Contos Negreiros – Marcelino Freire

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Marcelino Freire nasceu em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. É um dos principais nomes da geração consolidada através das antologias da Geração 90. Entre seus livros, se destacam Angu de Sangue (2000) e Nossos ossos (2013).

Livro: Publicado em 2005, o livro reúne 16 contos. A edição tem capa dura. A apresentação é de Xico Sá. O livro ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria contos, em 2006.

Tema e Enredo: Assim como as outras obras do autor, o livro foca em personagens em situações de risco. A diferença é que, em Contos Negreiros, o autor dá uma perspectiva histórica aos problemas sociais, através de links com a escravidão e o processo de colonização do país.

Forma: Variação entre a urgência da denúncia e o humor que se propõe corrosivo, inversão de perspectivas, discursos orais e rimados.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Perspectiva histórica

Que a obra de Marcelino Freire é povoada por pessoas que vivem à margem não chega a ser nenhuma novidade. No entanto, o livro Contos Negreiros traz um diferencial importante para a compreensão do conjunto da obra do escritor pernambucano. Nele, os problemas sociais relatados por Marcelino Freire deixam de serem casos isolados de vômitos do mundo capitalista e ganham uma perspectiva histórica através das referências à colonização portuguesa sobre a força da escravidão. O que era visto apenas como um sinal dos tempos, revela-se uma consequência histórica da nossa incompetência enquanto sociedade em não superar esse abismo que desde sempre nos dividiu entre patrões e empregados, ricos e pobres, apartamentos e barracos.

O interessante é que o efeito é atingido de maneira sutil, através da inserção de elementos que atuam em conjunto. No entanto, o discurso está presente, aqui e ali surgem elementos que se somam e tornam esse vínculo contundente. De maneira mais contundente nos elementos externos, como a bonita capa assinada pelo próprio autor em parceria com Silvana Zandomeni, onde vemos um negro nu, de costas, como se estivesse sendo exibido numa delegacia ou num mercado de escravos. E como o título do volume que remete ao livro O Navio Negreiro de Castro Alves, junto com a epígrafe inicial de Ary Barroso e final de Vinícius de Moraes, a atribuição do autor como filho de Xangô e as dedicatórias aos escritores Cruz e Souza, Férrez, Lima Barreto, Jorge de Lima e o já citado Castro Alves, que lutaram contra ou sofreram preconceito.

Com esse reforço externo, as referências à escravidão nos contos aparecem sem a necessidade de que esse discurso seja verbalizado de maneira explícita, direta, com a presença de um conto que centre seu foco nessa questão. Sem a necessidade de explicar ou costurar essa ligação, Marcelino Freire ocupa-se então à tarefa de mostrar os efeitos, como já vinha fazendo em seus livros anteriores. A referência ao passado até é verbalizada com menções à escravidão nos contos Trabalhadores do Brasil e Meu negro de estimação, por exemplo, mas o peso da crítica do autor vem mesmo pelo exercício de como isso ainda se reflete hoje. Seja com o turismo sexual apresentado nos contos Yamami, Vaniclélia e Alemães vão à guerra, com o fetiche sexual da miscigenação de Meu negro de estimação e Meus amigos coloridos ou com o tráfico de órgãos em Nação Zumbi, as falhas no sistema educacional apontadas em Totonha e Curso superior.

Em todos, é possível enxergar a cisão que marca a sociedade brasileira, revelando uma tensão social que se mostra mais contundente nos contos Polícia e ladrão, Linha do Tiro, Trabalhadores do Brasil e Solar dos príncipes, onde o autor aproveita para apresentar nuances e pintar zonas cinzas no degradê de um Brasil que não se encaixa na dicotomia preto e branco. O que já se impõe na variação das origens do preconceito entre a condição social de Polícia e ladrão e Linha do tiro e a questão racial apresentada em Trabalhadores do Brasil e Solar dos príncipes. E pelas abordagens de ambos. Enquanto no Polícia e ladrão, o preconceito da dona da padaria é a motivação para uma vida de crimes, no Linha de tiro ele já se revela como uma reação, um mecanismo de defesa gerado por um mundo violento.

Já em Trabalhadores do Brasil o autor apresenta um cenário por meio do discurso raivoso e magoado de um negro em ter que se apresentar como trabalhador a um branco. Ao mesmo tempo em que revela a tensão racial, Marcelino Freire aponta para a permanência da sistema escravocrata (ainda que o personagem a negue), ao batizar os personagens com nomes nobres da cultura negra (Zumbi, Olorum, Obatalá e Rainha Quelê) e colocá-los em empregos de vigilância, prostituição e limpeza de fossas, assim como ocorreu no passado, com a captura de reis e rainhas na África para sucumbi-los à escravidão.

Em Solar dos príncipes, ao invés da virulência, o autor opta pelo humor e o poder de corrosão da ironia para expor a estrutura de poder que sustenta a nossa sociedade. Valendo-se da técnica de inversão de perspectiva, Marcelino Freire muda o foco e ressignifica o interesse pela vida na favela (catapultado pelo filme Cidade de Deus) a partir de uma equipe formada por negros querendo fazer um documentário num condomínio de luxo. O que, nas posições contrárias, era visto como algo normal, com a inversão passa a ser visto como uma invasão, um estranhamento que gera medo e resvala em preconceitos. Aqui, os negros já tem poder de fala (ainda que frágil) e mostram uma intenção de reivindicar o seu papel na construção do imaginário.

