Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

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Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, interior do Ceará em 1951. É médico formado pela UFPE e escritor. Em sua obra, destacam-se os livros de contos Faca, Livro dos Homens, Retratos imorais e o romance Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009.

Livro: O título reúne uma seleção feita pelo crítico literário Cristhiano Aguiar de 41 crônicas assinadas por Ronaldo Correia de Brito para a coluna Entremez da revista Continente e o site Terra Magazine.

Tema e Enredo: Reflexões sobre o papel do escritor, o sistema literário, a falência da saúde pública, a importância da tradição, o experimentalismo da arte contemporânea.

Forma: O caráter pessoal dos textos é tão evidente que os mais próximos do escritor não terão dificuldades em ouvir a sua voz durante a leitura do livro. Por outro lado, a consciência de Ronaldo em se revelar, às vezes, parece pesar, traduzindo-se num certo didatismo.

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Ronaldo Correia de Brito através do espelho

Não faz muito tempo que os olhos da crítica literária eram condicionados a se voltarem à biografia do autor. Era através da vida dele, do seu engajamento político, das suas proezas intelectuais, das suas noias, obstáculos, loucuras, frustrações e amores que as obras eram analisadas. Embora essa prática tenha caído em desuso – com a ascensão das leituras formalistas (que privilegiam mais os recursos estéticos da obra) e dos estudos culturais (que procuram explicar o livro pelo contexto histórico-social em que fora produzido) –, fica difícil não recorrer ao apelo biográfico quando se trata de resenhar o volume Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola.

O título reúne uma seleção feita pelo crítico literário Cristhiano Aguiar com 41 crônicas assinadas pelo autor de Galiléia para a coluna Entremez da revista Continente e o site Terra Magazine. Dada a amizade entre o crítico e o escritor, a escolha dos textos desenha um painel de interesses, ideias, sentimentos e memórias que reflete diretamente na figura de Ronaldo. Numa via de mão-dupla, ao mesmo tempo em que o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009 lança luz a determinados temas, na intenção de traduzir o mundo em que vive; ele também se revela enquanto ator desse cenário: deixa rastros dos seus caminhos argumentativos, resgata lembranças importantes para sua formação intelectual, aponta referências literárias, expõe sua perspectiva e os valores que o guiam.

Afinal, como bem observa a professora Regina Zilberman na apresentação do livro, a primeira pessoa que assume o papel de narrador coincide com Ronaldo. O eu da narrativa é o próprio escritor, que se posiciona nas crônicas sem os subterfúgios da ficção, sem as maquiagens e disfarces dos personagens. O caráter pessoal dos textos é tão evidente que os mais próximos do escritor não terão dificuldades em ouvir a sua voz durante a leitura do livro. Por outro lado, a consciência de Ronaldo em se revelar, às vezes, parece pesar, traduzindo-se num certo didatismo, em explicações que deslocam o tom natural, transitório e subjetivo das crônicas para uma vocação de registro jornalístico, acadêmico.

Independentemente desses soluços, o que importa é que os fatos descritos nas crônicas de Ronaldo superam os limites da rotina individual para servir de mote na construção de um pensamento crítico, num processo que permite desvendar o contexto e a maneira como o escritor se insere nele. Nesse sentido, é interessante ver como o autor lida com sua condição de escritor premiado, refletindo sobre a transformação da literatura em eventos (na crônica E mesmo assim continuamos escrevendo), a rotina das suas turnês (Uma viagem literária) e a constatação de que a distância a percorrer para reverter o status sagrado da literatura em leitores reais ainda é imensa (Constrangimentos e Os cinco rapazes do hotel Pirâmide).

Mais do que isso, as crônicas também possibilitam uma visão precisa das ideias lançadas pelo autor, apontando opiniões diretas e tentativas de interpretação da sociedade contemporânea que em outros momentos foram ou ainda serão reformuladas dentro do seu universo ficcional. Quem lê as crônicas Peixes, cebolas e políticos; Para onde estão me levando?, Viva o partido encarnado! e Cristo nasceu em Macujê muito provavelmente vai perceber o mesmo sentimento de revolta que aparece com força dilacerante em alguns dos contos de Retratos imorais, onde o autor denuncia o fracasso do poder público, o caos social e o cinismo da classe política.

Mas talvez o melhor exemplo disso sejam os textos Procura-se um personagem, O que faz Mickey no lugar de Jesus? e Natal, pão de ló e Coca-Cola que evidenciam a luta do escritor, já sutilmente travada pela peça O baile do menino Deus, contra a invasão indiscriminada da cultura de massa, num processo de deterioração da tradição e dos valores religiosos da sociedade de consumo. Dentro dessa mesma perspectiva, também podemos entender a obra de Ronaldo a partir das suas ressalvas aos experimentalismos das práticas narrativas contemporâneas (contidas nas crônicas Cortem a cabeça! e A escrita e os modismos) ou do respeito do autor aos mestres da cultura popular, à tradição oral e ao imaginário sertanejo (revelados em Entrevista com o lobisomem, Bach e José Ancieto e E mesmo assim continuamos escrevendo). Posicionamentos esses que indicam caminhos para pensar na estrutura classuda dos livros Faca e Livro dos Homens, na opção pelo encantamento em algumas das suas histórias e no seu processo de reescritura de mitos.

Embora os textos apontem para questões específicas da obra de Ronaldo, no conjunto elas evidenciam o descompasso do escritor com o seu mundo, a sua condição de estrangeiro, de outsider que não consegue se encaixar nos padrões da moda e, por isso, explora a literatura como uma maneira de compreender o outro e a si mesmo. Cada uma do seu jeito, as crônicas colaboram para a identificação dos pilares que sustentam o universo da sua obra numa linha fronteiriça entre o urbano e o rural, o erudito e o popular, o moderno e a tradição, o real e a imaginação que foi tão bem sintetizada no romance Galiléia, através do deslocamento de três sujeitos exilados diante das suas origens.

Lido em Ago. de 2011

Escrito em 19.08.2011

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o autor: Próxima. Como jornalista, tenho acompanhado a carreira de Ronaldo, o que sempre nos coloca em contato para matérias, entrevistas, mediações de mesas e projetos.

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Crônicas para ler na escola
Ronaldo Correia de Brito
Objetiva
1a. edição, 2011
170 páginas

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 “Olhado das ruas e becos, recantos de praças e avenidas, o carnaval revela o Recife e sua gente. Aprecio os enquadramentos fechados, os pequenos planos, as melodias perdidas, os cheiros que entram pelo nariz sem pedir licença, o suor do passista que nos salpica. Gosto do carnaval que nasce espontâneo, por pura vontade de brincar, e do folião que se fantasia, invertendo a ordem do mundo.O carnaval aglomera, vira onda e furacão, mas também é solitário, vontade de um único brincante.” (p. 57, crônica: Sozinho eu vou).

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Do mesmo autor

Faca – Ronaldo Correia de Brito

Livro dos Homens – Ronaldo Correia de Brito

Galileia – Ronaldo Correia de Brito

Retratos imorais – Ronaldo Correia de Brito

Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

Entrevistas

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito ao Vacatussa (outubro de 2014)

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito sobre Retratos imorais (agosto de 2010)

Links relacionados

Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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