Decameron – Sidney Rocha

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1

Aquilo começou dez dias antes, quando Zico apareceu nos jornais com as montanhas de gelo sobre o joelho esquerdo, olhando para a parede branca da enfermaria. Todos os atacantes do mundo sentiram o mesmo calafrio naquela noite. Menos um.

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Paolo Rossi saiu da boate com a garrafa de uísque sob a jaqueta.

Ruth ainda rebolava no colo do jogador quando recebeu as cédulas, enquanto lambia nesgas de vida na taça. Suas lembranças viajavam noites e noites de humilhação nas ruas de Governador Valadares. “Valhadólares”, dizia-se na época.

Quando se viu só, Ruth ligou para o cafiolo. Ia descansar. Não tinha planos de seguir até Trinidad gastando todo o seu dinheiro para ser alguém diferente, como as colegas. Estava satisfeita consigo mesma. As coxas de mármore negro tinham músculos de zagueiro. As pernas estiradas, Ruth não cabia na cama. Assim, encaracolou-se. Quando meteu o travesseiro entre as coxas nuas já voava asa-delta sobre o desfiladeiro dos lexotanômanos.

3

Paolo Rossi subiu até à suíte, mordeu a fatia de pizza, abriu a janela, bebeu o gole no limite para não cair morto, ficou olhando a cidade sem cara e sem coração e caminhou de costas dois passos até a cama pensando num pênalti ao ritmo de um narrador dentro de sua embriaguez. O sotaque de Ruth ainda sibilava líquido na memória e isso o levou à torpeza de um jardim de delícias. Um reino maravilhoso onde brincava menino, naquela tarde, quando o “tio” inglês enviara pela mãe a bola de plástico da cor do sol, com a estampa do goleador Charles Hurst golpeando o vento. Foi assim que abandonou os automodelos da Revell, pra treinar dribles com a bola inglesa marcando escaras marrons na parede branca da sala.

Naquela época, Paolo Rossi tinha dez anos. Moravam perto de Firenze, num pequeno apartamento fumarento sobre a “chaleira”, a antiga lavanderia em formato de bule no centro da cidade, de onde as máquinas gritavam piares de pássaros dia e noite. Havia uma saída à esquerda, pelo beco florido de sombras, e assim ele podia evitar a porta da frente, porque isso fazia Paolo parecer um personagem de Lewis Carroll, ou de algum desenho animado, quando ia à escola ou à igreja. Sair sempre parecia algo humilhante e então ele se acostumou aos limites do muquifo.

O pai de Paolo era um italiano à antiga, os bigodes alaranjados de vícios, os pesadelos da Segunda Guerra enfiando contas de um rosário de sombras e traições nas canecas de vinho, para tudo terminar em ciúmes e úlceras. Mesmo assim, a senhora Rossi conseguia fazer uma vez por ano aquela viagem de veraneio até Lago diGarda, para ler livros durante o piquenique, nos pontos mais distantes do parque, recostada ao peito inglês coberto de lavanda, enquanto agora Paolo brincava na grama com o sol fujão do artilheiro Hurst.

4

Quando Paolo Rossi acordou, viu o sol do meio-dia de Barcelona enfiando agulhas de luz nas cortinas. A mania de esconder a carteira dos colegas nas concentrações o fez tatear com os olhos furados pela luz e, com custo, encontrou-a sob o colchão. Estava fora de forma, mas se sentia bem. Há um ano nem sonhava com outra realidade senão as grades, ou os brutamontes da máfia das loterias entrando na noite dos seus pesadelos ameaçando romper a canivete os ligamentos detrás dos seus joelhos.

Tudo é passado agora. A Itália, o pai morto, a cadeia, Paolo Rossi desafiava o sol do meio-dia traçando retas com o olhar, como se pudesse desenhar campos e traves no ar ou meter gols em cada janela aberta de Barcelona. Ouvia ainda a voz de xamã de Ruth:

“Não se preocupe, bambino. Você vai enfiar três gols naqueles exibidos.”

Nem precisa tanto, tolinha. Um só e basta.”

“Mas será assim. Pedi a Deus por você. Eu vejo.”

“Você jura, minha bruxinha?”

Paolo dormiu.

5

Sonhou com Zico e as montanhas de gelo.

Lembra-se do amigo Gentile rasgando a camisa do atacante, naquele amistoso. Gentile e os amigos de Gentile com suas ideias loucas de prever resultados para tudo na Itália. O Brasil naquela época vivia pedindo esmolas ao FMI. Tão sem defesa quanto naquela partida.

Um Brasil, que pedia Rei, Rei, Reinaldo com seu punho esquerdo crispado contra o regime militar, se calou.

