relações de poder entre homens e mulheres. Isto é positivo, pois cada vez mais vejo ser exigida da literatura uma precária militância e uma linguagem da pura transparência.

Acho que Elvira Vigna escreve contra a Literatura. Embora não tenha lido toda a sua obra – Palimpsesto é o terceiro de uma sequência de livros que li da autora carioca; é também, em comparação aos outros dois, aquele do qual mais gostei –, Palimpsesto reiterou esta ideia. Vigna não escreve apenas contra uma visão estereotipada daquilo que muitos leitores e críticos ainda acreditam ser o papel, ou o estilo, de uma escritora. Ela escreve contra a Literatura mesmo, ou melhor, contra um tradicional molde daquilo que se acredita estar escondido por trás de concepções tais como “Estilo literário”; “Literariedade”; “Trabalho com a Linguagem”. Palimpsesto é um romance assumidamente não retórico, não metafórico (embora poesia haja, sim, nele). Em parte, o tema escolhido assim o exige. A prostituta é uma figura recorrente na história da ficção em prosa e a sua representação, em muitos casos, está imersa em uma série de idealizações, preconceitos e exageros.

Além da questão ideológica apontada no parágrafo anterior, Elvira publica seu romance em um mercado editorial no qual ainda ecoao o sucesso de obras como 50 tons de cinza. O modo como o sexo é abordado em Palimpsesto me parece ser uma resposta do romance ao sexo enquanto modismo editorial. Desta maneira, a autora cria cenas como esta: “João e a garota começam a tirar uma parte da roupa. O mínimo. O que não dá para não tirar. Se encaixam no chão com todo o cuidado para manter cabeças, pernas (as deles e das cadeiras) e cotovelos em seus lugares preestabelecidos, evitando assim os ruídos do inesperado. Uis e uuurs. É rápida, a coisa. Seria rápida de qualquer maneira”.

Nesta visão seca e crua do sexo, mas sem recair em naturalismos ou fáceis crises de culpa existencial, está uma das qualidades do livro. Além disso, não há sentimentalismos, nem intenções politicamente corretas na representação das profissionais do sexo que encontramos ao longo das 200 e poucas páginas do romance. Esta ausência de estereótipos em um terreno tão movediço é um alento. Como o romance consegue lograr isto? A chave está na sua narradora. No quanto, embora implicada dentro da história como personagem coadjuvante, ela mantém uma distância cheia de ironias em relação a tudo que a cerca. Ironia, aliás, que a narradora exerce inclusive contra si própria, contra o seu pedantismo e o fracasso de suas ambições. A narradora desempenha uma relação problematizadora com a própria realidade e com o ato de narrar. Sua narrativa não é, por exemplo, totalmente confiável; não há de sua parte nenhum pudor em preencher com a imaginação lacunas a respeito da vida das personagens sobre as quais ela reflete. É bem-vinda em nossa literatura contemporânea um mergulhar mais aprofundado sobre as pessoas; são bem-vindos personagens e/ou narradores que, sem precisar recair em uma literatura intelectual, não obstante colocam para si próprios o desafio de pensar a experiência de si, da convivência de afetos, ou da organização social do mundo enquanto um problema intelectual por excelência, sobre o qual é preciso suscitar toda forma de questionamentos. Palimpsesto não abre somente uma janela do cotidiano: é uma literatura que nos propõe a dúvida.

Assim, justamente quando esta função problematizadora está em evidência, gosto mais do romance. Gosto menos, porém, quando há alguns traços que tenho visto com muita frequência nas nossas narrativas contemporâneas e aqui incluo não só a literatura, mas o cinema brasileiro recente. É algo do qual padece um bom filme como Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Me refiro a um didatismo que, aqui e ali, pode ser encontrado em Palimpsesto, bem como um exagero de, no caso de algumas cenas do romance, se ater demais à mera reprodução, em detalhes, da vida cotidiana. O problema do didatismo é o mesmo em diferentes linguagens: os criadores não confiam na força das cenas ou das metáforas que criaram, precisando desdobrá-las em algumas frases que as explicam, como se assim houvesse um fortalecimento da sua contundência, quando o efeito é o contrário. Por que isso tem acontecido? No caso de literatura, talvez porque haja nos escritores um temor de uma perda da capacidade de intervenção real deles próprios, ou da literatura, no debate público contemporâneo? Mas esta é uma conversa para outra hora.

Uma característica fascinante de Palimpsesto é o descompasso entre uma linguagem de vocabulário simples e direto, com poucos adjetivos, por exemplo. No entanto, a linguagem se ramifica de forma dispersiva ao longo do livro. A gramática e o vocabulário de Vigna são concisos e bastante marcados pela oralidade, portanto; suas cenas e sintaxe, nem sempre. Isto não é um problema. Pelo contrário, é a dissonância enriquecendo o realismo do romance. Palimpsesto segue um ótimo encadeamento não linear dos fatos, sendo estruturado por fragmentos que, seja tematicamente, ou no diálogo entre as linhas finais e iniciais de cada bloco de texto, se reescreve como um palimpsesto. No entanto, volta e meia, especialmente quando cheguei próximo ao final do livro, algo tanto do estilo construído por Elvira, quanto da estrutura do livro, acabou por me cansar um pouco.

Por fim, outro bom aspecto do romance é o personagem João. Se de início ele é o típico babaca, a ponto de ser quase uma caricatura, da metade do romance até o final novas nuances aparecem a respeito do personagem, assim como algumas surpresas. E sim, ele continua a ser um babaca machista, mas João se torna um ser de carne e osso, sem nunca se transformar em uma mera desculpa para mandar ao leitor uma mensagem politicamente importante. Finalizada a leitura entendemos seus medos, suas contradições, sua compulsão, suas emoções de pequeno homem.

“É uma ausência que existe. Um silêncio que existe”, escreve a narradora lá para o fim do romance, já arrematando as suas memórias e fazendo um balanço das vidas que contou, incluindo aí a sua. Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas é uma instigante leitura, cujos maiores méritos residem justamente em como um romance pode abordar, com muita acuidade, o que significam as ausências e silêncios do sexo, das ambições e das confissões.

Lido em setembro de 2016
Escrito em outubro de 2016

FICHA TÉCNICA

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas
Elvira Vigna
Companhia das Letras
1a. Edição, 2016
212 páginas

TRECHO

“Quando ela volta e precisa se transformar de não pessoa em pessoa, o processo é doloroso, íntimo. Põe Gael para brincar com alguma coisa. E começa. E é difícil. É difícil para ela limpar a maquiagem em frente ao espelho. O banho também é demorado e difícil. E uma vez que cheguei mais cedo do escritório de João, vi que ela simplesmente sentava no chão do chuveiro e deixava a água escorrer. Por horas.”

OUTRAS OPINIÕES

Renata Beltrão, no blog Lombada Quadrada, em 6 de setembro de 2016

(https://lombadaquadrada.com/2016/09/06/394/)

“Seja como for, o romance ataca principalmente o poder desumanizador do machismo sobre as mulheres. Quando não é a relação comercial que se estabelece com a prostituição, é a necessidade de afirmação junto aos pares homens que orienta o comportamento de João, por exemplo, na forma como ele não enxerga nem reconhece sua própria esposa como uma igual.”

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

4 Comentários

  1. Gostei da sua crítica, Cris. Uma aula sem pedantismo.
    Concordo com o didatismo excessivo. Creio que isso vá além da literatura e do cinema, para ficar nesses. É algo relacionado à fluidez do contemporâneo, ou como o pessoal do Omelete diz, tudo tem que ser mastigadinho pra essa “geração pera com leite”.

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