Conversa com taxista rumo à Fundação José Saramago – Everardo Norões

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– Casa dos Bicos!, informamos ao taxista, que escuta e cala.

Insistimos:

– Fundação José Saramago!

Ele sorri.

Estava entendido.

Puxa conversa.

Comenta sobre a Casa dos Bicos, antes quase ruína, agora transformada em casa do escritor.

O táxi para num sinal.

Depois de dobrar em direção ao Terreiro do Paço perguntamos se ele já tinha visitado a Fundação. Sorri novamente, com ar cúmplice. Conta que conheceu Saramago, comunista de carteirinha, feito ele. Haviam se encontrado algumas vezes em tarefas miúdas do Partido. Discorre sobre o jeito do escritor: sério, quase rude, franco. Parecido com as coisas que escrevia. Nas eleições o nome dele sempre constava na lista do Partido como candidato, diz. Mesmo sabendo que não seria eleito, apenas para fortalecer a legenda.

O taxista não é mais militante como antes. Agora estava mais à esquerda, confessa.

Da Fundação Saramago o assunto voa para a Fortaleza de Peniche, notícia dos jornais. Segundo ele, a antiga prisão, plantada num penhasco, que era então considerada inexpugnável, vai ser transformada em museu. Foi de lá, conta, que se deu o episódio da fuga de vários dirigentes comunistas. Entre eles, Álvaro Cunhal, que também era escritor e artista. Nos anos de prisão, numa cela solitária, fazia desenhos a carvão, de traço realista, retratando personagens imaginários.

O táxi avança devagar, dribla o elétrico ou bonde. O taxista avisa que estamos quase a chegar. O itinerário bem poderia ter sido mais longo, para continuarmos a conversa e partilharmos um pouco mais o contentamento de quem havia conhecido Saramago.

Paramos na esquina da rua dos Bacalhoeiros. O taxista diz que, com tantas obras em andamento no centro da cidade, não é possível estacionar à porta. Aponta a Casa dos Bicos, do outro lado da rua, montada sobre ruínas desencavadas. Tudo levantado do chão. Pedras da muralha do cerco de Lisboa, que se quer europeia, mas tem mais de Argel do que de Paris, mais de Istambul do que de Londres.

Pagamos a corrida. Em vez de disparar em busca de algum passageiro, ele sai do automóvel para uma despedida mais calorosa.

O edifício agora abriga uma literatura que nos faz sentir o mundo de um jeito diferente. Como a Blimunda, do Memorial do Convento, a dizer: Olho através de vossas tripas para arrancar dessas pedras motivo para encontrar um lugar melhor para o homem. Como esse taxista, que conhece a história de sua cidade e é dela tão apegado quanto as pedras de suas muralhas.

Frente ao edifício, olhando o Tejo, a oliveira plantada na calçada. Ao pé da árvore centenária, trazida da Azinhaga, terra do escritor, conversam suas cinzas. E uma gravação na pedra esbranquiçada, diz:

“Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia: José Saramago: 1922-2010”.

Em vez de folhear livros de José Saramago, ficamos a imaginar como deveriam ter sido as conversas entre ele e o taxista de Lisboa.

Everardo Norões nasceu no Crato-CE (1944). É autor de coletâneas de poemas como A rua do padre inglês (2006) e Poeiras na réstia (2010). Com Entre moscas (2013), venceu o Prêmio Portugal Telecom na categoria contos e crônicas.

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