Dias de febre na cabeça – Nivaldo Tenório

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Nivaldo Tenório nasceu em Garanhuns em 1970. Participou das coletâneas Panorâmica do conto em Pernambuco, Recife conta o Natal e Tempo Bom. Em 2008, foi o vencedor do Concurso Osman Lins de Contos.

Livro: Publicado em 2012 pela u-carbureto, o livro reúne 14 contos, com orelha assinada pelo escritor Raimundo Carrero. A arte da capa, embora confusa, consegue traduzir bem o clima angustiante e febril do livro. Importante ressaltar a necessidade de uma melhor revisão no livro, problema que deve ser corrigido com a publicação da sua segunda edição pela editora carioca Confraria do Vento, ainda este ano.

Tema e Enredo: Em linguagem seca, os contos de Nivaldo Tenório partem do cotidiano para contar história de protagonistas, todos homens, envolvidos em um dia a dia entediante e sufocante, no qual o suicídio muitas vezes parece ser a única saída possível.

Forma: Tenório se insere numa boa tradição de contos realistas e urbanos, mas sem recair em maneirismo fáceis ou no brutalismo que marca parte do conto brasileiro desde a Geração 90. A violência, no caso de Dias de Febre na Cabeça, é mais indireta e existencial.

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[learn_more caption=”CRÍTICA” state=”open”]

Em determinado momento do romance A pesquisa, do escritor argentino Juan José Saer, nosso amigo Pichón Garay sente uma experiência de total suspensão do tempo: a mesa na qual senta, as comidas e a cerveja sobre ela, os amigos Marcelo Soldi e Tomatis, o calor, as cadeiras, tudo ao seu redor adquire uma espécie de intensidade cromática e material, mas nada pode ser aprendido desta experiência. Pelo contrário, o que Pichón sente é o quanto o presente se torna uma “bola de vidro sobre a qual as gotas de tempo, sem poder aderir à cápsula lisa e transparente, resvalam até um abismo de eternidade desmoronada e negra”. É justamente este abismo aquilo que assombra os protagonistas do bom livro de contos do escritor pernambucano Nivaldo Tenório, Dias de febre na cabeça. O nada, a ausência de uma dimensão transcendente, a falta de propósito da vida humana e a decadência do corpo e do espírito se revelam em uma prosa cuja concisão realça um pessimismo radical.

Sim, os protagonistas de Nivaldo são sobreviventes, contudo não há neste caso nenhum tipo de heroísmo implícito nesta sobrevivência, nem sequer qualquer gesto a ser admirado. Não se trata de resistir a catástrofes – embora elas existam ao longo dos contos de Dias de febre na cabeça -, nem de lutar contra as vicissitudes da vida; o aspecto “sobrevivente” surge do fato de que os protagonistas vivem em um mundo interior arruinado após o flerte com o abismo da própria vida. Eles sequer, na verdade, chegam a ter a consciência plena do Vazio. Em parte, é por isso que sofrem, porque a angústia existencial existe soterrada pelo fracasso, pelo patético e pelo mais cinzento cotidiano possível. A indagação sobre a finalidade da própria vida não é alvo de uma investigação profunda empreendida pelos personagens; embora questões existam em algumas das narrativas, o que predomina é a crônica de como o Nada, escamoteado pelo dia a dia, suga as suas forças sem que sequer consigam explicar como a queda aconteceu.

É natural, portanto, o caminho da doença, que parece ser uma metáfora recorrente dos livros mais recentes dos autores de destaque de Pernambuco. A palavra “febre” está já anunciada no título e se junta a uma série de imagens de azias, dores de cabeça, suores noturnos, ressacas e cânceres presentes do começo ao fim no livro. Se todas as narrativas de Tenório flertam com o nada e o desaparecimento, a paternidade é portanto geralmente inútil: com frequência a figura do pai nos contos de Dias de febre na cabeça é distante ou se apaga tanto em acidentes de automóvel, quanto sucumbe a cânceres fulminantes.

Se a doença está logo ali, também há o suicídio: poucas vezes vimos tantos personagens em um só livro tirarem a própria vida ou contemplarem a possibilidade de se matar, como faz o personagem Dr. Alípio no final do ótimo Quebra-cabeça. Enforcar-se, definhar de fome ou jogar-se de uma janela – três dos métodos suicidas encontráveis em Dias de febre na cabeça – são gestos sem nenhum tipo de redenção romântica, nem afirmam uma possível tomada de poder em relação às próprias circunstâncias. Pelo contrário, o suicídio surge da maneira mais descarnada possível. A naturalidade do ato não é sequer um elogio, mas um suspiro de alívio da própria narração diante da loucura e da mediocridade de vidas sem sentido.

