Concha – Marina Maria

0

Minha avó não sabia nadar. Nunca entrou em rio, banheira ou piscina. O máximo de contato com a água passando pelo corpo era no chuveiro – nem de escalda-pés ela gostava.

Quando íamos passear no Córrego do Feijão, ela se sentava na grama e sacava a revista de palavras cruzadas da bolsa. Ficava ali, um olho no “cidade italiana, cinco letras, vertical”, outro na gente. Fazia a gestão do lanche, entregava toalhas. Mas não chegava nem perto da correnteza fraca e translúcida, onde eu via a sombra dos peixes em volta do meu calcanhar, brincando entre minhas pernas submersas. Eu tinha 9 anos, eram férias e o sol queimava o caminho do meio do cabelo. Aquela água gelada era minha definição de alegria. Não entendia como a vó podia se contentar apenas com a sombra do jambeiro.

Foram alguns anos negociando uma ida à praia. “Ir nessa lonjura toda pra ver água indo e voltando, pra quê? Não gosto nem de cachoeira, que a água vai numa direção só”, ela dizia. Mas foi. Num janeiro de 95, ela foi. Não comprou maiô nem chinelo – acho que em sinal de protesto. Sentou na cadeira embaixo do guarda-sol com as palavras cruzadas e os lanches, como se nunca tivéssemos saído do Córrego do Feijão. Eu ficava observando ela de longe, enquanto nadava, querendo tanto que ela experimentasse a espuma salgada na pele. Imaginando ela do meu lado, em pé, na beira do mar, sentindo cócegas enquanto a onda cobria nossos pés com areia.

Um dia, logo depois de recolhermos cadeira, guarda-sol, isopor, toalha, chapéu, óculos e crianças, pedi para chegar no mar uma última vez, pois tinha esquecido de catar conchas. A família foi se dividindo nos respectivos carros e a vó ficou para me acompanhar, andando do meu lado, distante o suficiente para não molhar seus sapatos.

Sem perceber, de olho num búzios e no outro, acabei entrando muito para dentro do mar e uma onda me deu uma rasteira. Comecei a engolir água misturada com areia e cabelo e algas e me debati sem conseguir sair do lugar. Meu coração estava na boca. E minha avó, de repente, estava do meu lado, me pegando com as duas mãos e me carregando para fora do mar. Eu me lembro de dizer “você entrou na água!”, mas provavelmente eu só pensei nessa frase, pois havia engolido mar demais para conseguir falar. Assim que me deitou na areia, ouvi ela dizer, achando graça: “a água é salgadinha, minha filha. Tem gosto da salmoura da carne.”

Quando ela morreu, poucos anos depois, coloquei duas conchinhas em seus olhos, lembrando daquele momento em Marataízes. “Eu fiz a vó provar água do mar”, eu dizia para todo mundo no enterro, carregando aquela como a maior conquista que uma menina de 11 anos poderia ter.

Compartilhe

Sobre o autor

Mineira e jornalista. Já escreveu para o Estadão e o UOL. Desde 2011, mantém o blog saldebolinha.com, com receitas, devaneios e memórias. Trabalha com conteúdo para redes sociais e muda os móveis de lugar semanalmente.

Comente!