Da saudade – Antonio Cláudio Neto

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O rio que corre no teu quintal desfez meus planos de outros lugares, mas ainda quero ganhar o mundo. Embora teu peito, encosto necessário, tenha me ensinado a ter paciência, não saber ao certo quando esquecer me ocupa a sala de estar. É o rio que nasce nos meus olhos no momento em que me despeço – porque me deixou ir embora feito astronauta, enquanto habitávamos o mesmo lugar no espaço. E ainda que eu te olhasse com todo cuidado, pedindo pra correnteza não acabar com a gente, precisaríamos desaguar. Rápido. Como quem deixa de ser rio e aprende a voar. Fica suspenso. Feito nuvem. Mas quando voltei a sentir os escombros da represa que se rompia, pude conseguir tua boca com a ponta do meu nariz.

Eu sou um rio que em você represa.

A última camada da tua colcha de retalhos era a da permanência, parece que todos os tamanhos estavam corretos. Outra canção sobre estar. Tua desordem é agora o meu devir. Infantaria para noites sóbrias. Fratura nas minhas sobreposições de enfrentamentos. Eu sou uma música curta e sussurrada. Meu solo começa no chão. Olhando pra cima; tentando te alcançar. Tu, qualquer canção sobre descansar e pronto. Eu sou uma música de dois minutos e meio. A última do disco.

Acima da cidade, teu beijo. Com a duração de um incenso de âmbar, que é o tempo do seu amor, que é o cheiro e a cor. Sabor do chá de frutas do bosque. Um retrato pra guardar teus cuidados sob os meus dias. Encosta.

O corpo começa a pedir. O copo começa a perder.

Meus pulsos não se firmaram porque me ensinou a fazer sem usar as mãos. Agora, estranho é estancar o córrego sem teu sotaque freando qualquer suposta ansiedade. Ou falta de prática. O tempo só existe quando estamos prestes a partir – ao meio. Pra perto de tudo que é desencontro. E só então pude entender que não fomos feitos para sobrevivermos juntos. No curto espaço entre o pulo e a queda, o sol mirando todas as sombras de dúvidas nos teus olhos lindos – rasgados pelo medo de sentir que é pouco. A distância é um soco que esconde o impacto e excede no sentir da dor.

Uma parte da saudade que tenho hoje vem carregada de teus dedos pequenos bulindo na bagunça do meu corpo. No dia em que enfeitei teus pelos com acordes dedilhados e versos sussurrados na beira do teu coração. No samba de roda, teu abraço. Teus sapatos ajustando os erros dos meus passos. Acordando tudo que é partida. Devagar de novo. Nossos pés nessa calçada pequena. Um refúgio bonito pro tempo tomar todas as decisões por nós. Calmamente. Sem fazer barulho. Sem pisar em nada. Pra lembrar você de longe e admitir que sou a parte que vai embora.

Perto do mar tem saudade demais.

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Sobre o autor

Nasceu em Olindina-BA, em 1993. É bacharel em Direito e mestrando em Crítica Cultural pela Universidade do Estado da Bahia. Mantém o blog: oastronautadasaudade.blogspot.com.

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