Relido em julho de 2014

Escrito em 15.07.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Como jornalista e crítico, tenho acompanhado o trabalho de Marcelino Freire desde Angu de Sangue, o que sempre nos faz entrar em contato para entrevistas. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Contos Negreiros

Marcelino Freire

Editora: Record

2ª edição, 2008

109 páginas

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“Não quer deixar a gente estrear a porra do porteiro. É foda. Domingo, hoje é domingo. A gente só quer saber como a família almoça. Se fazem a mesma festa que a nossa. Prato, feijoada, guardanapo. Caralho, não precisa o síndico. Escute só. A gente vai tirar a câmera do saco. A gente mostra que é da paz, que a gente só quer melhorar, assim, o nosso cartaz. Fazer cinema. Cinema.” (p. 25-26. Conto: Solar dos príncipes)

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Palcos

Aproveitando-se da oralidade de Contos Negreiros, o próprio Marcelino levou suas histórias para os palcos através do espetáculo Cantos Negreiros. Com a participação da cantora Fabiana Cozza e os músicos Marcos Paiva e Douglas Alonso, o espetáculo mescla a leitura de trechos dos contos com músicas afro-brasileiras.

 Polêmica

Contos Negreiros recebeu uma crítica raivosa assinada por Jerônimo Teixeira na revista Veja (ver trecho em Outras opiniões, logo abaixo), ao que Marcelino Freire considerou um ataque pessoal, numa espécie de vingança do crítico por conta de uma intriga anterior. Após a matéria, o autor escreveu ao redator-chefe da Veja e também escritor Mario Sabino (Carta aberta ao escritor Mario Sabino) apontando a origem da celeuma. Segundo o autor o problema vinha da sua resposta intitulada Jerônimo, o matador à matéria Subsídios autorais – Era o que faltava: agora os escritores também querem financiamento público, escrita por Jerônimo e publicada em 13 de julho de 2005.

Links:

[learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Moacyr Godoy Moreira, no Cronópios, 3 de agosto de 2005.

(http://cronopios.com.br/site/critica.asp?id=396).

“Em Contos Negreiros, sua nova empreitada na ficção, Marcelino Freire reafirma um jeito seu de narrar – e suas leituras públicas são um elemento imprescindível, quiçá seus próximos livros venham acompanhados de um CD com a voz do próprio autor a interpretar as peças – e sua forma de provocar e registrar a urgência de um mundo caótico que nos fundou e se perpetua. Uma voz ecoando na contra-corrente da prosa tradicional e asséptica.”

Ramiro R. Batista, no blog Leia Livros!, 14 de dezembro de 2009.

(http://leialivroseresenhas.blogspot.com.br/2009/12/contos-negreiros-marcelino-freire.html).

“Envolvendo temas polêmicos, comuns e cotidianos, que estão enraizados na cultura brasileira, os contos tratam de uma maneira ou de outra do preconceito e da discriminação a que sempre esteve sujeito o negro brasileiro, ou o índio, sejam descendentes, ou miscigenados, os famosos pardos, meio mamelucos, cafuzos, pêlo-duros.”

Jerônimo Teixeira, na revista Veja, 20 de julho de 2005.

(http://veja.abril.com.br/200705/p_119.html).

“Freire, na verdade, despontou antes da Flip, com os contos de Angu de Sangue (2000). O que soava promissor no livro de estréia tornou-se, agora, monótono e cansativo. E, sob a falsa novidade da temática racial de Contos Negreiros, o autor se entrega a uma demagogia pegajosa. Permite-se até o elogio da ignorância em Totonha, a história de uma velha que se recusa a aprender a ler (será uma autocrítica enviesada?). O tom de denúncia é insuportável, e a linguagem “oral” e ritmada tem momentos ridículos como os erres dobrados (negrrinhas, prreserrvarr) no conto Alemães Vão à Guerra, que fazem os personagens soar como os nazistas farsescos da série cômica Guerra, Sombra e Água Fresca.”

Marcelo Coelho, no blog Cultura e Crítica da Folha.com, 5 de abril de 2011.

(http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2011-04-01_2011-04-30.html).

“A princípio, minha reação é de identificar certa demagogia na atitude: o autor, que afinal não é negro, adota a máscara narrativa de um negro interpelando o leitor branco. Pensando melhor, a ideia é um pouco mais sutil: não é exatamente que um negro assuma o papel de narrador. O “narrador” não precisa ser imaginado ficcionalmente, como personagem imaginária que dissesse alguma coisa; ele é na verdade produto de uma operação lingüística, pela qual o autor inverte os termos da frase feita, tornando “branco” o que era “negro”. Isto é, a partir da perspectiva branca de quem fala ou pensa “negro safado”, opera-se uma inversão na frase, assim como, talvez, “contos” viram “cantos” quando se passa da capa do livro para as suas páginas internas.”

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Do mesmo autor

Angu de sangue – Marcelino Freire

BaléRalé – Marcelino Freire

Rasif: mar que arrebenta – Marcelino Freire

Amar é crime – Marcelino Freire

Nossos ossos – Marcelino Freire

Entrevista

Entrevista de Marcelino Freire ao Vacatussa (julho de 2014)

Links relacionados

Blog do autor: Ossos do ofídio

Vídeo: Cantos Negreiros, apresentação no FestiPoa Literária, 22 de maio de 2014

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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