Os personagens de Nivaldo Tenório são quase todos homens de meia-idade, pertencentes às classes média ou alta, divididos entre uma infância cheia de sofrimentos e um presente no qual com frequência surge a consciência – e as primeiras consequências – da inevitável decadência física que o tempo traz aos seus corpos. No conto Missa do galo, por exemplo, o protagonista é um professor de meia idade que esperará em vão pela chegada de uma ex-aluna recém-saída da adolescência e que estaria supostamente interessada nele. Bebendo, em um bar qualquer, um vinho barato na véspera do Natal, o professor espera e reflete: “Era dado a pensar no tempo e seus estragos. Outro dia encontrou umas velhas fotografias de quando estava no Exército, sentiu uma enorme dificuldade em se reconhecer nelas (…) Daqui a dez anos, dizia outro dia um colega, teremos de pagar por sexo”. Embora haja narrativas em primeira e segunda pessoa, a maioria dos contos de Dias de febre na cabeça é narrada por uma voz em terceira pessoa que engenhosamente estabelece uma distância irônica em relação aos objetos da narração. Vez ou outra, aliás, este narrador interfere um pouco demais no mundo narrado e também parece apressado em expor de uma vez os contextos dos seus personagens, como podemos ver na página 57, no conto Pulgas, a respeito da personagem “moça do caixa”.

O eixo estético da narrativa de Nivaldo é o realismo. Espaço – cidades de médio porte ou subúrbios em geral – personagens e temas me remetem imediatamente a uma boa e forte tradição do conto brasileiro na qual podem ser citados Dalton Trevisan, Antonio Carlos Viana, Vilma Areas, Luiz Vilela. Faço, entretanto, uma ressalva: apesar de Dias de febre na cabeça poder ser aproximado a estes escritores, a escrita de Nivaldo não chega a experimentar com formas narrativas, alegorias e poeticidade da linguagem. Ausente está também uma reinvenção da oralidade em seu estilo, tornando seu chão duro, seco, calorento, sombrio.

No entanto, me agradam particularmente certos ecos do fantástico em alguns do seus contos. Talvez um dos meus preferidos seja o atormentado Medo, no qual o narrador-protagonista, piromaníaco, é atormentado por imagens de mãos e pelas trevas da noite. No conto Entardecer, a memória de um amor de adolescência é abordada na narrativa como um fantasma – impossível não lembrar do clássico Em memória de Paulina, de Bioy Casares -, ao passo que o já citado Pulga e Dias de Febre na cabeça podem ser tentativas de diálogo com os contos A metamorfose e Um artista da fome, de Franz Kafka. Por fim, Bizarro caleidoscópio, embora não seja tão instigante quanto os outros contos citados em Dias de febre na cabeça, talvez por ser excessivamente costumbrista, possui pelo menos uma bela imagem cuja função consiste em desmantelar o próprio compromisso com o realismo: “Quando o serviço de emergência resgatou os corpos, alguém observou que o sangue das vítimas nos pedaços de vidros compunha um bizarro caleidoscópio”.

Assim é, portanto, a escrita de Nivaldo: um dos mais desconfortáveis espelhos que tive o prazer de ler recentemente.

Relido em Set. de 2014

Escrito em 22.09.2014

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[author_info]Cristhiano Aguiar é escritor e crítico literário, doutorando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Dias de febre na cabeça

Nivaldo Tenório

Editora u-Carbureto

1a. edição 2012

103 páginas

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“Não sei quando resolvi sair tateando no escuro. Não sei como cheguei à cozinha. Ali o escuro era ainda maior, mais intenso, quase um muro, uma fortaleza, uma prisão. Eu estava preso, condenado para sempre. Senti vontade de chorar e gritar tudo ao mesmo tempo. Eu ia morrer quando senti na mão o formato quadrado da caixa de fósforos. Não conheço alívio maior do que aquele provocado pelas caixas de fósforos”

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Cristiano Ramos, no Blog de Cristiano Ramos, em 29 de agosto de 2013

(http://blogdecristiano.com.br/blog/?p=941).

“Qual perigo corre Nivaldo, então? De ser soterrado pelo seu pessimismo. Ele vive se pronunciando sobre falta de fé, sobre fato de que estamos aqui para sofrer e morrer. Sua literatura do abismo já nos deixa curiosos, queremos vê-lo lidar mais com a sobrevivência, com o fato de que, apesar de tudo, calhas seguem girando. Não estamos na Idade Média, nosso espírito crítico – dessa longa modernidade que ainda não se encerrou – pede que batalhemos com as fissuras, com os conflitos, com as ambivalências.”

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Entrevista

Entrevista de Nivaldo Tenório ao Vacatussa (setembro de 2014)

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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