Costumes – Caio Russo

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Para Bruna Melfa

“Tá vendo aquela casinha ali no barranco? Tem um senhor sentado lá no quintal, não tem?! É o seu Geraldo que aluga os botes, lembra? Então, antes, bem antes, tudo aquilo era rio. Até aqui onde a gente tá, tudo rio. Depois passou um tempão e o rio encolheu, do jeito que você tá vendo agora é menor que antes”, dizia assim sem pressa. Para meu avô não passava de uma anedota para compartilhar comigo, na época ainda com meus doze anos por completar. As aproximações do meu avô com esse neto cheio de alergias, “frescuras da cidade”, e aquele ar taciturno de quem frequentou mais hospitais do que deveria, o amedrontava mais do que a mim, só hoje sei disso. Aquela pele fina beirando o translúcido, e, também, o corpo franzino, indicava não apenas uma saúde debilitada como certo estado constante de convalescença que nunca chegaria a se completar. Os adoentados, por sua própria natureza, exalam uma atmosfera que só com certa dificuldade pode ser compartilhada com os sãos, sei disso hoje. Cada fragilidade minha inquietava-o como um mistério insolúvel: seu neto, algo tão próximo de seu sangue, carne e linhas genéticas, mas também seu neto, uma tapeçaria escrita num dialeto desconhecido, feito em filigranas de um material volátil demais, pequeno demais, instável demais. Eu era como uma xícara de porcelana que meu avô não sabia segurar, as mãos calejadas escolhendo com cuidado cada palavra para não lascar nenhum pedaço de mim. Num simples suspiro mais alongado meu avô acreditava piamente que eu podia desaparecer sem deixar rastros, de uma hora para outra, sem nenhuma explicação, como se não houvesse nenhum caminho, nenhuma memória que provasse minha existência aqui. Seus olhares vinham como que cheios de pequenas tiras de algodão, tentando segurar minha existência ao rés do chão, à vida, aquilo que ele entendia por viver verdadeiramente: a dureza do minério quieto. “O rio encolheu”, essa simples frase me inquietou por anos. Porém, no dia em que me foi dita assim, sem qualquer preparo, foi como se meu avô me tivesse lançado no meio do rio e me abandonado lá, ao fundo, perdido no azul opaco em que não saberia nadar nunca. Naquele dia o jantar parecia distante, as vozes de minha mãe, de meu pai, tias e tios, soavam como por detrás de um cômodo recém-fechado, uma porta que encostara discreta sem nenhuma corrente de ar. Os rostos chegavam abafados, levemente apagados nas bordas, suspensos enquanto caminhavam entre as louças, as conversas, o tilintar dos talheres e certa pressa cotidiana em acabar os afazeres para, em seguida, não irmos a lugar algum. Tudo se resumia em lavar a louça, organizar os copos, cada prato em seu devido lugar, para sentarmos finalmente defronte à espera, numa suspeita tranquilidade familiar. Depois do jantar sofríamos de uma afazia natural, todos sentados em cadeiras de área verde-berrante, com fios esgarçados, pendurados pelo desgaste natural dos dias, formando nítidos buracos no encosto das costas, ficávamos numa mudez entrecortada pela fala desavisada de alguma visita que não entendera, verdadeiramente, nossa religião familiar, transgredindo nosso silêncio marejado de costumes. A inconveniência da visita era recebida com um inopinado desprezo manso, perguntas como “Vocês acham que esse ano está mais quente que o ano passado, quando a gente veio para o Rancho?” eram respondidas – quando respondidas – por um simples “é”, às vezes um “talvez”, dito no fundo da garganta, mais preenchido por mudez que por voz. Apenas os comentários sobre os pernilongos eram permitidos, “quanto pernilongo”, desde que espaçados ao longo das horas. Havia uma ética implícita no cotidiano aparentemente banal de nossa família. A pressa de cada movimento no jantar se transubstanciava, lentamente, numa moleza generalizada. Ninguém parecia estar ali de verdade, eram só uns esboços meio incompletos de um desenho esquecido numa gaveta da casa. Só a face do meu avô continuava intacta, gasta como um papel envelhecido em que alguém escrevera, por linhas tortas, rugas sulcadas ao redor da boca, destacando cada curva da pele magra, como um solo arado por um preguiçoso que ia deixando pela metade o plantio do tempo, abrindo a terra aqui, fechando acolá.

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Sobre o autor

Nasceu em Assis-SP, 1992. É escritor, historiador e pesquisador em História da Arte, Estética e Teoria da Imagem. Autor das obras Delicado desespero de beija-flor em voo (Chiado, 2015) e Alguém, ninguém (Laranja Original, prelo).

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