Ruth estava na banheira e viu a partida pelo televisorzinho. Esse mês pagaria a última parte emprestada de sua alma ao cafiolo e estaria livre para dar por amor ― até.

6

Fracasso. Falaram do quanto o Telê Santana recebeu pra se manter sob o elmo da arrogância. Comentaram de Cerezzo entregar o jogo, de Júnior não marcar Paolo Rossi, enfim, todos precisávamos de uma história secreta para resistir, estávamos numa guerra pessoal, numa Copa particular, pensou Ruth. Ela, sim, vencera Valadares, as ruas sujas, as boates da província, mas passou incólume pela inflação, a década das greves gerais, do fracasso, fracasso, fracasso, afinal.

7

Depois de alguns anos, Ruth viu pela janela chegar o amigo. Era um homem já velho, agora. Ainda o podia reconhecer em ternura e delicadezas. Mas Ruth não era mais a mesma. Algo se quebrara. O ânimo, a clarividência, a alegria, tudo nesse mundo requer amor, disse. Estava de mudança para os Estados Unidos, talvez casasse por lá, precisa, de fato, descansar agora.

O amigo entendeu tudo. Apoiou-a em todas as necessidades. Penso que a presença de um na vida do outro será para sempre.

“Eu fiz o Brasil perder aquele jogo, Paolo. Não me perdoo. Fui eu.”

“Não diga tolices, Ruthinha. Fui lá e meti três gols. Três. Combinamos assim. Nos exibidos. Você não acredita mesmo que poderia, não é? Você me deu sorte, meu amor, só isso”.

Ruth estava amarga demais. Ele foi embora.

8

Um ano depois, um jovem a procurou em Los Angeles. Tinha um cartão de Paolo nas mãos, e uma cartinha delicada e mal escrita falando do assunto que mais lhe agradava, ele mesmo; das risadas juntos nesses anos, dos netos na Toscana, da fome no mundo. Ruth se procurou um pouco naquelas lembranças, e a impressão era de não ter existido, e de ter sonhado a Europa, depois a América… Era uma visão para si mesma, um fantasma sonhando sonhos de fantasma. Ficou ali, inumada em tantas recordações, das tantas “ruths” para os tantos “paolos” entrando e saindo, a vida do tudo-passa como a oração de Santa Teresa ensinava, na qual somente Valadares doía o tanto que doía. Mas Ruth julgou a carta sincera.

Estavam em 1994.

Então, ela recebeu o jovem e o amou assim sem amor. “O amor é uma loteria”, estava escrito nas entrelinhas.

Mas ali Ruth já perdera o trato com os jogos, ou com os homens jovens. Os anos desmontaram algo. O corpo se valia de muitas mágicas pra manter a escultura de pé, as curvas pediam penumbras, os dedos sem viço. Era agora feiticeira sem feitios. Talvez não se distinguisse tanto do velho cansado que via de relance passar diante do espelho fazendo caretas ranzinzas. Mas abraçou o rapaz e baliu nele sonhos encaracolados. Ronronou outros mistérios. Quando acordou, ele se sentia confiante e demonstrara alguma gratidão. Não era mais o rato afobado em busca de um milagre. Foi embora.

No outro dia, quando Ruth ligou a tevê e o viu mil vezes perder aquele pênalti, as mechas do cabelo descendo por um dos ombros, a bola muitos metros acima da trave de Taffarel, é que soube se tratar de Roberto Baggio.

Por um momento, Ruth compreendeu que Paolo, ao enviar o rapaz, devolvera para ela a chance de fazer as pazes conosco. E consigo mesma.

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Esta é a história secreta da Copa de 1982. Ela termina por ser também a de 1994. E talvez só traga a melancolia de todas as Copas. Gostaria muito de esta não ser a verdade. Durante esses anos todos, temos convivido com o assunto e com a lembrança de Ruth pondo algodão entre os cristais.

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Por fim, Ruth decidiu voltar Arthur ao Brasil em 2000. Viveu sozinho em Minas. Alguns ligávamos amiúde, no Natal, vez por outra, por qualquer motivo, alguma Copa ou Mundialito. Até que Ruth foi enterrada Arthur no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

A camisa canarinho e a da Azzurra vestiam o caixão simples, de pinho. A missa de corpo presente, sem noticiários, sem gols.

Com o tempo, todos perdem, esta é a verdade.

Ruth entendeu mais rápido que nós.

Sidney Rocha nasceu em Juazeiro do Norte-CE, em 1965. Atualmente mora no Recife. É autor do romance Sofia, uma ventania (1994), Matriuska (2009) e O destino das metáforas (Iluminuras, 2011), pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas. Integrou ainda a antologia Geração Zero Zero (2010).

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Sobre o autor

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