Crianças Estelitas – Ivan Moraes Filho

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Quem passa de carro tem dificuldade de ver a cidade.

Vidros fechados e ar condicionado no quatro pra se proteger do sol, da poeira, das pessoas. Os olhos firmes no trânsito que pouco anda e muita atenção para parar sempre bem antes da faixa de pedestre. Medo de gente e mais segurança para conferir em paz as novidades do feicebuque que chegam pelo espertofone estrategicamente colocado entre as pernas.

Não é fácil ver as pessoas.

Salvo pra sacar, pelo retrovisor, o movimento daquele rapaz que chega pra vender água/pipoca/fruta. Todo mundo é um suspeito em potencial.

E não se suspeita da vida que acontece todos os dias, nos lugares mais inimagináveis. Por entre os trilhos de uma ferrovia semi-abandonada. Embaixo de viadutos e outras paragens em que pessoas inquietas engenhosamente transformam lona, papelão, plástico e madeira de demolição em residência.

Na cidade em que faltam mais de 100 mil moradias adequadas para a população, não é apenas o déficit habitacional que faz com que muitas crianças vivam em situação de rua. Algumas são expulsas de casa pela miséria, pelo preconceito, pela falta de alternativas. Meninos e meninas que insistem em sonhar não tardam a perceber o tanto que a cidade lhes deve. Na marra, buscam liberdade mesmo sabendo dos riscos que correm em perdê-la de forma definitiva. Seja para a polícia, para algum vício ou para sempre.

Quem participa do #ocupeestelita vem aprendendo muito mais do que imagina com essa turma. É uma galera que já frequentava a região e que foi se chegando aos poucos. Primeiro interessada na comida doada para garantir a permanência do acampamento montado para insistir na discussão pública sobre um projeto que promete mudar (para pior?) a cara do Recife. Depois achando interessante a convivência com aquele povo branco com casa, comida e roupa lavada e que por vontade própria resolveu fincar pé no meio da lama pra dizer que a cidade tem jeito.

“Quando a gente começou a ocupação, esses meninos já estavam por aqui. Então, de certa forma, são eles quem estão nos recebendo e não o contrário. A gente chegou achando que estava somente discutindo as questões de urbanismo que envolvem o Cais e descobriu que nossa luta é muito maior do que isso. A vivência nesse local, que foi ‘esquecido’ governo após governo, dá a real dimensão do quanto precisamos caminhar na garantia do direito à cidade”, explica um dos integrantes do movimento. Estudante de arquitetura, não imaginava o que essa experiência representaria. “A gente é acostumado a ver a cidade de cima, nas plantas. No mundo real, os desafios são gigantescos”.

Hoje, já integrados no esquema da ocupação, os adolescentes participam dos debates, das oficinas, das atividades culturais do movimento. Na divisão de tarefas aprendem (e ensinam) que cor da pele, condição social e gênero não podem ser determinantes para definir quem deve fazer o quê.

As crianças estelitas não escondem a revolta que têm na alma. Estão acostumadas a ver o estado como inimigo. A polícia como algoz e o poder público como apenas um departamento do sistema que foi fabricado para fazer com que seus direitos não atrapalhem o desenvolvimento e o progresso. Mas, no convívio com quem sempre consideraram “de elite”, percebem que há caminhos para mudar essa história.

“No começo a gente se estranhou um pouco, mas hoje tá dando beleza esse lance de maloqueiro com playboy”, brinca um desses meninos. Homem transexual de dezesseis anos que não tem mais contato com a família nem com a escola que não o acolheu. Vive de bicos e outros “corres”, como gosta de dizer. Encontrava seu barato numa garrafinha de Norcola que perdeu o protagonismo em sua vida nesses meses de convivência com a moçada do acampamento.

Perguntado por uma repórter espanhola sobre quais seria seu sonho, apenas riu. “Meu sonho?”. “É, seu sonho”. À insistência da europeia, pensou um pouco mais e respirou fundo antes de abrir a boca.

“Igualdade. Todo mundo igual, sendo tratado igual. Sem frescura de rico, de pobre, de negro, de branco. De mulher, de homem. De porra nenhuma. Todo mundo respeitando todo mundo, sem ninguém ter nem ser mais do que ninguém. Queria meu sonho? Pronto, meu sonho é esse.”

E se foi mais uma aula estelita. Fácil de entender. Menos pra quem só passa de carro.

 

Ivan Moraes Filho nasceu no Recife-PE, em 1976. É jornalista, defensor de direitos humanos, escritor e mestrando em Comunicação pela UFPE. Autor de Quasamar (poesia, 2000), Problema de Coluna (crônicas, 2003) e Kanimambo – um ano em Moçambique (relatos de viagem, 2007). Integra o Centro de Cultura Luiz Freire, edita o blog Bodega (bodega.blog.br), apresenta e dirige o programa Pé na Rua (penarua.tv.br).

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Sobre o autor

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